Que deus abençoe o (verdadeiro) vinho brasileiro (e castigue os blasfemos)

Jonathan Nossiter

08/05/2012

Interessante artigo de Jonathan Nossiter, publicado em O Globo, sobre as salvaguardas e a campanha do Ibravin. Vale a pena ler...


Imagem do artigo original em O Globo


Enquanto os amantes do vinho prendem a respiração para ver se o governo aprovará a escandalosa “proposta de salvaguardas”, que efetivamente mataria o acesso democrático ao vinho importado no Brasil, e também qualquer esperança de desenvolvimento de uma legítima produção nacional, está em curso uma efetiva campanha e um boicote de consumidores contra os coroneis que lideram o golpe. 

Amantes do vinho — ricos e pobres, de direita e de esquerda, cariocas, paulistas e baia-
nos — inundaram as redes sociais e outras mídias para combater as tentativas de 
Miolo, Lovara, Aurora e outras casas influentes de destruir a cultura do vinho brasileira    (Salton, que endossou o plano,  recuou diante da pressão pública. Mas parece apenas um golpe publicitário). 

Então, qual tem sido a resposta dos golpistas a esse espontâneo e democrático protesto? 

Uma tentativa escandalosamente xenófoba da parte do Ibravin, sua agência lobista, de rotular como antibrasileiro o boicote às salvaguardas, apesar de ser liderado por todos
os defensores históricos do vinho brasileiro, de Arthur Azevedo, diretor e ex-presidente da ABS-SP até a chef mais importante do país Roberta Sudbrack! 

Entre outras coisas, seu porta-voz e seu advogado foram à TV e às redes sociais 
para desacreditar Mario Geisse e Adolfo Lona como, respectivamente, um chileno e 
um argentino intrometidos por terem bravamente se oposto às salvaguardas. A des-
prezível xenofobia a parte (veja a imagem abaixo), é uma acusação absurda porque 
Geisse e Lona fizeram tanto para ajudar a causa do vinho brasileiro nos últimos 40 anos quanto qualquer outro. 

Campanha do Ibravin, ao lado do famigerado mote criado pela ditadura militar, nos anos de chumbo. Qualquer semelhança não é mera coincidência


Dada a suja campanha de desinformação do Ibravin, parece-me ser a hora certa para 
que eu, um orgulhoso brasileiro naturalizado, fale sobre aminha experiência com os vi-
nhos do país. Quando me mudei para o Rio, em janeiro de 2005, poucas pessoas na im-
prensa e quase nenhum amante do vinho levava o produto nacional a sério. Então, fiquei 
feliz e surpreso ao descobrir, por exemplo, que o Riesling Italico, o Pinotage e o Tannat da Dal Pizzol eram deliciosamente vibrantes, leves (em geral, 11 graus de teor alcoólico), fáceis de harmonizar e sugestivos de uma identidade vinícola diferente dos vinhos pesados, doces e carregados de álcool da Argentina e do Chile. Eu também gostei imediatamente dos refinados espumantes Cava Geisse e dos vinhos respeitáveis 
da Marson, e mesmo a produção em escala industrial da Casa Valduga. 

Infelizmente, a Dal Pizzol e a Casa Valduga, desde ntão, deram as costas à busca por uma personalidade autêntica do vinho brasileiro (até mesmo tirando fora suas vinhas de Riesling e Pinotage!) e têm criado vis imitações do modelo “fast-food” dos vinhos argentinos e chilenos. Não coincidentemente, as duas endossaram a venenosa proposta de salvaguardas. 

Felizmente, existem muitos outros que aceitaram o desafio de desenvolver uma identi-
dade autêntica para o vinhobrasileiro. Entretanto, isso levanta a questão: o que é a identidade do vinho brasileiro? As regiões vinícolas da Europa levaram milhares de anos 
para determinar a profunda capacidade de suas terras para a produção de vinhos finos, 
e países como Argentina, Estados Unidos e África do Sul têm pelo menos alguns séculos de descobertas a seu favor. Então, as expectativas devem ser modestas para o Brasil, cujo 
estudo sistemático e produção comercial de vinhos finos realmente começou em 1974 
com Antonio e Rinaldo Dal Pizzol. 

Dada a sua importância histórica, eu espero que os honráveis irmãos Dal Pizzol corrijam os erros de seu jovem e politicamente ambicioso enólogo, Dirceu Scotta, e retornem a fazer vinhos com personalidade gaúcha: bebidas que refletem as qualidades vigorosas, agradavelmente amargas e ácidas que o clima chuvoso e o solo argiloso e arenoso da Serra Gaúcha pro-duzem. É por isso que os vinhos espumantes, que precisam de frescor e alta acidez para brilhar, se saem tão bem no Sul, especialmente nas mãos de Mario Geisse e seu filho, Daniel, que faz, para o meu palato, o mais gracioso e preciso vinho espumante da América do Sul. 

Um ano após minha chegada, tive a sorte de conhecer um jovem casal gaúcho de grande 
coragem, talento, ética e responsabilidade cívica. Luís Henrique e Talise Zanini, com 
os rótulos Vallontano e Era dos Ventos, fazem para o meu palato, os tintos e brancos artesanais de maior qualidade do Brasil (junto com o Angheben). Luís, naquela época, era o mais jovem presidente da Associação dos produtores do Vale dos Vinhedos. Logo depois, ele foi forçado a sair, como acontecera com o seu lendário antecessor, Wer-
ner Schumacher, porque se opôs sem medo às tentativas de Miolo, Aurora, Valduga, Sal-
ton e outros grandes de criar regras arbitrárias para se livrar do nascente movimento 
artesanal (a superioridade dos vinhos artesanais claramente os ameaçava). 

Porque com as medidas ditatorias e protecionistas já aprovadas, como o Selo Fiscal, 
está claro que o real inimigo do vinho brasileiro não é a competição internacional, mas os coroneis que, acima de tudo, querem matar a identidade do vinho brasileiro antes que ela tenha a chance de ser desenvolvida.

Vale a pena questionar o porquê de talentosos artesãos como Alvaro Escher, da Cave 
Ouvidor (seu Peverella e seu Merlot eram belos de partir o coração) e Werner Schuma-
cher com seus excelentes experimentos com a cabernet sauvignon, tenham ambos 
abandonado seus esforços pioneiros. E o porquê de outros 100 produtores artesanais 
fecharem suas portas nos últimos anos. 

Não é o suficiente que o solo e o clima sejam epicamente difíceis (a cada dois anos, há chuva o suficiente para afundar a metade da colheita de um produtor artesanal!). Não é o suficiente que o governo imponha o mais alto regime de impostos sobre produtores de vi-
nho no mundo: 54%! Esta seria uma queixa legitima do Ibravin, se o Ibravin fosse uma legitima representante de todos os produtores.

Não é o suficiente que exista também um nível de burocracia pós-kafkaiana.

Não é o suficiente que muitos bebedores brasileiros cultivem um esnobismo provin-
ciano a respeito do vinho nacional. Não. 

Além desses desafios sisyphianos, os artesãos heróicos, como Zanini, Angheben, Geisse, Don Abel, Adolfo Lona, a cooperativa Hex von Wein, Silvério Salvati e outros, têm que lidar com os gigantes homogeneizantes da indústria, liderados por Miolo e Lovara, fazendo tudo para esmagar sua existência!

E que vergonhosa campanha pseudo-patriótica move sua agência-fantoche, o Ibravin, um descrédito para a nobre história do Brasil como um país de imigrantes.

É uma desgraça ainda maior se considerarmos que: 

1.) As políticas do Ibravin são essencialmente determinadas por sua organização-mãe, a Uvibra. 
2.) O presidente da Uvibra é Henrique Benedetti, o dono da Lovara. 
3.) O Lovara é a parceira do coração, no sul e em Pernambuco, da Miolo. 
 
Ainda mais impressionante, Adriano Miolo ousou declarar recentemente que o Ibravin e a Uvibra “são representativas do setor”,  que apenas eles são responsáveis pelas salvaguardas e que acusar a Miolo de responsabilidade é uma “blasfêmia”. 

“Blasfêmia”? Ele realmente se acha divino? E que nós — e o governo — somos idiotas?

Em breve vamos ver se ele tem razão.
 
 
 





Fonte: O Globo
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