Rolhas ou tampas de rosca, uma dúvida cruel...

14/03/2014

Neste artigo para o website The Drinks Report, o Master of Wine Dirceu Vianna Junior faz uma detalhada análise sobre as alternativas para se fechar uma garrafa de vinho. A tradução, brilhante como sempre, é de nosso amigo e colaborador, Marcello Borges.

 
O tipo de fechamento escolhido para o vinho é um dos problemas mais discutidos no que diz respeito à sua embalagem. Junior MW, da Coe Vintners, fala das opções disponíveis e de alguns dos pontos que os produtores precisam levar em conta para tomar uma decisão adequada.

A forma como o vinho é embalado e apresentado cria um senso de expectativa. Feita corretamente, ajuda o produtor a transmitir um senso de identidade, provoca emoção e, em última análise, cria uma conexão entre o consumidor e a marca. A qualidade do produto é o fator predominante, mas a embalagem pode representar um papel importante na aquisição (ou não) da garrafa e se a compra tornará a ser feita.

Quando compramos pão, leite ou chá, nunca questionamos a integridade do produto. Simplesmente, presumimos que o produto estará apto para o consumo. O vinho é diferente ... oxidação, redução, gosto de rolha e outros problemas podem desempenhar um papel, e o que antes era uma proposta sólida torna-se uma decepção no momento em atinge a taça. 

O tipo de fechamento da garrafa é uma das questões mais controversas de sua embalagem. Os produtores vão tomar sua decisão com base em experiências passadas e na filosofia atual, bem como em questões técnicas, custos, aspectos práticos e as expectativas do mercado.

Muito tem sido escrito sobre o tipo de fechamento nas últimas duas décadas. A indústria evoluiu e felizmente vimos progressos significativos em questões técnicas relacionadas com os tipos de fechamento. 

Sozinha, a indústria da cortiça investiu cerca de € 400.000.000 em pesquisa e desenvolvimento na última década, de acordo com Carlos de Jesus, diretor de marketing da fábrica de cortiça Amorim. 

O duelo do século: cortiça versus screw cap. Haverá lugar para ambas no futuro? Só o tempo dirá...


O debate sobre qual é o melhor fechamento ou o que é certo ou errado deve cessar. A batalha acabou. 


A discussão nos dias de hoje deve ser sobre que tipo de fechamento é adequado para cada estilo específico de vinho e cada canal específico de distribuição.

Ao considerar o tipo certo de fechamento para um canal como o on-trade, o produtor deve levar em conta a expectativa, o estilo de vinho e o nível de qualidade associados ao produto. A atitude do encarregado do canal e do consumidor são vitais. Os canais são diferentes; por conseguinte, diferentes tipos de local de consumo terão requisitos específicos, e isso deve ser levado em conta.

Certos estilos de vinho estão intrinsecamente ligados a certos tipos de fechamento. É raro encontrar um Sauvignon Blanc da Nova Zelândia em qualquer fechamento que não seja o screwcap. Por outro lado, a cortiça é o vedante preferido da maioria dos vinhos tintos de qualidade do velho mundo, destinados a envelhecimento de longo prazo.


Screw-cap, ou tampa de rosca, uma das grandes, e revolucionárias, inovações para fechar garrafas de vinho


João Pires, um Master Sommelier com 25 anos de experiência on-trade e 17 estrelas Michelin no currículo, é claro sobre sua preferência, dizendo: "Eu não tenho problema algum com qualquer tipo de fechamento alternativo, embora eu tenda a preferir a cortiça". Ele acredita que não haveria dificuldades para vender Bordeaux top com screwcap.

Em cada estilo, uma expectativa diferente

Há, certamente, um nível de expectativa ligado a determinados estilos. Guilherme Correa, um dos melhores sommeliers da América do Sul, que trabalha para a Decanter, um dos principais distribuidores do Brasil, foi forçado a retirar da lista um vinho ultra-premium porque os clientes simplesmente não aceitaram um Grand Cru de um produtor famoso da Borgonha com screwcap.

Carlos de Jesus acredita que a cortiça agrega valor ao vinho e observa que das 100 maiores marcas dos EUA, aquelas fechadas com rolha custam, em média, US$ 1,10 a mais do que as garrafas com vedações alternativas.

A atitude do cliente que, em última instância, paga o vinho, é vital. De acordo com Guilherme Correa, isso pode variar de acordo com a faixa etária, e a geração mais velha e mais tradicional costuma optar por cortiça. 

Harley Carbery, diretor de vinhos e responsável por 150 mil garrafas e nove sommeliers no Mandalay Bay Resort and Casino em Las Vegas, tem observado ao longo dos anos que os europeus se opõem a qualquer coisa que não seja a cortiça, enquanto clientes de outras partes do mundo são bastante indiferentes ao tipo de vedação.

Antes de chegar ao cliente, é importante superar qualquer reserva imposta pelo encarregado do canal. Peter McCombie MW, consultor para vários espaços comerciais de alto nível no Reino Unido, tem a mente aberta e fica muito à vontade sobre o tipo de vedação utilizada, desde que faça o trabalho corretamente. Como neozelandês, Peter se entusiasma com o screwcap e é fã da DIAM, mas tem reservas sobre a cortiça devido à taxa inaceitável de falhas e não está interessado em sintéticos. Ele não está sozinho. 

Muitos dos sommeliers entrevistados não gostam de rolhas de plástico. A dificuldade para abrir e voltar a selar a garrafa, bem como as preocupações ambientais foram algumas razões. 

Harley Carbery diz: "Eu quebrei muitas garrafas ao removê-las para considerá-las uma boa ideia".

Tampa com cadeado - esta realmente protege o vinho...


Canal de venda e local de consumo podem definir o tipo de vedação

É importante considerar o local. O screwcap parece ser o vedante adequado em locais com volume de negócios rápido, especialmente vinhos básicos, vinhos para banquetes e também vinhos de estilo aromático e semiaromático. Um das clientes fiéis da Coe Vintners, o Manchester United Football Club, tem uma proporção significativa de vinhos vendidos no estádio com tampa de rosca, tornando rápido e fácil servi-los em dias de jogos. João Pires observou que alguns convidados esperam até clássicos como Chablis e Sancerre com screwcap na faixa de preços mais baixa. 

Por outro lado, há pessoas que gostam de Nova Zelândia Sauvignon Blanc, mas abstém-se de comprá-los porque acreditam que screwcaps são menos eco-amigáveis do que as rolhas.

Phil Crozier, diretor de vinho dos restaurantes Gaucho Grill, é um dos raros compradores on-trade que se dá ao luxo de comprar vinhos para envelhecimento, a maioria dos quais premium e com rolha de cortiça. "Eu amo a ideia de abrir um vinho à mesa com um abridor de garrafas". Apesar de ser curioso sobre o modo como vinhos argentinos de qualidade iriam evoluir com screwcap, ele pensa que a maioria dos consumidores britânicos ainda considera a tampa de rosca equivalente a vinhos baratos. Esta opinião também é compartilhada por alguns produtores, como Lucila Pescarmona da Bodega Lagarde argentina.

Quais as alternativas às rolhas e às tampas de rosca?

Além desses principais modos de fechamento há alternativas. A vedação de vidro Vino-lok, frequentemente encontrada em garrafas de vinhos premium austríacos ou alemães, é um sucesso para Peter McCombie MW, como é a ProCork, embora ele raramente a encontre. 

Vino-Lok em detalhe



Carbery é a favor de todas as vedações, menos as sintéticas. João Pires tem uma opinião semelhante, embora ele seja menos entusiasmado com a Zork. Ele diz: "É um pouco estranho. A melhor maneira de descrevê-la é como um motociclista com um elmo de cavaleiro".
 
Zork, a tampa reutilizável, pode ser uma solução para o futuro?

Guilherme Correa não é contrário à Zork e diz que vedações alternativas em um mercado menos maduro, como o Brasil, são muitas vezes um tema de conversa e pode ser vistas como parte da atração. "Os clientes às vezes compram certos vinhos para mostrar aos amigos estes novos tipos de fechamento", diz ele.

Phil Crozier pensa que as tampas metálicas são uma boa ideia. Peter McCombie MW também elogia esse fechamento por motivos técnicos, mas ambos estão preocupados com problemas de imagem. Há também as vedações futuras, e Harley Carbery acredita que a ideal para vinhos ainda não foi descoberta. Há vários desenvolvimentos nesta área que ainda não foram vistos no mercado. 

Um exemplo é Helix, uma rolha de cortiça que utiliza uma garrafa de vidro especial com gargalo rosqueado internamente e não requer saca-rolhas.

Helix, um tipo especial de rolha


É justo dizer que a maioria dos tipos de fechamento demonstraram significativa melhora técnica na última década. Em alguns casos, são os produtores que não conseguiram adaptar as técnicas de vinificação e de controle de qualidade para os novos tipos de fechamento. Não era incomum encontrar problemas de redução em garrafas de vinho vedadas com tampa de rosca há uma década, devido à falta de compreensão e de adaptação técnica de vinificação para o novo tipo de fechamento. Isso melhorou mas ainda acontece, e não se aplica exclusivamente à screwcap. 

Guilherme Correa teve que enviar um lote de Brunello Riserva fechado com ProCork ao fornecedor devido à redução.

A adaptação ao tipo de fechamento em função do estilo de vinho é importante e pode ter um impacto significativo sobre a qualidade, bem como sobre o estilo. Martin Tesch, da Weingut Tesch, produtor de excelente qualidade de Rieslings secos do Nahe, diminuiu os níveis de sulfito em 30% desde a mudança para Stelvin Lux, uma versão premium do screwcap. Ele disse que a "vinificação tem de ser adaptada e esse processo leva vários anos."

Numa degustação durante o International Sparkling Wine Symposium 2013, uma comparação entre screwcaps com diferentes graus de permeabilidade revelou uma diferença marcante entre o menos permeável disco Saranex, exibindo um vinho que estava descarnado e austero, e exatamente o mesmo vinho em um disco de polietileno injetado e mais permeável, produzindo um vinho mais suave e de textura mais cremosa. 

Este tipo de atenção aos detalhes pode ter um impacto significativo sobre o produto final e certamente deve estar na vanguarda da mente dos produtores no futuro.

A escolha da vedação é uma questão controversa e não mais um mero caso de cortiça versus screwcap. O on-trade é variado e complexo. Existem segmentos diferentes e cada setor tem necessidades diferentes, dependendo do tipo de ponto de consumo, estilo de vinho, nível de qualidade, faixa de preço, aspectos práticos, a atitude do vendedor e a atitude do cliente. 

Uma abordagem "tamanho único" já não é a forma mais prática e inteligente de decidir o tipo de fechamento. Produtores inteligentes devem se comunicar de forma mais eficaz com seus distribuidores para melhorar a compreensão de áreas específicas do comércio e encontrar um equilíbrio entre as necessidades do mercado e os requisitos técnicos práticos. 
Criar um relacionamento duradouro com o cliente deve ser o objetivo final de cada produtor e a embalagem desempenha um papel importante nessa busca.


Sobre o autor




Dirceu Vianna Jr MW (conhecido por todos como 'Júnior') é do Brasil, onde estudou Engenharia Florestal e Direito, mas mudou-se para Londres em 1989, entrando para o comércio do vinho em 1990. Em 2008, tornou-se o primeiro Master of Wine sul-americano e recebeu o Prêmio Errazuriz Viña pela excelência em negócios do vinho. Atualmente, Júnior é diretor de vinhos do Grupo Coe. Ele também é um educador do vinho, consultor técnico, escritor freelance e juiz em muitas competições internacionais de vinhos. Foi palestrante em diversos eventos internacionais de vinho e apresentou-se em canais de rádio e de televisão da América do Sul.
 
 
 O artigo original encontra-se no site The Drinks Report e pode ser lido clicando AQUI

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Dirceu Vianna Junior Dirceu Vianna Jr MW (conhecido por todos como 'Júnior') é o primeiro brasileiro a obter o cobiçado título de Master of Wine. Atualmente mora em Londres
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