A grande mentira da democracia dos vinhos

Matt Kramer/ tradução Marcello Borges

26/08/2012

Será que um vinho realmente fino pode ser algo senão um produto de elite? Saiba a resposta neste instigante artigo de Matt Kramer, conceituado colunista da revista Wine Spectator, brilhantemente traduzido, como de hábito, pelo craque Marcello Borges, tradutor de elite e professor da ABS-SP

Matt Kramer, que além de excelente crítico de vinhos é um verdadeiro filósofo, sempre nos faz pensar sobre temas revelantes e atuais no mundo do vinho


Na cultura norte-americana – e ainda mais num ano de eleições presidenciais – ouvimos muita bobagem sobre democracia. Uma pedra angular da vida americana é que tudo deve estar disponível para todos. É um trampolim muito bom para todo tipo de comércio. 

E certamente soa bem.

Mas será que isso se aplica de fato a vinhos finos? Perceba que enfatizei "finos". O falecido Robert Mondavi certamente teria respondido, "Pode apostar que sim". Ele formou seu império com base no conceito surpreendentemente populista de levar vinhos finos para as massas.

Naturalmente, quando essa empreitada teve início, exemplificada pelo Napa Valley Cabernet de Mondavi, sempre bom e confiável, as "massas" bebedoras de vinho eram muito menores do que hoje, e seu crescimento se deve muito aos esforços do próprio Mondavi. 

Desde essa empreitada remota e profundamente influente (que teve início em 1966 e ganhou fôlego na década de 1970), muita coisa mudou. Agora, o vinho é "normal", algo espantoso, levando-se em conta que há apenas algumas décadas o vinho nos EUA podia ser qualquer coisa, menos normal.

Hoje, estamos diante de uma nova realidade. Em termos simples, é o seguinte: O conflito de nossa época (quanto ao vinho) é que quanto mais o vinho se democratiza, mais nós esperamos encontrar um suprimento ilimitado do que queremos, sempre que queremos.

Para chips de silício ou batatas fritas, esse horizonte ilimitado de disponibilidade democrática é real. Mas para o vinho – um vinho realmente fino – chega-se rapidamente a um ponto de produção literalmente decrescente.

A razão é simples: Os bons vinhos provém de algum lugar, um pedaço de terra num certo microclima que tem limites físicos. É por isso que a designação "single vineyard" nos rótulos, por mais que pareça pedante, vai persistir.

Os produtores costumam se gabar da superioridade de vinhos feitos com a mistura dos frutos de vinhedos diferentes. Isso aumenta sua imagem profissional, mostrando que "a soma é maior do que as partes". Mas eles sabem que o corte ou blend só é importante porque a maioria dos vinhedos não é boa o suficiente para gerar produtos adequados isoladamente. Ou sua necessidade comercial excede seu fornecimento de uvas realmente selecionadas. Seja como for, estão transformando uma necessidade em virtude.

Ninguém fica rico (ou é eleito) nos EUA sendo declaradamente elitista. O truque é fingir que os "privilégios" estão disponíveis para todos. Este é o segredo do sucesso do Napa Valley e de Las Vegas, para não falar de grande maioria das marcas de luxo existentes atualmente.

Mas isso é válido para o vinho? Uma coisa é certa: Muitas entidades gostariam que você pensasse assim. É por isso que vemos tantas garrafas superpesadas, rolhas longas, vinhos reluzentes com a textura de Teflon e uma fruta evidente. E, é claro, os preços elevados que assinalam sua alta qualidade. (Como é que um vinho barato pode ser bom?) 

É a primeira aula do curso de Marketing do Vinho, e todos sabem disso. 

Então, eis os fatos: no mundo do vinho de hoje em dia, século 21, há dois tipos de vinhos finos. Existe o falso vinho fino para as massas e o verdadeiro vinho fino para a elite. A diferença é fácil de perceber. O falso fino é replicável e sua escala de produção pode ser aumentada para atender à demanda. O verdadeiro fino se distingue por sua originalidade e limitação. Você pode ficar tão irritado quanto quiser com essa descrição, mas esses são os fatos.

O segredo da nova democracia do vinho de hoje, a democracia real e operacional, é que a admissão à dita elite é, ironicamente, muito democrática. Qualquer um pode entrar. Basta ter o interesse.

Você achou que eu ia dizer, "o dinheiro", mas – aha! – não é assim. A maioria dos vinhos de "elite" de hoje, autenticamente finos, custam surpreendentemente pouco.

A nova democracia do vinho não diz respeito ao dinheiro, mas ao esforço que você está disposto a despender. Você está disposto (e suficientemente interessado) a ler sobre esses pequenos e intrigantes produtores no Vale do Loire, na Espanha, em Portugal, no Oregon, na Grécia, na Nova Zelândia e nos enclaves pouco alardeados da Califórnia, e depois sair à procura deles? Se estiver – e realmente fizer isso – você está no jogo. Bem-vindo à elite do vinho.

Mas, se não estiver, estão brincando com você. 



A Grande Mentira de nossa época é que você pode ter toda a qualidade da produção artesanal e de uvas realmente capazes de produzir vinhos finos em quantidades ilimitadas e com distribuição generalizada onde quer que você esteja. Não é assim. Quem lhe disser isso tem um poderoso interesse velado em querer que você acredite na Grande Mentira.

Ah, você pode conseguir vinhos bons, tecnicamente bem produzidos e com grande distribuição. Com efeito, essa é a realização da tecnologia e do marketing de nossos tempos. Mas vinhos realmente finos e autênticos? Como os melhores apreciadores diriam, "Pode esquecer".

Isso não é algo que muitos de meus colegas que escrevem sobre vinho gostam de discutir, pois deixa um retrogosto de exclusão, a sensação de que "não vou conseguir lugar na degustação".

Mas é real. Na verdade, é uma das raízes subjacentes, até subconscientes, de um recente debate jornalístico depois que o crítico de restaurantes do New York Post Steve Cuozzo "resmungou" dizendo que as cartas de vinhos de restaurantes eram "100% inescrutáveis" (palavras dele).

O sr. Cuozzo reclamou que não conseguia identificar nenhum dos vinhos numa carta de vinhos de um restaurante. Mas não foi sua ignorância que incitou sua queixa. É que sua autoestima foi ferida. A mensagem subjacente da carta de vinhos é que ele não fazia parte da elite do vinho. Era uma carta idealizada, mesmo que com todos os rapapés, exatamente para que você soubesse quem você é – ou o que você não é.

Hoje, o vinho fino é uma democracia. Qualquer um pode obter sua cidadania. Mas você precisa querer. E precisa se esforçar. 

Cuidado com os populistas, aqueles que dizem que você pode aprender uma língua estrangeira em dez dias sem esforços. Ou que você pode conhecer – e identificar – vinhos finos sem esforços. É uma Grande Mentira. E esta é a verdade.*

*Nota do Editor - desconfie, e muito, de certos Cursos de Vinho que prometem torná-lo um especialista em vinhos em apenas uma ou duas semanas. Esta também é uma grande mentira, muito em voga nos dias de hoje no Brasil...

Fonte: Wine Spectator.com
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