Rioja, um clássico em diferentes estilos

04/05/2015

Rioja é tudo para os apreciadores de vinhos: desde vinhos simples sem passagem por Carvalho, Tempranillos tradicionais envelhecidos em carvalho americano, a cortes mais modernos e exemplares baseados no terroir. A MW Sarah Jane Evans examina os estilos, em artigo para a revista Decanter, traduzido por Marcello Borges, colaborador de Artwine



A história começa em 1980. Até aquele ano, não havia categorização oficial dos Riojas em crianza, reserva e gran reserva. Qualquer vinho engarrafado e rotulado antes de 1980 apresentava simplesmente o ano da colheita. 

Podia ser um vinho envelhecido em carvalho ao estilo reserva, ou um simples maceración carbonica (feito pelo mesmo método dos jovens Beaujolais). 

Dê um salto de 20 anos para a frente e surge uma nova geração de Riojas modernos. Diferentemente dos tradicionais, não apresentam nenhuma garantia de idade.

Compreenda as classificações

A classificação de Rioja é uma garantia do tempo que o vinho passa envelhecendo, mas não necessariamente uma garantia de qualidade. O vinho precisa passar um período mínimo em barris de carvalho de 225 litros, e outro período em garrafa depois. 

Normalmente, os melhores vinhos recebem o maior envelhecimento, mas uma coisa não garante a outra. Perceba que não há determinação da origem do carvalho, seja americano, francês ou de outra procedência.

Crianza

Envelhecimento mínimo de 2 anos, a contar de 1º. de outubro do ano da colheita: pelo menos 12 meses em carvalho para tintos, e seis meses para brancos e rosés.

Reserva

Tintos: Três anos de envelhecimento mínimo, sendo pelo menos um em barril.
Brancos: Dois anos de envelhecimento mínimo, sendo pelo menos seis meses em barril.

Gran Reserva

Tintos: No mínimo dois anos em barril e pelo menos mais três em garrafa. 
Brancos: Quatro anos de envelhecimento mínimo, sendo pelo menos seis meses em barril.

Agora, pule mais 15 anos. Os gostos de hoje concentram-se nas varietais e no terroir. Com a passagem das décadas, os perfis simples de Rioja ficaram borrados. No entanto, 35 anos depois, parece que a cena está voltando a ganhar nitidez.



Tradicional vs moderno

O clichê de um Rioja tradicional é o de um vinho com envelhecimento extenso em carvalho americano, feito com um corte de uvas centrado na Tempranillo. Seu corpo é leve a médio, o álcool é moderado e ele tem uma pátina de idade maravilhosamente harmoniosa e elegante. 

Ainda há um bom número desses vinhos antigos e finos nas bodegas de Rioja, e restaurantes espanhóis com adegas especializadas ainda os vendem a preços surpreendentemente baixos. Os vinhos não aparecem com frequência em leilões internacionais, embora o interesse esteja aumentando.

Mas como estarão os Riojas de hoje, feitos à maneira tradicional, dentro de 50 anos? Os vinhos mudaram. Até o produtor mais clássico presta atenção no vinhedo e na cantina. 

O que distingue os Riojas recentes é seu caráter densamente colorido, superconcentrado, que conquistou novos fãs que gostam de tintos ousados e frutados. Esses vinhos são o resultado de um novo foco no vinhedo, incluindo-se estudos de clones específicos (como os realizados em Roda, por exemplo), produtividade baixa, fermentação em lotes pequenos e separados e envelhecimento em carvalho francês. 

Frequentemente, esses vinhos são puramente Tempranillo. Foram lançados após um período mais curto no barril e na garrafa. Mesmo sendo um efeito estilístico, sem dúvida tornaram-nos financeiramente mais atraentes para o produtor, garantindo um retorno mais rápido sobre o investimento.



Clareza a partir da complexidade

Felizmente, essa época de Riojas super-concentrados, muito adocicados e com madeira excessiva está mais ou menos para trás. Hoje, a região oferece uma gloriosa diversidade de opções, embora exija tanto estudo quanto qualquer região produtora de vinhos finos. 

Começando pelo carvalho: os produtores de gran reservas estão usando uma mescla de carvalho francês e americano; o mesmo têm feito aqueles que antes usavam apenas carvalho francês 100% novo. O uso franco do carvalho está se amainando, visando a produção de vinhos mais integrados e complexos.

No que concerne à uva, muitos produtores modernos oferecem vinhos feitos 100% de Tempranillo. Minha preferência pessoal é por cortes. Não há nada de intrinsecamente melhor em se usar uma só varietal, além do fato de ser mais fácil explicar o vinho no rótulo. Mazuelo (Carignan), Garnacha e Graciano têm tido um papel pequeno mas útil na região. 

O mesmo se pode dizer da Cabernet Sauvignon, que chegou a Rioja com a Marqués de Riscal em 1862. Recentemente, tem havido uma tendência a versões monovarietais de algumas dessas uvas "menores". 

O vinho Graciano, da Contino, sem dúvida é o de maior sucesso, especialmente para essa que é uma uva notoriamente difícil de trabalhar. 

A Garnacha, de regiões mais quentes da Rioja, tem sido usada há tempos para cortes por produtores na zona da Rioja Alta, mais fria.

 Agora, essa uva recebeu o poderoso apoio de Alvaro Palácios, que se ocupa em restaurar a qualidade e a reputação dessa varietal em Alfaro, na extremidade leste da Rioja. Procure o Valmira, um vinho monovarietal de Garnacha de vinhas velhas, "muito borguinhão, muito perfumado", que ele vai lançar nesta primavera. 

Quem chegou bem recentemente no vinhedo é a Maturana Tinta, que produz tintos de boa acidez, e a Tempranillo Blanco, uma mutação genética, que promete apresentar brancos encorpados e frescos. Leva tempo, porém, para cultivar e estabelecer os novos pés.


Em busca do terroir

A tendência mais recente não é nem um pouco nova. É o surgimento de uma nova geração de produtores muito interessados em expressar o caráter de seus vinhedos. 

Videiras em arbusto, vinhas velhas, muito menos carvalho, são características de seus estilos. É complicado porque a Rioja é uma área geologicamente complexa. Percorre solos de argila calcária, solos de aluvião e de argila ferrosa, e fica entre duas cadeias montanhosas, dos dois lados do Rio Ebro.

Em termos simples, a oeste a Rioja Alta é mais elevada, produzindo geralmente vinhos mais moderados e com fruta aberta. Ao norte do rio, a Rioja Alavesa oferece vinhos mais encorpados e frescos, sendo um bastião da Tempranillo. A Rioja Baja, a leste, é mais cálida, baixa e seca (a irrigação é permitida), mais mediterrânea, e pode proporcionar vinhos mais ricos e alcoólicos.

Enquanto alguns dos grandes produtores preferem fazer cortes entre vinhedos, outros preferem expressar seus terroirs individuais, como Benjamin Romeo, David Sampedro Gil, Olivier Rivière, Abel Mendoza e Telmo Rodriguez. 

Procure algo além dos vinhos anônimos e muito baratos e, no outro extremo, além de vinhos em garrafas ridiculamente pesadas contendo vinhos com passagem excessiva por madeira. Entre eles, há uma gama ampla e variada. Sirva-se de uma taça e reflita sobre o ditado que diz que toda tradição foi inovação algum dia. A nenhum outro lugar isso se aplica melhor do que a Rioja.
 

 

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