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Trapiche, tradicional vinícola Argentina, mostra a evolução de seus vinhos

Arthur Azevedo

Mudanças nos vinhedos e na vinificação se refletem nas novas safras dos vinhos dessa vinícola Argentina.

Trapiche é uma marca de grande prestígio em todo o mundo. Essa tradicional e prestigiada vinícola da Argentina vem, ano após ano, surpreendendo a todos, não só pela contínua melhoria de seus vinhos como também pela iniciativa de implantar mudanças radicais em seus vinhedos e em suas técnicas de vinificação - atitudes que vêm se refletindo de forma cristalina em seus vinhos.

Para uma interessante degustação vertical do seu vinho mais tradicional, o prestigiado Medalla, a Trapiche reuniu um seleto grupo de jornalistas em evento organizado pela competente Denise Cavalcante, com o objetivo de apreciar não só a evolução dos vinhos, como também avaliar as mudanças enológicas implantadas na vinícola por Daniel Py, enólogo de altíssimo padrão e hoje responsável por todas as operações da empresa. Os vinhos foram apresentados por Sérgio Eduardo Casé, enólogo da Trapiche. Estiveram presentes, também, Luiz Eduardo Arroxellas de Carvalho, proprietário da Impexco, importadora dos vinhos da Trapiche para o Brasil e Julian Orti, diretor de exportação da Trapiche para a América do Sul.

Foram mostradas seis safras do Medalla, duas anteriores às mudanças e quatro posteriores. As duas primeiras, 1995 e 1996, mostraram-se bastante evoluídas e claramente vinificadas num estilo mais austero, com taninos bem marcados e sem evidenciar muito as frutas.

A partir de 1997, a Trapiche iniciou um novo modelo de manejo dos vinhedos, com redução do rendimento, maior distanciamento entre os cachos (o que facilitou a insolação dos frutos), redução do número de cachos por videira, diminuição da temperatura de fermentação para 25oC, inoculação das leveduras no momento da chegada das uvas e uso da "pigeage" (afundamento das cascas por delicados meios mecânicos). O resultado é facilmente detectado no Medalla 1997: um vinho com aromas de frutas escuras, couro, chocolate e especiarias, que tem na excelente qualidade dos taninos seu ponto de maior destaque.

O ano de 1999 resultou em uma ótima safra. Esses cuidados com os vinhedos foram intensificados, originando um vinho de grande expressão, com aromas de ameixas e amoras em compotas, defumado e chocolate, boa concentração, taninos finos e ótima persistência.

A partir de 2000, novas técnicas foram incorporadas, tais como a irrigação por gotejamento, ainda maior exposição dos cachos ao sol, seleção de cachos e de grãos, incorporação de oxigênio durante a fermentação, maceração prolongada por 40 dias, uso de gravidade no manuseio dos vinhos (abolindo-se as bombas) e engarrafamento sem clarificação e/ou filtração. Um novo patamar foi alcançado e o Medalla 2000 impressiona por seu intenso e sofisticado perfil aromático, excelente concentração e textura sedosa, fruto de seus taninos finíssimos.

Novos lançamentos ressaltam o potencial da Malbec

A Malbec é a mais bem sucedida varietal na Argentina e os enólogos da Trapiche decidiram que seria necessário mostrar todo o potencial desta uva em terras portenhas. Para tanto, elaboraram vinhos de Malbec, a partir de três vinhedos criteriosamente selecionados: em Ugarteche (média de idade das vinhas de 8 anos), El Cepillo (média de 9 anos) e La Consulta (média de 65 anos).

O objetivo foi mostrar como a Malbec se comporta em diferentes microclimas. Em Ugarteche destaca-se o frescor das frutas, em El Cepillo a estrutura e os aromas de violeta, frutos da altitude e em La Consulta, a complexidade e a concentração propiciadas por vinhedos antigos. A vinificação se dá de forma muito cuidadosa e os três vinhos passam nada menos que 18 meses em barricas novas de carvalho francês.

A primeira série desses vinhos, chamados de Malbec Single Vineyard 2003, foi lançada com grande sucesso na Vinexpo 2005 e deve chegar ao Brasil em novembro de 2005. A comercialização será em caixas de madeira, contendo as três garrafas num conjunto único. Os vinhos não serão comercializados individualmente.

Na Argentina, o Iscay 2002 foi a grande estrela

Em nossa visita à Trapiche na Argentina, pudemos degustar (entre muitos) duas pérolas da coleção de vinhos da empresa. A primeira e grata surpresa foi o Broquel Bonarda 2003, uma inequívoca mostra do quanto essa uva vem sendo subestimada. A cor púrpura intensa mostra um vinho jovem e de grande expressão aromática, com frutas vermelhas, mentol, chocolate e tostado. Delicioso, tem destacado equilíbrio, muito boa concentração, taninos finos e longa persistência.

A outra estrela, um solista de primeira grandeza, é o Iscay 2002 que, sem dúvida, é hoje um dos melhores vinhos do Novo Mundo. O da safra 2002 reflete duas realidades incontestáveis: primeiro, a qualidade desta safra na Argentina, extraordinária sob todos os pontos de vista e segundo, a contribuição do craque Daniel Py, um enólogo sensível e muito cuidadoso, na mudança do perfil do vinho.

O Iscay é um corte de Malbec e Merlot, em partes iguais, com a assinatura de Py e do onipresente Michel Rolland, com longa passagem por barricas novas de carvalho francês. Aqui, podemos dizer que tivemos o privilégio de testar o Iscay quando ainda estava nas barricas, em 2003, e desde o primeiro momento ficamos maravilhados com o potencial e com a qualidade do vinho.

A degustação do vinho pronto em 2004, já engarrafado, revelou que nossa previsão foi amplamente superada pela evolução do Iscay 2002. Na época, o vinho mostrava-se de cor rubi, intensa e com um complexo e sofisticado perfil aromático, exibindo frutas escuras em geléia, caramelo, bala de cevada, chocolate e delicado tostado. Impressionante na boca, por seu perfeito equilíbrio e inigualável maciez, é muito concentrado, encorpado, expansivo e muito longo. Potente e, ao mesmo tempo, elegante, tem delicioso retro-olfato de frutas e caramelo. Um vinho antológico!

Não tenham dúvidas que a Argentina ainda tem alguns trunfos e que certamente os consumidores brasileiros terão bons motivos para se alegrar nos próximos anos.


Arthur Azevedo, editor de Wine Style, visitou a Trapiche na Argentina a convite da Empresa e do Pró-Mendoza.