|
Salton- uma história de sucesso
A
Vinícola Salton, tradicional empresa brasileira, tem investido
na qualidade e na inovação, visando produzir vinhos
que atendam às exigências do seletivo mercado mundial.
Conheça as mudanças que vêm sendo implementadas
na empresa nos últimos anos.
Arthur
Azevedo
O
aumento do interesse pelo vinho, ocorrido em todo o mundo e a
abertura do mercado brasileiro no início da década
de 1990, colocou os empresários brasileiros diante de um
grande dilema: continuar a produzir vinhos simples e baratos,
para consumidores pouco exigentes ou então investir vultosas
quantias em melhorias tanto nos vinhedos quanto nas vinícolas,
para competir com um mínimo de condições
com os vinhos importados que começavam a chegar em grande
quantidade ao mercado.
A
decisão não foi fácil, nem cômoda,
pois os novos concorrentes tinham a seu favor argumentos bastante
sólidos. Primeiro, o apelo da novidade, aguçado
pelo longo tempo de importações fechadas, o que
tornava o vinho importado quase como o "fruto proibido",
objeto do desejo de uma imensa massa de consumidores, privados
de desfrutar dos prazeres dos vinhos europeus e de outras partes
do mundo, que a maioria só conhecia pelos artigos das revistas
especializadas.
Por
outro lado, esta competição não era muito
justa, pois os "concorrentes" tinham a seu favor toda
a tradição decorrente de séculos de produção
vinícola, apoiada em conhecimentos obtidos em conceituadas
escolas de enologia. Além disto, havia ainda mais presente
que nos dias de hoje o preconceito contra os produtos brasileiros,
vistos como inferiores aos importados, em praticamente todos os
aspectos.
Para
piorar a situação, a instabilidade política
vivida pelo país naquele período, com confisco de
ativos financeiros e perspectivas nada animadoras, impedia que
os empresários tivessem um mínimo de segurança
para investir num mercado de risco, pois os dados de consumo de
vinhos no Brasil e a falta de cultura vinícola no país
nunca autorizaram grandes sonhos.
Mesmo
com todas estas dificuldades, alguns brasileiros não se
intimidaram e resolveram apostar no potencial de um país
imprevisível, mas grande o suficiente para acolher atitudes
ousadas e corajosas. Este é o caso da Vinícola Salton,
que em quase um século de história, está
mostrando que é possível produzir vinhos de qualidade
em solo brasileiro, dentro das limitações impostas
por um clima não muito favorável e por uma conjuntura
fiscal nada amistosa para a indústria do vinho no Brasil
Esta
postura governamental ainda se agrava com a assinatura de acordos
comerciais como o do Mercosul, favorecendo os vinhos produzidos
em países vizinhos, que sem qualquer privilégio
já seriam adversários respeitáveis, tal a
qualidade de boa parte de seus produtos.
A
história da Salton
A
família Salton faz parte do grupo de imigrantes italianos
que em 1878 chegou ao Rio Grande do Sul, numa pequena cidade fundada
com o nome de Vila Izabel e que hoje conhecemos como Bento Gonçalves,
a capital do vinho brasileiro.
No
início do século 20, mais precisamente em 1910,
os irmãos Paulo, Ângelo, João, César,
Luiz e Antonio Salton fundaram uma sociedade, a "Paulo Salton
Armazéns Gerais", baseando seus negócios na
comercialização de cereais e nos tradicionais "secos
e molhados" em geral.
No
entanto, como mandava a tradição italiana, trouxeram
algumas mudas de vinhas, que foram plantadas nas propriedades
da família e que com o passar do tempo mostraram uma boa
adaptação à nova terra. A mudança
de ramo de negócios foi inevitável e a família
passou a dedicar-se ao cultivo de uvas e à produção
de vinhos, espumantes e vermutes. Estava nascendo ali a Vinícola
Salton, que aos poucos foi ganhando respeito e clientes no Rio
Grande do Sul e em todo o Brasil.
Em
outubro de 1948 a Salton fundou sua filial em São Paulo
e desde então firmou sua presença em todo o Brasil,
passando a comercializar seus produtos, voltados de início
para uma linha bastante simples e de consumo em grande escala.
A
decisão de mudar
No
final da década de 1990, com a empresa já sob o
comando de Ângelo Salton Neto, a
terceira geração da família, surgiu o desejo
de mudar os rumos da empresa, para se adequar aos desafios que
foram colocados para os produtores brasileiros pela nova conjuntura
globalizada. Neste momento, foi tomada a decisão de se
fazer os investimentos necessários para esta mudança,
mesmo dentro do cenário pouco amistoso do comércio
de vinhos no Brasil.
Sem
nunca negar suas origens, mais populares, a Salton partiu para
um ousado projeto de remodelação de seus vinhedos
e de sua vinícola, mobilizando investimentos que chegam
aos 28 milhões de reais, o que dá uma dimensão
da confiança da empresa no mercado de vinhos finos.
Para
que este plano fosse colocado em marcha, muitas mudanças
tiveram que ser introduzidas na empresa, enfrentando resistências
culturais relativas à maneira de cultivar uvas e produzir
vinhos.
As
mudanças nos vinhedos
Não
é segredo para mais ninguém que um grande vinho
começa no vinhedo. A produção de uvas de
qualidade é hoje o requisito mínimo para se ter
vinhos com personalidade e caráter. E neste departamento,
um imenso trabalho esperava a Salton, pois os antigos vinhedos
da Serra Gaúcha eram plantados pelo sistema tradicional
de "latada", onde as videiras se espalham sobre fios
de arame dispostos horizontalmente a cerca de 2 metros do solo.
Neste sistema, os cachos se posicionam embaixo das folhas, o que
impede que recebam a luz solar, indispensável para que
as uvas tintas acumulem matéria corante, aromas e sabores.
Este sistema ainda dificulta a ventilação das parreiras,
favorecendo o aparecimento de doenças, especialmente as
causadas por fungos (botrytis).
O
primeiro passo dado pelo Departamento Agrícola da Vinícola
Salton, sob o comando do engenheiro agrônomo Agliberto Bianchi
e a supervisão de Antonio Salton, foi de mudar a condução
das videiras para o sistema de espaldeira, muito mais adequado
para o cultivo de uvas de qualidade. Neste sistema, as parreiras
são dispostas em fileiras paralelas, permitindo-se uma
perfeita insolação das folhas e dos frutos, além
de propiciar uma ótima ventilação dos vinhedos.
Este
trabalho foi iniciado em 2000 e hoje cerca de 400 hectares de
vinhedos já estão enquadrados no novo padrão
de plantio, tanto na Serra Gaúcha quanto nos novos vinhedos
da empresa localizados na região da Campanha, na divisa
com o Uruguai, em Bagé e em Santana do Livramento. Este
programa conta também com a parceria da Embrapa Uva e Vinho
de Bento Gonçalves, empresa muito conceituada no campo
da pesquisa e da inovação agrícola.
Viveiros,
clones e controle do rendimento dos vinhedos
Um
trabalho bastante interessante que vem sendo desenvolvido pela
Salton diz respeito ao cultivo de mudas certificadas, num viveiro
localizado em Nova Prata, numa região isolada, com área
de 10 hectares. Cerca de 100.000 mudas de videiras serão
produzidas em 2005 neste viveiro, das variedades cabernet sauvignon,
merlot, shiraz, pinot noir, malbec, tannat, ancelota, teroldego,
chardonnay, sauvignon blanc, prosecco, riesling itálico,
moscato giallo e gewürztraminer. A capacidade futura deste
verdadeiro "berçário" de uvas da Salton
será de 300.000 mudas de videira por ano. Dentre as videiras,
há desde hoje a preocupação de se determinar
quais são os clones de varietais de uvas com potencial
para produzir vinhos de alta qualidade. Clones são parreiras
geneticamente selecionadas com o objetivo de se otimizar a produção
de uvas de qualidade.
Outro
assunto que merece especial atenção por parte dos
enólogos e agrônomos da Salton é o controle
do rendimento dos vinhedos, ou seja, a quantidade de uvas produzidas
por hectare, o que é de fundamental importância quando
se pretende produzir vinhos de qualidade superior.
Sabe-se
hoje que rendimentos elevados, acima de 70 hectolitros por hectare,
são
totalmente incompatíveis com a produção de
vinhos de alto padrão e se impõe portanto uma drástica
atitude para que se reduza a quantidade de uvas por parreira.
Para se chegar a este valor, é necessário fazer
a poda verde, reduzindo o número de cachos por parreira.
Se este processo é aparentemente fácil, na prática
esbarra na resistência dos produtores de uvas, que recusam
de forma veemente adotar esta medida.
Para
vencer esta barreira a Salton tem duas estratégias: uma
óbvia e de fácil implementação diz
respeito aos vinhedos da empresa, onde basta a determinação
da empresa e o rendimento será reduzido.
Quanto
aos parceiros, adotou-se uma política de remuneração
diferenciada, aumentando-se o valor pago por quilograma de uva
de melhor qualidade, de acordo com uma tabela adotada pela empresa.
Desta
forma a Salton consegue hoje em vinhedos de uvas viníferas
rendimentos da ordem de 56 a 70 hectolitros por hectare, bastante
satisfatória e muito abaixo da média brasileira.
Para se chegar a este valor, trabalha-se nos vinhedos de espaldeira
com 12 esporões e 24 gemas, com a obtenção
de 35 cachos por videira. Alguns vinhedos especiais da Salton
têm rendimento ainda menor, cerca de 35 hectolitros por
hectare, de onde saem as uvas que serão utilizadas na produção
dos melhores vinhos da empresa.
Outro
parâmetro de fundamental importância para a qualidade
das uvas diz respeito à área das folhas da parreira,
com a definição de uma copa foliar ideal. A Salton
trabalha com valores bastante otimizados, da ordem de 21.000 m²
por hectare.
Projeto
Bagé, a nova fronteira da Salton
Estudos
realizados na década de 70 pela NASA, a agência espacial
americana, já apontavam a região da Campanha, na
divisa com o Uruguai, como sendo a de melhor qualidade para o
plantio de varietais de alta qualidade. A Campanha está
situada no paralelo 31 sul, na altura da África do Sul
e da Austrália, dentro da faixa ideal para o cultivo de
uvas viníferas. A partir de 2000, a Salton iniciou o plantio
de 250.000 mudas de uvas, de variedades como cabernet sauvignon,
merlot, shiraz, cabernet franc, pinot noir, malbec, chardonnay,
sauvignon blanc e gewürztraminer, procedentes de países
como Itália, Austrália e África do Sul, dando
início ao Projeto Bagé, com investimentos que chegam
em reais a 1,5 milhão.
A
parceria com 24 produtores da região, ligados à
Associação Bageense de Fruticultores, resultou no
plantio de 150 hectares, com planos para alcançar 500 hectares
até 2006. As primeiras safras colhidas (e vinificadas de
forma experimental) foram tão animadoras que a Salton já
pensa em construir uma vinícola na região no futuro,
para processar estas uvas especiais. Aqui também tem sido
fundamental o apoio da Embrapa, especialmente na preparação
dos porta-enxertos.
Em
Bagé todas as videiras estão plantadas em espaldeira,
com espaçamento entre as fileiras de 3,30 metros e entre
plantas de 1,20m. Com o passar do tempo, será determinado
o melhor rendimento para estes vinhedos, hoje situado em 42 hectolitros
por hectare, buscando-se como sempre a máxima qualidade
das uvas. As uvas colhidas atualmente apresentam uma gradação
de 20o Babo, o que permite a produção de vinhos
com 13o de álcool. Em Bagé o predomínio é
das uvas tintas, com 80% do total da área plantada.
Em
Tuiuty, nasce a Villa Salton
Na
pequena e pacata Tuiuty, a apenas 10 km de Bento Gonçalves,
está o mais ousado lance desta nova fase da Salton. Trata-se
da Villa Salton, projeto do arquiteto Julio Posenato, um verdadeiro
parque temático da uva e do vinho, que além da vinícola
já construída de 30.000 m² onde estão
sendo produzidos os vinhos da Salton, serão construídos,
segundo Ângelo Salton um restaurante, capela, ateliê
de mosaico, ateliê de ferro batido e um inédito Parque
das Águas Musicais. Toda a água utilizada no processo
de produção dos vinhos, após tratada, será
direcionada para fontes equipadas com dispositivos sonoros como
o órgão hidráulico, harpa eólica,
carrilhão e harmônica de vidro. A previsão
é de que algo como 60.000 turistas visitarão a Villa
Salton a cada ano, gerando mão de obra e divisas para a
comunidade de Tuiuty.
A
nova vinícola, que impressiona pelas suas dimensões
e funcionalidade, tem capacidade de fermentação
e estocagem de 17 milhões de litros em tanques de aço
inoxidável, sendo 50% com controle de temperatura por computador.
A capacidade de processamento é de incríveis 30
milhões de quilos de uvas por ano e os processos utilizados
na vinícola estão alinhados com o que de melhor
se utiliza nos mais modernos centros de vinificação
em todo o mundo.
Toda
a operação da vinícola é supervisionada
por Lucindo Copat, o principal enólogo da Salton, ajudado
por uma entusiasmada equipe de jovens enólogos, que já
estagiaram em conceituadas vinícolas em todo o mundo.
Recentemente,
a Salton passou a contar também com a assessoria de Angel
Mendoza, enólogo argentino que está implantando
juntamente com Copat uma nova filosofia de trabalho, tanto nos
vinhedos, quanto na vinícola.
As
uvas, ao chegar na vinícola, recebem tratamento personalizado,
de acordo com a linha de produtos para a qual se destinam. Na
produção dos melhores vinhos da Salton se utiliza
a crio-extração seletiva para as uvas de alta qualidade,
que são colocadas inicialmente numa câmara fria,
seguindo-se uma rigorosa seleção de cachos e também
de grãos. A fermentação se dá em baixas
temperaturas, com o objetivo de preservar ao máximo os
aromas e sabores de fruta.
Para
os vinhos tintos da linha premium também são utilizados
tanques de madeira abertos para a fermentação, retomando
uma antiga prática de vinificação, mas com
todos os cuidados exigidos nos dias de hoje.
O
amadurecimento destes vinhos se faz numa sofisticada e muito atraente
Sala de Barricas, com controle de temperatura e umidade e capacidade
para 5000 barricas. Atualmente estão em uso 800 barricas
de carvalho francês (80%) e americano (20%), importadas
da França e produzidas pelas melhores tonelerias (Seguin-Moreau
e Radoux). Na sala das barricas a temperatura é mantida
a 10oC, constantes e 80% de umidade relativa, com filtragem do
ar para garantir um ambiente totalmente livre de impurezas.
A
qualidade dos insumos utilizados em todas as fases da produção,
tais como enzimas e leveduras selecionadas, é rigorosamente
controlada e a Salton trabalha hoje com um moderno sistema de
rastreabilidade dos vinhos, permitindo que se identifique com
precisão eventuais problemas que venham a ocorrer durante
o processo de vinificação.
Espumantes
Salton, uma especialidade da casa
A
qualidade dos espumantes produzidos pela Salton é amplamente
reconhecida pelos críticos e pelos consumidores. A razão
deste sucesso é o cuidado com que a empresa produz os espumantes,
tanto pelo método Charmat (segunda fermentação
em tanques de aço inoxidável), quanto pelo método
champenoise (segunda fermentação na garrafa).
Para
o método charmat são utilizados tanques pressurizados
de 50.000 litros e atualmente a capacidade de produção
é de mais de 300.000 litros. No caso do método champenoise
a fermentação se faz em cave climatizada com 1.200
m².
O
resultado são espumantes frescos e elegantes, com destacados
aromas de frutas e no caso do método champenoise, delicados
aromas de leveduras e frutas secas.
Controles
de qualidade e cuidados com o meio ambiente
Todos
os processos da nova vinícola são rigorosamente
controlados em seis laboratórios de excelência, a
saber: laboratório central de análises de microbiologia,
de tratamento de efluentes, de pesquisa, de análises sensoriais,
de controle de qualidade e de controle de uvas.
Um
aspecto de grande relevância é a preocupação
com o impacto que uma vinícola destas dimensões
causa ao meio ambiente. A indústria vitivinícola,
como a maioria das indústrias, produz resíduos e
efluentes que contribuem para poluir o solo e os rios onde são
despejados. Como os resíduos sólidos gerados pelo
processo de vinificação são em sua maioria
aproveitados em outras indústrias, o principal problema
de contaminação ambiental para as vinícolas
é a destinação dos efluentes, constituídos
pelas águas utilizadas na limpeza dos equipamentos e nos
demais processos envolvidos na produção do vinho.
Além
dos cuidados adotados na vinícola para se reduzir ao mínimo
possível a quantidade destes efluentes, foi instalada em
1998 uma moderna estação de tratamento com 1.500
m², constituída por tratamentos físico-químicos
e biológicos, visando purificar a água para ser
re-utilizada na vinícola ou despejada com segurança
nos rios. Este grau de preocupação com o meio ambiente
não é usual no Brasil e mostra o senso de responsabilidade
da Salton neste delicado assunto.
Mercado
interno e exportações, os caminhos dos vinhos da
Salton
Como
o consumo de vinhos finos é muito baixo no Brasil, a empresa
tem como principal meta ampliar sua participação
no mercado brasileiro, que mesmo com as dificuldades já
comentadas, tem um bom espaço para crescer. No entanto,
como nos disse Wagner Ribeiro, diretor-comercial da Salton, a
empresa começa a se voltar para o mercado externo e as
primeiras 1000 garrafas do Salton Talento já foram exportadas
para a República Tcheca, onde o vinho vem tendo boa aceitação.
Um detalhe que chama a atenção é que o Talento
alcançou um preço de US$ 15,85 FOB por garrafa,
bastante elevado e somente praticado em vinhos muito diferenciados.
Os
investimentos e a preocupação com a produção
de vinhos de alta qualidade começam a dar resultados e
a Salton começa uma nova fase em sua longa existência,
exibindo uma invejável disposição para trilhar
um caminho nada fácil, num país de pouca cultura
de vinhos e de baixo consumo per capita.
|