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Rioja, a mais pura expressão
da Espanha, mostra seus vinhos no Brasil
Arthur
Azevedo
Com
o objetivo de promover os vinhos e a gastronomia da região
de La Rioja, estiveram no Brasil importantes autoridades da província,
entre elas, o Presidente do Governo da Província Autônoma
de La Rioja, o sr. Pedro San Alonso.
Claro
que os vinhos foram grandes estrelas do evento e para melhor entendê-los
precisamos ter uma ampla visão desta que é uma das
mais tradicionais e reverenciadas regiões vinícolas
não só da Espanha, mas de todo o mundo. É
o que faremos neste artigo, de caráter quase didático.
A
localização da Rioja
Rioja,
a principal região vinícola da Espanha, situa-se
no norte do país e sua produção é
predominantemente de vinhos tintos. Seu nome deriva de "rio
Ojas", um pequeno afluente do rio Ebro, sendo que a maior
parte da região vinícola situa-se na província
de La Rioja, com pequenas partes estendendo-se para o país
Basco, a noroeste, e para Navarra, a nordeste. Centrada na capital
da província, Logroño, Rioja divide-se em três
partes, ao longo do eixo do rio Ebro. A Rioja Alta ocupa a parte
do Vale do Ebro a oeste de Logroño, incluindo a cidade
de Haro e Rioja Alavesa é o nome dado à seção
ao norte do rio Ebro, que se estende até à província
basca de Alava. Por fim, a Rioja Baja, que se estende desde os
subúrbios de Logroño ao sul e ao leste, incluindo
as cidades de Calahorra e Alfaro.
Um
pouco da história
Há
evidências arqueológicas que os romanos já
faziam vinho no Vale do Ebro e durante a ocupação
dos mouros o comércio do vinho era tolerado, mas não
incentivado. Apesar disso, no final do século 15, a viticultura
voltou a florescer durante o período da reconquista pelos
cristãos.
É
sabido que a indústria do vinho na Rioja cresceu ao redor
dos inúmeros monastérios da região, que foram
criados para servir os peregrinos da rota para Santiago de Compostela,
quando então foram criadas as primeiras leis vinícolas
da região.
Durante
vários séculos a Rioja sofreu com seu isolamento
físico dos grandes centros populacionais, e seus vinhos
só encontraram mercado fora da região por volta
de 1700, quando as vias de comunicação melhoraram
e Bilbao tornou-se um importante centro comercial.
A
partir de 1840, quando algumas pragas começaram a atacar
os vinhedos da França, a região recebeu vários
comerciantes de vinho de Bordeaux e este fluxo aumentou ainda
mais a partir do final da década de 1860, quando a Phylloxera
começou a devastar os vinhedos franceses. As leis aduaneiras
francesas foram relaxadas e a região da Rioja experimentou
um inusitado sucesso de vendas que durou por quatro décadas.
Novas
vinícolas se estabeleceram, entre elas a Companhia Vinícola
do Norte da Espanha (CVNE), López de Heredia, La Rioja
Alta e Bodegas Franco Espanholas, todas fortemente influenciadas
pelos franceses. Durante esse período foi introduzida a
barrica de 225 litros de capacidade, produzida com carvalho, geralmente
americano. A partir do final da década de 1990, as mais
inovadoras vinícolas de Rioja passaram a usar as barricas
de carvalho francês para seus melhores vinhos e esta parece
ser uma tendência irreversível.
A
Phylloxera só atingiu a Rioja em 1900 e, a partir desta
data, a região entrou em acentuado declínio, até
porque Bordeaux voltou a produzir vinhos em grande quantidade,
provenientes de vinhedos resistentes à praga. Na primeira
metade do século 20 a Espanha sofreu muito com duas grandes
guerras mundiais e com a guerra civil, fatos que impediram que
a indústria do vinho apresentasse sinais de melhoria. A
recuperação plena do mercado só veio a acontecer
no final da década de 70, com a construção
de novas e modernas vinícolas. A Rioja foi promovida de
DO (Denominación de Origen) a DOCa (Denominación
de Origen Calificada) em 1991.
Geografia, Clima e Solo
A
Rioja desfruta de uma invejável posição geográfica
entre as diferentes regiões vinícolas da Espanha.
Protegida pela Serra de Cantábria ao norte e a oeste, a
região é poupada dos fortes ventos frios e carregados
de umidade provenientes do Atlântico, que castigam impiedosamente
a costa basca ao norte.
Também,
os produtores da Rioja raramente experimentam os extremos de temperatura
que oprimem os produtores das regiões sul e central da
Espanha. Os vinhedos estão plantados em altitudes que variam
de 300 metros acima do nível do mar em Alfaro, a leste,
até 800 metros nas encostas da Serra de Cantábria,
a noroeste. No verão, a forte seca é o maior problema
dessa região, com as temperaturas atingindo freqüentemente
os 30/35oC.
Os
solos da parte norte da Rioja, onde se cultivam as melhores uvas,
tem a argila como componente predominante. Na Rioja Alta e na
Rioja Alavesa existem áreas onde o subsolo é rico
em calcário, e outras em ferro, em ambos os lados do Rio
Ebro.
As
uvas tintas e brancas na Rioja
A
variedade mais plantada é a Tempranillo, provavelmente
nativa, uma uva tinta que se adapta muito bem nas encostas de
argila e calcário da Rioja Alta e Rioja Alavesa, formando
a base para os melhores vinhos da região. No entanto, uma
boa parte dos vinhos da Rioja, especialmente os mais tradicionais,
são cortes de mais de uma variedade, sendo a uva Garnacha
freqüentemente adicionada à Tempranillo.
As
outras varietais cultivadas são a Cariñena, que
aqui se chama Mazuelo e a Graciano. Os vinhos que serão
destinados a passar longos períodos no carvalho, como os
Gran Reserva, normalmente têm a tempranillo como uva exclusiva
ou majoritária, às vezes associada à Cabernet
Sauvignon, que é permitida na região, em pequenas
quantidades.
Historicamente,
a principal uva branca da Rioja é a Malvasia, com a qual
se produzem vinhos ricos, alcoólicos e secos, bem adaptados
à maturação em carvalho. No entanto, a partir
do início da década de 1970, os vinhos brancos frescos
e frutados, fermentados a frio e engarrafados jovens, se tornaram
moda e a uva viura (conhecida no restante da Espanha como macabeo),
tornou-se a variedade mais plantada.
Os
vinhedos da Rioja costumam ter pequenas extensões e as
leis do DO permitem safras de até 60 hectolitros/hectare
para os vinhos brancos e 50 hectolitros/hectare para os tintos.
Vinificação
A
maioria das vinícolas da Rioja são hoje muito bem
equipadas, com modernos tanques de aço inoxidável
e controle de temperatura. Em algumas pequenas vinícolas
tradicionais, a fermentação, tanto do vinho branco
quanto do vinho tinto, se dá em tanques ou tonéis
de madeira, mas isto é a exceção e não
a regra.
A
principal característica da vinificação na
Rioja não está nas técnicas de fermentação
e sim na maturação em barricas de carvalho, as bordalesas
de 225 litros, introduzidas pelos franceses nos meados do século
19. Os tempos mínimos de estágio na vinícola
são aqueles determinados pelas leis de 2003, já
citados anteriormente.
O
carvalho americano ainda é o mais utilizado na fabricação
das barricas, mas a participação do carvalho francês
vem aumentando progressivamente nos últimos anos. Quando
novo, o carvalho americano confere ao vinho um suave sabor de
baunilha, que se aceita como sendo típico da Rioja.
No
caso dos vinhos brancos, desde a adoção da técnica
de fermentação em baixas temperaturas pela maioria
dos produtores, a quantidade desses vinhos com passagem em madeira
tem diminuído progressivamente.
A
degustação dos vinhos na ABS-SP
Passando
da teoria à prática, pudemos degustar alguns vinhos
representativos da Rioja foram apresentados por Pedro Manuel Sáez
Rojo, Diretor Geral do
Instituto de Calidad de La Rioja e Mikel Zeberio, editor e diretor
da
revista Viandar e membro da Direção Estatal de Slow
Food, na nova sede da Associação Brasileira de Sommeliers,
em São Paulo. Nesta prova, tivemos a companhia de nossa
chefe de redação, Solange Souza, que diga-se de
passagem tem sido assídua freqüentadora da ABS-SP
e dos eventos de vinhos.
Os
vinhos degustados foram bastante representativos do que hoje se
produz em La Rioja, em diferentes estilos, desde o mais tradicional
até os mais modernos. O primeiro da série foi o
Valsacro Dioro 2002, um corte de Tempranillo,
Garnacha, Mazuelo e Graziano, provenientes de videiras com mais
de 70 anos. Em estilo tradicional, tem aromas que remetem à
frutas escuras, especiarias e torrefação, com boa
acidez, corpo médio e taninos bem trabalhados.
A
segunda estrela da festa foi o Finca Valpiedra Reserva
1997, no auge de sua evolução e com elegante
roupagem granada, própria dos vinhos maduros. Tem 90% de
Tempranillo em sua composição, completados com Cabernet
Sauvignon (5%) e Graziano/Mazuelo nos restantes 5%. Passa 16 meses
em barricas novas de carvalho francês (90%) e americano
(10%). Os aromas são de frutas secas (ameixa) e fortes
notas de torrefação. Gentil e sedoso na boca, tem
perfeito equilíbrio, taninos já resolvidos e delicioso
retro-olfato.
Uma
surpresa agradável, o Lealtanza 2001,
das Bodegas Altanza, um puro Tempranillo com 18 meses de passagem
em barricas de carvalho francês, novas e de segundo uso,
impressiona pelos aromas exuberantes de frutas secas, chocolate,
café e especiarias. Tem boa acidez, taninos bem trabalhados,
corpo médio e retro-olfato marcado pelo carvalho.
O
Viña Albina Reserva 1998 vale pelos aromas
de frutas secas, bala de cevada, couro e tostado. Na boca é
bastante austero e pouco concentrado.
As
duas grandes atrações estavam reservadas para o
final. O inesquecível Roda I Reserva 2001,
outro puro sangue de Tempranillo, amadurecido em carvalho francês,
tem cor rubi/púrpura, escura e praticamente sem evolução.
Os aromas cativam pelas notas florais sutis, perfeitamente mescladas
a frutas escuras em geléia, especiarias e tostado. Expansivo
na boca, é encorpado, concentrado, muito equilibrado (mesmo
com 14,5% de teor alcoólico!!), macio e com taninos muito
finos e maduros. Um grande vinho, que merece a fama que desfruta.
Outra
especialidade riojana, de inspiração moderna, é
o estupendo Sierra Cantabria Cuvée Especial 2001,
um puríssimo Tempranillo de fina estirpe, com 14 meses
de barricas de carvalho francês e americano. Um complexo
perfil aromático é sua marca registrada, evocando
frutas escuras em compota, especiarias, caramelo e chocolate,
com notas resinosas de fundo. Intenso no paladar, tem sabores
concentrados, textura macia, taninos finos, longa persistência
e retro-olfato personalíssimo. Obrigatório.
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