Apoio:


 


 

© 2004 artwine.com.br. Proibida a reprodução - webmaster@artwine.com.br
Rioja, a mais pura expressão da Espanha, mostra seus vinhos no Brasil

Arthur Azevedo

Com o objetivo de promover os vinhos e a gastronomia da região de La Rioja, estiveram no Brasil importantes autoridades da província, entre elas, o Presidente do Governo da Província Autônoma de La Rioja, o sr. Pedro San Alonso.

Claro que os vinhos foram grandes estrelas do evento e para melhor entendê-los precisamos ter uma ampla visão desta que é uma das mais tradicionais e reverenciadas regiões vinícolas não só da Espanha, mas de todo o mundo. É o que faremos neste artigo, de caráter quase didático.

A localização da Rioja

Rioja, a principal região vinícola da Espanha, situa-se no norte do país e sua produção é predominantemente de vinhos tintos. Seu nome deriva de "rio Ojas", um pequeno afluente do rio Ebro, sendo que a maior parte da região vinícola situa-se na província de La Rioja, com pequenas partes estendendo-se para o país Basco, a noroeste, e para Navarra, a nordeste. Centrada na capital da província, Logroño, Rioja divide-se em três partes, ao longo do eixo do rio Ebro. A Rioja Alta ocupa a parte do Vale do Ebro a oeste de Logroño, incluindo a cidade de Haro e Rioja Alavesa é o nome dado à seção ao norte do rio Ebro, que se estende até à província basca de Alava. Por fim, a Rioja Baja, que se estende desde os subúrbios de Logroño ao sul e ao leste, incluindo as cidades de Calahorra e Alfaro.

Um pouco da história

Há evidências arqueológicas que os romanos já faziam vinho no Vale do Ebro e durante a ocupação dos mouros o comércio do vinho era tolerado, mas não incentivado. Apesar disso, no final do século 15, a viticultura voltou a florescer durante o período da reconquista pelos cristãos.

É sabido que a indústria do vinho na Rioja cresceu ao redor dos inúmeros monastérios da região, que foram criados para servir os peregrinos da rota para Santiago de Compostela, quando então foram criadas as primeiras leis vinícolas da região.

Durante vários séculos a Rioja sofreu com seu isolamento físico dos grandes centros populacionais, e seus vinhos só encontraram mercado fora da região por volta de 1700, quando as vias de comunicação melhoraram e Bilbao tornou-se um importante centro comercial.

A partir de 1840, quando algumas pragas começaram a atacar os vinhedos da França, a região recebeu vários comerciantes de vinho de Bordeaux e este fluxo aumentou ainda mais a partir do final da década de 1860, quando a Phylloxera começou a devastar os vinhedos franceses. As leis aduaneiras francesas foram relaxadas e a região da Rioja experimentou um inusitado sucesso de vendas que durou por quatro décadas.

Novas vinícolas se estabeleceram, entre elas a Companhia Vinícola do Norte da Espanha (CVNE), López de Heredia, La Rioja Alta e Bodegas Franco Espanholas, todas fortemente influenciadas pelos franceses. Durante esse período foi introduzida a barrica de 225 litros de capacidade, produzida com carvalho, geralmente americano. A partir do final da década de 1990, as mais inovadoras vinícolas de Rioja passaram a usar as barricas de carvalho francês para seus melhores vinhos e esta parece ser uma tendência irreversível.

A Phylloxera só atingiu a Rioja em 1900 e, a partir desta data, a região entrou em acentuado declínio, até porque Bordeaux voltou a produzir vinhos em grande quantidade, provenientes de vinhedos resistentes à praga. Na primeira metade do século 20 a Espanha sofreu muito com duas grandes guerras mundiais e com a guerra civil, fatos que impediram que a indústria do vinho apresentasse sinais de melhoria. A recuperação plena do mercado só veio a acontecer no final da década de 70, com a construção de novas e modernas vinícolas. A Rioja foi promovida de DO (Denominación de Origen) a DOCa (Denominación de Origen Calificada) em 1991.


Geografia, Clima e Solo

A Rioja desfruta de uma invejável posição geográfica entre as diferentes regiões vinícolas da Espanha. Protegida pela Serra de Cantábria ao norte e a oeste, a região é poupada dos fortes ventos frios e carregados de umidade provenientes do Atlântico, que castigam impiedosamente a costa basca ao norte.

Também, os produtores da Rioja raramente experimentam os extremos de temperatura que oprimem os produtores das regiões sul e central da Espanha. Os vinhedos estão plantados em altitudes que variam de 300 metros acima do nível do mar em Alfaro, a leste, até 800 metros nas encostas da Serra de Cantábria, a noroeste. No verão, a forte seca é o maior problema dessa região, com as temperaturas atingindo freqüentemente os 30/35oC.

Os solos da parte norte da Rioja, onde se cultivam as melhores uvas, tem a argila como componente predominante. Na Rioja Alta e na Rioja Alavesa existem áreas onde o subsolo é rico em calcário, e outras em ferro, em ambos os lados do Rio Ebro.

As uvas tintas e brancas na Rioja

A variedade mais plantada é a Tempranillo, provavelmente nativa, uma uva tinta que se adapta muito bem nas encostas de argila e calcário da Rioja Alta e Rioja Alavesa, formando a base para os melhores vinhos da região. No entanto, uma boa parte dos vinhos da Rioja, especialmente os mais tradicionais, são cortes de mais de uma variedade, sendo a uva Garnacha freqüentemente adicionada à Tempranillo.

As outras varietais cultivadas são a Cariñena, que aqui se chama Mazuelo e a Graciano. Os vinhos que serão destinados a passar longos períodos no carvalho, como os Gran Reserva, normalmente têm a tempranillo como uva exclusiva ou majoritária, às vezes associada à Cabernet Sauvignon, que é permitida na região, em pequenas quantidades.

Historicamente, a principal uva branca da Rioja é a Malvasia, com a qual se produzem vinhos ricos, alcoólicos e secos, bem adaptados à maturação em carvalho. No entanto, a partir do início da década de 1970, os vinhos brancos frescos e frutados, fermentados a frio e engarrafados jovens, se tornaram moda e a uva viura (conhecida no restante da Espanha como macabeo), tornou-se a variedade mais plantada.

Os vinhedos da Rioja costumam ter pequenas extensões e as leis do DO permitem safras de até 60 hectolitros/hectare para os vinhos brancos e 50 hectolitros/hectare para os tintos.

Vinificação

A maioria das vinícolas da Rioja são hoje muito bem equipadas, com modernos tanques de aço inoxidável e controle de temperatura. Em algumas pequenas vinícolas tradicionais, a fermentação, tanto do vinho branco quanto do vinho tinto, se dá em tanques ou tonéis de madeira, mas isto é a exceção e não a regra.

A principal característica da vinificação na Rioja não está nas técnicas de fermentação e sim na maturação em barricas de carvalho, as bordalesas de 225 litros, introduzidas pelos franceses nos meados do século 19. Os tempos mínimos de estágio na vinícola são aqueles determinados pelas leis de 2003, já citados anteriormente.

O carvalho americano ainda é o mais utilizado na fabricação das barricas, mas a participação do carvalho francês vem aumentando progressivamente nos últimos anos. Quando novo, o carvalho americano confere ao vinho um suave sabor de baunilha, que se aceita como sendo típico da Rioja.

No caso dos vinhos brancos, desde a adoção da técnica de fermentação em baixas temperaturas pela maioria dos produtores, a quantidade desses vinhos com passagem em madeira tem diminuído progressivamente.

A degustação dos vinhos na ABS-SP

Passando da teoria à prática, pudemos degustar alguns vinhos representativos da Rioja foram apresentados por Pedro Manuel Sáez Rojo, Diretor Geral do
Instituto de Calidad de La Rioja e Mikel Zeberio, editor e diretor da
revista Viandar e membro da Direção Estatal de Slow Food, na nova sede da Associação Brasileira de Sommeliers, em São Paulo. Nesta prova, tivemos a companhia de nossa chefe de redação, Solange Souza, que diga-se de passagem tem sido assídua freqüentadora da ABS-SP e dos eventos de vinhos.

Os vinhos degustados foram bastante representativos do que hoje se produz em La Rioja, em diferentes estilos, desde o mais tradicional até os mais modernos. O primeiro da série foi o Valsacro Dioro 2002, um corte de Tempranillo, Garnacha, Mazuelo e Graziano, provenientes de videiras com mais de 70 anos. Em estilo tradicional, tem aromas que remetem à frutas escuras, especiarias e torrefação, com boa acidez, corpo médio e taninos bem trabalhados.

A segunda estrela da festa foi o Finca Valpiedra Reserva 1997, no auge de sua evolução e com elegante roupagem granada, própria dos vinhos maduros. Tem 90% de Tempranillo em sua composição, completados com Cabernet Sauvignon (5%) e Graziano/Mazuelo nos restantes 5%. Passa 16 meses em barricas novas de carvalho francês (90%) e americano (10%). Os aromas são de frutas secas (ameixa) e fortes notas de torrefação. Gentil e sedoso na boca, tem perfeito equilíbrio, taninos já resolvidos e delicioso retro-olfato.

Uma surpresa agradável, o Lealtanza 2001, das Bodegas Altanza, um puro Tempranillo com 18 meses de passagem em barricas de carvalho francês, novas e de segundo uso, impressiona pelos aromas exuberantes de frutas secas, chocolate, café e especiarias. Tem boa acidez, taninos bem trabalhados, corpo médio e retro-olfato marcado pelo carvalho.

O Viña Albina Reserva 1998 vale pelos aromas de frutas secas, bala de cevada, couro e tostado. Na boca é bastante austero e pouco concentrado.

As duas grandes atrações estavam reservadas para o final. O inesquecível Roda I Reserva 2001, outro puro sangue de Tempranillo, amadurecido em carvalho francês, tem cor rubi/púrpura, escura e praticamente sem evolução. Os aromas cativam pelas notas florais sutis, perfeitamente mescladas a frutas escuras em geléia, especiarias e tostado. Expansivo na boca, é encorpado, concentrado, muito equilibrado (mesmo com 14,5% de teor alcoólico!!), macio e com taninos muito finos e maduros. Um grande vinho, que merece a fama que desfruta.

Outra especialidade riojana, de inspiração moderna, é o estupendo Sierra Cantabria Cuvée Especial 2001, um puríssimo Tempranillo de fina estirpe, com 14 meses de barricas de carvalho francês e americano. Um complexo perfil aromático é sua marca registrada, evocando frutas escuras em compota, especiarias, caramelo e chocolate, com notas resinosas de fundo. Intenso no paladar, tem sabores concentrados, textura macia, taninos finos, longa persistência e retro-olfato personalíssimo. Obrigatório.