Apoio:


 


 

© 2004 artwine.com.br. Proibida a reprodução - webmaster@artwine.com.br
Nieto Senetiner, arte em vinhos na Argentina

Arthur Azevedo

No coração de Luján de Cuyo, as Bodegas Nieto Senetiner transformam em obras de arte as uvas extraídas de seus vinhedos

Os vinhos argentinos já conquistaram definitivamente o consumidor brasileiro, que aprendeu rapidamente ser perfeitamente possível se combinar qualidade e preços justos. No entanto, silenciosamente, a Argentina está mostrando que seu arsenal não se resume apenas ao preço competitivo e aos vinhos produzidos com a uva Malbec, a mais conhecida e apreciada de todas as varietais cultivadas em terras portenhas.

Uma visita à mais importante feira de vinhos da Argentina, a Vinos & Bodegas 2005, em Buenos Aires, com direito à uma breve esticada até Mendoza, foi o ponto de partida para uma série de descobertas e também uma oportunidade para se avaliar o atual estágio da produção vitivinícola naquele país.

Um dos grandes destaques da feira foi a Nieto Senetiner, uma vinícola tradicional, fundada em 1888 e que vem passando por um processo contínuo de aprimoramento e modernização de seus vinhos, amplamente disponíveis no Brasil. Também em Buenos Aires pudemos conhecer a Escuela de Enófilos da Nieto Senetiner, um centro de difusão da cultura do vinho, onde são ministrados cursos durante todo o ano, tanto para principiantes quanto para profissionais.

No entanto, os segredos da Nieto Senetiner estavam bem distante dali, mais precisamente em Mendoza, onde pudemos constatar a profundidade das mudanças que estão sendo implantadas na empresa.

Uma história iniciada no século 19

Duas famílias de imigrantes italianos, chegadas em Luján de Cuyo em 1888, criaram uma pequena vinícola, que foi o embrião do que hoje é a Nieto Senetiner. De início modesto, a empresa foi crescendo gradualmente e em 1900 conseguiu vender 3000 barris de vinho para a capital, Buenos Aires, um recorde para a época. As sucessivas gerações que se encarregaram da vinícola foram introduzindo os avanços tecnológicos que iam surgindo na Europa, visando manter a empresa em sintonia com as exigências do mercado.

Desta forma, a vinícola sofreu reformas significativas em 1930, 1940 e 1950, elevando a capacidade de produção para 80.000 litros, de vinho de média qualidade, que era consumido na Argentina naquela altura do século 20.

A grande mudança, no entanto, ocorreu por volta de 1960, quando a família Nieto Senetiner adquiriu a vinícola, com um significativo aporte de recursos e principalmente com a mudança de foco, voltando-se para a produção de vinhos de melhor qualidade, antecipando-se às exigências do mercado internacional, que viriam a ser realidade nas próximas décadas. De fato, o consumidor passou a se interessar por vinhos melhor elaborados e de alta qualidade, exatamente como os que a Nieto Senetiner se propôs a produzir.

Outro marco significativo na história da empresa ocorreu em 1998, quando a família Pérez Companc, um dos maiores grupos privados argentinos, assumiu o controle da companhia. Tendo o cuidado de manter intactos o estilo e o espírito da Nieto Senetiner, imprimiu sua marca na vinícola, aprimorando ainda mais os processos de produção e consolidando definitivamente a marca no mercado internacional. Em 2002, a Nieto Senetiner foi a primeira empresa da Argentina a obter a certificação máxima de qualidade para todos os seus processos de produção de vinhos.

Vinhedos de alto nível, o segredo da qualidade

Os vinhedos da Nieto Senetiner, cerca de 300 hectares, estão localizados em diferentes áreas de Luján de Cuyo, uma das regiões mais prestigiadas de Mendoza. Tivemos o privilégio de percorrer todos estes vinhedos na companhia de quem os conhece como ninguém: Tomas "Tommy" Hughes, engenheiro agrônomo responsável pelo manejo das plantas e pela produção de uvas de altíssima qualidade, utilizadas para todas as linhas de vinhos da Nieto Senetiner.

As parreiras da Nieto Senetiner estão plantadas em Vistalba, Agrelo e Carrodilla, sub-regiões de Luján de Cuyo, que por possuírem diferentes características, dão origem à frutas de grande diversidade, oferecendo ao enólogo uma ótima gama de alternativas para a produção dos vinhos.

Vistalba, com uma altitude de 950 metros, se beneficia do clima da pré-cordilheira mendocina, com adequado diferencial de temperatura dia/noite para a produção de uvas equilibradas e sadias. As varietais plantadas em Vistalba são a Malbec, a Syrah e a Cabernet Sauvignon, com idade média das videiras em torno de 55 anos, com condução das parreiras em espaldeira e latada (sistema conhecido na Argentina como Parral).

O sistema de latada adotado por Tommy, no entanto, tem características únicas, que o diferenciam do adotado em outras partes do mundo. Uma das críticas que se faz à latada (para quem não se lembra, este é o sistema onde as parreiras são dispostas a cerca de 2 metros de altura, paralelas ao solo, formando como que uma cobertura) é que os cachos ficam abaixo da camada de folhas, não recebendo luz solar em quantidade suficiente para a adequada síntese de material corante. Tommy contornou este problema de uma forma muito engenhosa.

Primeiro, espaçando as fileiras e abrindo a latada, de forma que a luz e o ar podem penetrar mais facilmente entre as videiras. Depois, fazendo com que as hastes que sustentam as folhas se projetem para cima, facilitando a insolação e a fotossíntese. Na base de cada haste estão um ou dois cachos de uvas, que se nutrem de 14 folhas distribuídas ao longo da haste. Desta forma, foram preservadas as parreiras antigas, plantadas em pé-franco (ou seja, sem enxertia), que fornecem as uvas para os melhores vinhos da casa, o Cadus e o Don Nicanor).

Em Agrelo, uma das melhores regiões para o plantio de uvas de alta qualidade, a Nieto Senetiner possui 200 hectares plantados somente com uvas tintas, tais como Syrah, Malbec, Bonarda, Cabernet Sauvignon, Merlot, Barbera, Alicante Bouschet e Tannat. A altitude elevada, cerca de 1100 metros, propicia o desejado gradiente de temperatura dia/noite e o sistema de irrigação é o de gotejamento, controlado por computador.

Por fim , em Carrodilla existem 40 hectares de uvas tintas e brancas (Merlot, Chardonnay, Cabernet Sauvignon e Pinot Noir), cultivadas a 820 metros de altitude e com condução em espaldeira.

Vinificação cuidadosa, o passo seguinte

Uma vez colhidas manualmente com todo o cuidado, em pequenas caixas plásticas e com seleção de cachos nos próprios vinhedos, as uvas chegam à moderna e funcional vinícola, onde as espera o responsável pela elaboração do vinho, Roberto Gonzáles, enólogo discreto, sensível e experiente, que está há muitos anos na empresa.

Gonzáles emprega técnicas modernas de vinificação, com temperaturas controladas e tanques de aço inoxidável e também as tradicionais piletas de concreto, revestidas com epóxi. A Nieto Senetiner usa exclusivamente barricas de carvalho francês para amadurecimento de seus vinhos que passam por madeira. Um dos trunfos de Gonzáles é o respeito ao terroir e ao caráter das uvas, reduzindo ao mínimo necessário as intervenções durante a vinificação. Outro aspecto a ser ressaltado é a perfeita integração das equipes de agronomia e enologia, com reflexos diretos nos vinhos produzidos.

Qualidade em todas as linhas, em respeito ao consumidor

Uma vinícola se distingue pela forma como trabalha todos os seus vinhos, especialmente os mais simples. A Nieto Senetiner tem uma linha muito variada de produtos, para atender a todas as faixas de consumo, buscando sempre adequar cada um de seus vinhos ao público ao qual se destina. Numa degustação na Escuela de Enófilos, na companhia dos sommeliers Soledad Piazza e Luis Coelho, da Nieto Senetiner, pudemos avaliar em detalhes toda a gama de vinhos produzidos.

Assim, a linha Benjamim Nieto contempla vinhos simples, diretos e muito agradáveis, adequados para o consumo diário e de excelente relação preço / qualidade. Destaque para os vinhos produzidos com a Malbec e a Tempranillo, que estão fazendo grande sucesso no Brasil.

Subindo um degrau, vamos encontrar os interessantes vinhos da Linha Reserva, que passaram cerca de 6 meses em barricas de carvalho francês, de segundo e terceiro usos. Nesta linha, duas agradáveis surpresas nos aguardavam: os novos Nieto Senetiner Syrah Reserva 2003 (88/100) e o Nieto Senetiner Bonarda 2003 (86/100). O Syrah impressiona por sua cor púrpura e pelo perfil aromático sofisticado, com frutas escuras em geléia, bala de cevada, chocolate e caramelo. Elegante na boca, é encorpado, macio e longo. Já o Bonarda mostra um novo patamar para esta uva, bastante cultivada na Argentina. Destaque para os aromas de framboesa, chocolate e tostado e para a extrema gentileza na boca, com boa concentração, corpo médio e retro-olfato marcante.

Outras opções interessantes na Linha Reserva são o Nieto Senetiner Malbec Reserva 2003 (85/100), potente e com taninos finos e o Nieto Senetiner Cabernet-Shiraz 2003 (86/100), que tem agradáveis aromas de frutas escuras e chocolate, boa concentração e sabor agradável

Na Linha Don Nicanor, já no segmento dos melhores vinhos da empresa, apenas o Don Nicanor Blend está disponível, por enquanto, no Brasil. Testamos o Don Nicanor Blend 2003 (88/100), um corte de Malbec, Cabernet Sauvignon e Merlot, com passagem por 12 meses em barricas de carvalho francês, em sua maioria de segundo uso. Sofisticado, impressiona pelos aromas sutis de frutas em compota, couro, chocolate, especiarias, caramelo e defumado. Na boca tem boa expressão, com bom corpo, taninos finos, longa persistência e muita fruta.

Ainda da Linha Don Nicanor, não comercializados no Brasil, degustamos o Merlot 2003 (ótimos aromas de frutas e notas terrosas, boca gentil - 88/100), o Malbec 2003 (notas florais no nariz, taninos finos, longo - 88,5/100) e o Cabernet Sauvignon 2003 (aromas de café torrado e frutas escuras, tânico, potente e que vai precisar de um bom tempo de adega - 87/100).

Para fechar nossa ótima degustação na Escuela, nada como um novo encontro com um velho amigo, o estupendo Nieto Senetiner Bonarda Reserva 2002 (90/100), um vinho diferenciado e o melhor exemplar desta uva disponível no mercado. A Bonarda aqui foi tratada com status de rainha, com rigoroso controle de rendimento, seleção de vinhedos, seleção de cachos, seleção de grãos e passagem por 12 meses em barricas novas de carvalho francês de fina granulação. De cor rubi e reflexos púrpura, seduz pelos aromas de geléia de framboesa, chocolate e café torrado e pela sofisticação no paladar, com invejável concentração, fina textura, equilíbrio perfeito e longa persistência.

As novidades e a linha Cadus na degustação em Mendoza

O melhor estava reservado para a degustação em Mendoza, na vinícola, em companhia de Roberto Gonzáles, Tommy Hughes e Federico Ruiz, este último, o diretor de exportação da Nieto para a América do Sul. Comecemos pelas novidades, que um dia estarão por aqui. A primeira surpresa foi um Tannat 2005, em amostra de tanque, uma usina de força, potente, encorpado e que promete muito. Depois, um vinho da safra de 2003, ainda não batizado, em amostra de barrica, um inusitado corte de Ancellota, Bonarda e Syrah em partes iguais e que está há 18 meses em barricas novas de carvalho francês das florestas de Allier. Ainda uma criança e não finalizado, já sinaliza para um futuro brilhante, com aromas de frutas escuras, chocolate e caramelo, potente, concentrado, encorpado, longo e de taninos muito finos e maduros. Por ainda não estarem em suas versões definitivas, não avaliamos estes dois vinhos quantitativamente, mas certamente vão ter notas bastante expressivas, acima dos 90 pontos.

Os dois Cadus Syrah, o 2002 (agradável e macio, encorpado e persistente - 90/100) e o 2003 são extremamente interessantes. Destaque especial para o Cadus Syrah 2003 (94+/100), um vinho que honra a estirpe desta uva, fazendo par com seus pares da Côte-Rotie, no Rhône. De cor púrpura escura, impenetrável, cativa pelos fragrantes aromas florais (violetas), entremeados a frutas escuras, chocolate e especiarias. Na boca associa potência e gentileza, com muita concentração, corpo exuberante e maciez, textura sedosa, excepcional persistência e delicioso sabor. Na opinião de Roberto, que assino embaixo, este é o melhor syrah já produzido pela Nieto Senetiner.

Já o Cadus Cabernet Sauvignon se apresentou em 3 safras: a 2000 (o melhor da série, com aromas de couro, frutas escuras e chocolate, ótima concentração e longo final - 92/100), o 2002 (fechado, com notas herbáceas e taninos duros e em grande quantidade, mas com muita fruta, pedindo mais tempo de adega - 89/100) e o 2003 (surpreendentemente acessível e aberto, com aromas de frutas escuras, tabaco, especiarias e couro novo, de boca gentil, taninos finos, acidez refrescante e ótimo sabor - 91/100)

O vinho que tornou a Nieto Senetiner conhecida entre os enófilos brasileiros, o lendário Cadus Malbec, foi alvo de uma degustação vertical, com todas as safras disponíveis até o momento. E como esperado, não decepcionou, como pode ser conferido no quadro, nesta matéria.

Trabalho, dedicação, respeito ao terroir e acima de tudo muita paixão, na Nieto Senetiner se traduzem em vinhos de grande personalidade, diferenciados e de grande apelo. Felizes são os consumidores brasileiros, que terão a oportunidade de conferir esses atributos e comprovar a qualidade dos vinhos da Nieto Senetiner, que são importados para o Brasil pela Casa Flora (linhas Benjamim Nieto e Nieto Senetiner Reserva) e Expand Importadora (linhas Don Nicanor e Cadus).

Cadus Malbec - Degustação Vertical

Cadus Malbec 1999 (94/100) - o primeiro Cadus e o melhor da série, ainda púrpura e jovem, exibe perfil aromático complexo, evocando frutas escuras em geléia, bala de cevada, mel, chocolate, especiarias e defumado. Sedoso, equilibrado, concentrado, encorpado e muito longo, tem taninos finíssimos e maduros e retro-olfato delicioso. Imperdível.

Cadus Malbec 2000 (88/100) - cor púrpura, aromas pouco intensos, com toques herbáceos e fundo de frutas escuras, média concentração de sabores, taninos de média textura, leve adstringência, retro-olfato herbáceo.

Cadus Malbec Estiba 39 2000 (91/100) - aqui vale uma explicação, pois trata-se de uma parcela de um vinhedo de Agrelo, que por sua qualidade foi separada do restante das uvas que foram utilizadas para produzir o Cadus 2000. E o resultado não poderia ser mais surpreendente. É outro vinho, que parece não ter qualquer parentesco com o Cadus 2000 !!! Tem cor púrpura impenetrável, aromas deliciosos de frutas escuras, chocolate e defumado, com toques florais (violetas). Na boca tem textura sedosa, excelente concentração, corpo pleno, taninos muito maduros e longa persistência.

Cadus Malbec 2001 (89/100) - também de cor púrpura, é o mais fechado de aroma de toda a série. Tem frutas e tostado e felizmente, não tem o caráter herbáceo do 2000. Na boca tem boa acidez, concentração um pouco abaixo do padrão Cadus, taninos de boa qualidade e final ainda pouco intenso. Pode melhorar com algum tempo de adega.

Cadus Malbec 2002 (92+/100) - De volta à velha forma, o 2002 é a expressão de uma safra iluminada. Negro e impenetrável, tem aromas sofisticados de geléia de amoras e ameixas negras, violetas, defumado e especiarias. A notável concentração de sabores marca sua passagem pela boca, além ter a acidez e o álcool em perfeita sintonia, taninos de ótima textura, longa persistência e retro-olfato muito expressivo. Campeão.

Cadus Malbec 2003 (91/100) - Outro vinho púrpura escuro, de aromas fechados, mas já mostrando potencial, com frutas escuras e violetas, emolduradas por tostado e chocolate. Ótima boca, encorpado, concentrado, sedoso e longo, com sabor delicioso. Jovem, mas com um brilhante futuro.

Arthur Azevedo, editor de Wine Style e Diretor da Associação Brasileira de Sommeliers- SP, viajou para a Argentina a convite da Nieto Senetiner.