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Nieto
Senetiner, arte em vinhos na Argentina
Arthur
Azevedo
No
coração de Luján de Cuyo, as Bodegas Nieto
Senetiner transformam em obras de arte as uvas extraídas
de seus vinhedos
Os
vinhos argentinos já conquistaram definitivamente o consumidor
brasileiro, que aprendeu rapidamente ser perfeitamente possível
se combinar qualidade e preços justos. No entanto, silenciosamente,
a Argentina está mostrando que seu arsenal não se
resume apenas ao preço competitivo e aos vinhos produzidos
com a uva Malbec, a mais conhecida e apreciada de todas as varietais
cultivadas em terras portenhas.
Uma
visita à mais importante feira de vinhos da Argentina,
a Vinos & Bodegas 2005, em Buenos Aires, com direito à
uma breve esticada até Mendoza, foi o ponto de partida
para uma série de descobertas e também uma oportunidade
para se avaliar o atual estágio da produção
vitivinícola naquele país.
Um
dos grandes destaques da feira foi a Nieto Senetiner, uma vinícola
tradicional, fundada em 1888 e que vem passando por um processo
contínuo de aprimoramento e modernização
de seus vinhos, amplamente disponíveis no Brasil. Também
em Buenos Aires pudemos conhecer a Escuela de Enófilos
da Nieto Senetiner, um centro de difusão da cultura do
vinho, onde são ministrados cursos durante todo o ano,
tanto para principiantes quanto para profissionais.
No
entanto, os segredos da Nieto Senetiner estavam bem distante dali,
mais precisamente em Mendoza, onde pudemos constatar a profundidade
das mudanças que estão sendo implantadas na empresa.
Uma
história iniciada no século 19
Duas
famílias de imigrantes italianos, chegadas em Luján
de Cuyo em 1888, criaram uma pequena vinícola, que foi
o embrião do que hoje é a Nieto Senetiner. De início
modesto, a empresa foi crescendo gradualmente e em 1900 conseguiu
vender 3000 barris de vinho para a capital, Buenos Aires, um recorde
para a época. As sucessivas gerações que
se encarregaram da vinícola foram introduzindo os avanços
tecnológicos que iam surgindo na Europa, visando manter
a empresa em sintonia com as exigências do mercado.
Desta
forma, a vinícola sofreu reformas significativas em 1930,
1940 e 1950, elevando a capacidade de produção para
80.000 litros, de vinho de média qualidade, que era consumido
na Argentina naquela altura do século 20.
A
grande mudança, no entanto, ocorreu por volta de 1960,
quando a família Nieto Senetiner adquiriu a vinícola,
com um significativo aporte de recursos e principalmente com a
mudança de foco, voltando-se para a produção
de vinhos de melhor qualidade, antecipando-se às exigências
do mercado internacional, que viriam a ser realidade nas próximas
décadas. De fato, o consumidor passou a se interessar por
vinhos melhor elaborados e de alta qualidade, exatamente como
os que a Nieto Senetiner se propôs a produzir.
Outro
marco significativo na história da empresa ocorreu em 1998,
quando a família Pérez Companc, um dos maiores grupos
privados argentinos, assumiu o controle da companhia. Tendo o
cuidado de manter intactos o estilo e o espírito da Nieto
Senetiner, imprimiu sua marca na vinícola, aprimorando
ainda mais os processos de produção e consolidando
definitivamente a marca no mercado internacional. Em 2002, a Nieto
Senetiner foi a primeira empresa da Argentina a obter a certificação
máxima de qualidade para todos os seus processos de produção
de vinhos.
Vinhedos
de alto nível, o segredo da qualidade
Os
vinhedos da Nieto Senetiner, cerca de 300 hectares, estão
localizados em diferentes áreas de Luján de Cuyo,
uma das regiões mais prestigiadas de Mendoza. Tivemos o
privilégio de percorrer todos estes vinhedos na companhia
de quem os conhece como ninguém: Tomas "Tommy"
Hughes, engenheiro agrônomo responsável pelo manejo
das plantas e pela produção de uvas de altíssima
qualidade, utilizadas para todas as linhas de vinhos da Nieto
Senetiner.
As
parreiras da Nieto Senetiner estão plantadas em Vistalba,
Agrelo e Carrodilla, sub-regiões de Luján de Cuyo,
que por possuírem diferentes características, dão
origem à frutas de grande diversidade, oferecendo ao enólogo
uma ótima gama de alternativas para a produção
dos vinhos.
Vistalba,
com uma altitude de 950 metros, se beneficia do clima da pré-cordilheira
mendocina, com adequado diferencial de temperatura dia/noite para
a produção de uvas equilibradas e sadias. As varietais
plantadas em Vistalba são a Malbec, a Syrah e a Cabernet
Sauvignon, com idade média das videiras em torno de 55
anos, com condução das parreiras em espaldeira e
latada (sistema conhecido na Argentina como Parral).
O
sistema de latada adotado por Tommy, no entanto, tem características
únicas, que o diferenciam do adotado em outras partes do
mundo. Uma das críticas que se faz à latada (para
quem não se lembra, este é o sistema onde as parreiras
são dispostas a cerca de 2 metros de altura, paralelas
ao solo, formando como que uma cobertura) é que os cachos
ficam abaixo da camada de folhas, não recebendo luz solar
em quantidade suficiente para a adequada síntese de material
corante. Tommy contornou este problema de uma forma muito engenhosa.
Primeiro,
espaçando as fileiras e abrindo a latada, de forma que
a luz e o ar podem penetrar mais facilmente entre as videiras.
Depois, fazendo com que as hastes que sustentam as folhas se projetem
para cima, facilitando a insolação e a fotossíntese.
Na base de cada haste estão um ou dois cachos de uvas,
que se nutrem de 14 folhas distribuídas ao longo da haste.
Desta forma, foram preservadas as parreiras antigas, plantadas
em pé-franco (ou seja, sem enxertia), que fornecem as uvas
para os melhores vinhos da casa, o Cadus e o Don Nicanor).
Em
Agrelo, uma das melhores regiões para o plantio de uvas
de alta qualidade, a Nieto Senetiner possui 200 hectares plantados
somente com uvas tintas, tais como Syrah, Malbec, Bonarda, Cabernet
Sauvignon, Merlot, Barbera, Alicante Bouschet e Tannat. A altitude
elevada, cerca de 1100 metros, propicia o desejado gradiente de
temperatura dia/noite e o sistema de irrigação é
o de gotejamento, controlado por computador.
Por
fim , em Carrodilla existem 40 hectares de uvas tintas e brancas
(Merlot, Chardonnay, Cabernet Sauvignon e Pinot Noir), cultivadas
a 820 metros de altitude e com condução em espaldeira.
Vinificação
cuidadosa, o passo seguinte
Uma
vez colhidas manualmente com todo o cuidado, em pequenas caixas
plásticas e com seleção de cachos nos próprios
vinhedos, as uvas chegam à moderna e funcional vinícola,
onde as espera o responsável pela elaboração
do vinho, Roberto Gonzáles, enólogo discreto, sensível
e experiente, que está há muitos anos na empresa.
Gonzáles
emprega técnicas modernas de vinificação,
com temperaturas controladas e tanques de aço inoxidável
e também as tradicionais piletas de concreto, revestidas
com epóxi. A Nieto Senetiner usa exclusivamente barricas
de carvalho francês para amadurecimento de seus vinhos que
passam por madeira. Um dos trunfos de Gonzáles é
o respeito ao terroir e ao caráter das uvas, reduzindo
ao mínimo necessário as intervenções
durante a vinificação. Outro aspecto a ser ressaltado
é a perfeita integração das equipes de agronomia
e enologia, com reflexos diretos nos vinhos produzidos.
Qualidade
em todas as linhas, em respeito ao consumidor
Uma
vinícola se distingue pela forma como trabalha todos os
seus vinhos, especialmente os mais simples. A Nieto Senetiner
tem uma linha muito variada de produtos, para atender a todas
as faixas de consumo, buscando sempre adequar cada um de seus
vinhos ao público ao qual se destina. Numa degustação
na Escuela de Enófilos, na companhia dos sommeliers Soledad
Piazza e Luis Coelho, da Nieto Senetiner, pudemos avaliar em detalhes
toda a gama de vinhos produzidos.
Assim,
a linha Benjamim Nieto contempla vinhos simples, diretos e muito
agradáveis, adequados para o consumo diário e de
excelente relação preço / qualidade. Destaque
para os vinhos produzidos com a Malbec e a Tempranillo, que estão
fazendo grande sucesso no Brasil.
Subindo
um degrau, vamos encontrar os interessantes vinhos da Linha Reserva,
que passaram cerca de 6 meses em barricas de carvalho francês,
de segundo e terceiro usos. Nesta linha, duas agradáveis
surpresas nos aguardavam: os novos Nieto Senetiner Syrah
Reserva 2003 (88/100) e o Nieto Senetiner Bonarda
2003 (86/100). O Syrah impressiona por sua cor púrpura
e pelo perfil aromático sofisticado, com frutas escuras
em geléia, bala de cevada, chocolate e caramelo. Elegante
na boca, é encorpado, macio e longo. Já o Bonarda
mostra um novo patamar para esta uva, bastante cultivada na Argentina.
Destaque para os aromas de framboesa, chocolate e tostado e para
a extrema gentileza na boca, com boa concentração,
corpo médio e retro-olfato marcante.
Outras
opções interessantes na Linha Reserva são
o Nieto Senetiner Malbec Reserva 2003 (85/100),
potente e com taninos finos e o Nieto Senetiner Cabernet-Shiraz
2003 (86/100), que tem agradáveis aromas de frutas
escuras e chocolate, boa concentração e sabor agradável
Na
Linha Don Nicanor, já no segmento dos melhores vinhos da
empresa, apenas o Don Nicanor Blend está disponível,
por enquanto, no Brasil. Testamos o Don Nicanor Blend
2003 (88/100), um corte de Malbec, Cabernet Sauvignon
e Merlot, com passagem por 12 meses em barricas de carvalho francês,
em sua maioria de segundo uso. Sofisticado, impressiona pelos
aromas sutis de frutas em compota, couro, chocolate, especiarias,
caramelo e defumado. Na boca tem boa expressão, com bom
corpo, taninos finos, longa persistência e muita fruta.
Ainda
da Linha Don Nicanor, não comercializados
no Brasil, degustamos o Merlot 2003 (ótimos
aromas de frutas e notas terrosas, boca gentil - 88/100), o
Malbec 2003 (notas florais no nariz, taninos finos, longo
- 88,5/100) e o Cabernet Sauvignon 2003 (aromas
de café torrado e frutas escuras, tânico, potente
e que vai precisar de um bom tempo de adega - 87/100).
Para
fechar nossa ótima degustação na Escuela,
nada como um novo encontro com um velho amigo, o estupendo Nieto
Senetiner Bonarda Reserva 2002 (90/100), um vinho diferenciado
e o melhor exemplar desta uva disponível no mercado. A
Bonarda aqui foi tratada com status de rainha, com rigoroso controle
de rendimento, seleção de vinhedos, seleção
de cachos, seleção de grãos e passagem por
12 meses em barricas novas de carvalho francês de fina granulação.
De cor rubi e reflexos púrpura, seduz pelos aromas de geléia
de framboesa, chocolate e café torrado e pela sofisticação
no paladar, com invejável concentração, fina
textura, equilíbrio perfeito e longa persistência.
As
novidades e a linha Cadus na degustação em Mendoza
O
melhor estava reservado para a degustação em Mendoza,
na vinícola, em companhia de Roberto Gonzáles, Tommy
Hughes e Federico Ruiz, este último, o diretor de exportação
da Nieto para a América do Sul. Comecemos pelas novidades,
que um dia estarão por aqui. A primeira surpresa foi um
Tannat 2005, em amostra de tanque, uma usina
de força, potente, encorpado e que promete muito. Depois,
um vinho da safra de 2003, ainda não batizado, em amostra
de barrica, um inusitado corte de Ancellota, Bonarda e Syrah em
partes iguais e que está há 18 meses em barricas
novas de carvalho francês das florestas de Allier. Ainda
uma criança e não finalizado, já sinaliza
para um futuro brilhante, com aromas de frutas escuras, chocolate
e caramelo, potente, concentrado, encorpado, longo e de taninos
muito finos e maduros. Por ainda não estarem em suas versões
definitivas, não avaliamos estes dois vinhos quantitativamente,
mas certamente vão ter notas bastante expressivas, acima
dos 90 pontos.
Os
dois Cadus Syrah, o 2002 (agradável
e macio, encorpado e persistente - 90/100) e o 2003
são extremamente interessantes. Destaque especial para
o Cadus Syrah 2003 (94+/100), um vinho que honra
a estirpe desta uva, fazendo par com seus pares da Côte-Rotie,
no Rhône. De cor púrpura escura, impenetrável,
cativa pelos fragrantes aromas florais (violetas), entremeados
a frutas escuras, chocolate e especiarias. Na boca associa potência
e gentileza, com muita concentração, corpo exuberante
e maciez, textura sedosa, excepcional persistência e delicioso
sabor. Na opinião de Roberto, que assino embaixo, este
é o melhor syrah já produzido pela Nieto Senetiner.
Já
o Cadus Cabernet Sauvignon se apresentou em 3
safras: a 2000 (o melhor da série, com
aromas de couro, frutas escuras e chocolate, ótima concentração
e longo final - 92/100), o 2002 (fechado, com
notas herbáceas e taninos duros e em grande quantidade,
mas com muita fruta, pedindo mais tempo de adega - 89/100) e o
2003 (surpreendentemente acessível e aberto,
com aromas de frutas escuras, tabaco, especiarias e couro novo,
de boca gentil, taninos finos, acidez refrescante e ótimo
sabor - 91/100)
O
vinho que tornou a Nieto Senetiner conhecida entre os enófilos
brasileiros, o lendário Cadus Malbec, foi alvo de uma degustação
vertical, com todas as safras disponíveis até o
momento. E como esperado, não decepcionou, como pode ser
conferido no quadro, nesta matéria.
Trabalho,
dedicação, respeito ao terroir e acima de tudo muita
paixão, na Nieto Senetiner se traduzem em vinhos de grande
personalidade, diferenciados e de grande apelo. Felizes são
os consumidores brasileiros, que terão a oportunidade de
conferir esses atributos e comprovar a qualidade dos vinhos da
Nieto Senetiner, que são importados para o Brasil pela
Casa Flora (linhas Benjamim Nieto e Nieto Senetiner Reserva) e
Expand Importadora (linhas Don Nicanor e Cadus).
Cadus
Malbec - Degustação Vertical
Cadus
Malbec 1999 (94/100) - o primeiro Cadus e o melhor da
série, ainda púrpura e jovem, exibe perfil aromático
complexo, evocando frutas escuras em geléia, bala de cevada,
mel, chocolate, especiarias e defumado. Sedoso, equilibrado, concentrado,
encorpado e muito longo, tem taninos finíssimos e maduros
e retro-olfato delicioso. Imperdível.
Cadus
Malbec 2000 (88/100) - cor púrpura, aromas pouco
intensos, com toques herbáceos e fundo de frutas escuras,
média concentração de sabores, taninos de
média textura, leve adstringência, retro-olfato herbáceo.
Cadus
Malbec Estiba 39 2000 (91/100) - aqui vale uma explicação,
pois trata-se de uma parcela de um vinhedo de Agrelo, que por
sua qualidade foi separada do restante das uvas que foram utilizadas
para produzir o Cadus 2000. E o resultado não poderia ser
mais surpreendente. É outro vinho, que parece não
ter qualquer parentesco com o Cadus 2000 !!! Tem cor púrpura
impenetrável, aromas deliciosos de frutas escuras, chocolate
e defumado, com toques florais (violetas). Na boca tem textura
sedosa, excelente concentração, corpo pleno, taninos
muito maduros e longa persistência.
Cadus
Malbec 2001 (89/100) - também de cor púrpura,
é o mais fechado de aroma de toda a série. Tem frutas
e tostado e felizmente, não tem o caráter herbáceo
do 2000. Na boca tem boa acidez, concentração um
pouco abaixo do padrão Cadus, taninos de boa qualidade
e final ainda pouco intenso. Pode melhorar com algum tempo de
adega.
Cadus
Malbec 2002 (92+/100) - De volta à velha forma,
o 2002 é a expressão de uma safra iluminada. Negro
e impenetrável, tem aromas sofisticados de geléia
de amoras e ameixas negras, violetas, defumado e especiarias.
A notável concentração de sabores marca sua
passagem pela boca, além ter a acidez e o álcool
em perfeita sintonia, taninos de ótima textura, longa persistência
e retro-olfato muito expressivo. Campeão.
Cadus
Malbec 2003 (91/100) - Outro vinho púrpura escuro,
de aromas fechados, mas já mostrando potencial, com frutas
escuras e violetas, emolduradas por tostado e chocolate. Ótima
boca, encorpado, concentrado, sedoso e longo, com sabor delicioso.
Jovem, mas com um brilhante futuro.
Arthur
Azevedo, editor de Wine Style e Diretor da Associação
Brasileira de Sommeliers- SP, viajou para a Argentina a convite
da Nieto Senetiner.
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