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Fortaleza do Seival Vineyards, o novo projeto da Miolo

Arthur P. Azevedo

Candiota, capital brasileira do carvão, uma pequena cidade da região da Campanha, no Rio Grande do Sul e próxima à Bagé, abriga hoje um dos mais ousados e ambiciosos projetos vitivinícolas do Brasil, conduzido pela Vinícola Miolo. Conhecido como Fortaleza do Seival Vineyards, ocupa uma área de 2500 hectares, bastante próximo à fronteira do Uruguai. A história da região é muito rica, pois exatamente onde está a Fortaleza do Seival aconteceu a Batalha do Seival, durante a Revolução Farroupilha, na década de 1830. Recentemente a Miolo adquiriu as ruínas da Quinta do Seival, onde já se produzia vinhos por volta de 1800.

Para apresentar todos os detalhes deste mega-empreendimento, a família Miolo, capitaneada pelo patriarca Darci, reuniu jornalistas de norte a sul do país, na Estância Fortaleza do Seival, uma impressionante propriedade onde estão sendo implantados os novos vinhedos da Miolo, que estão completando cinco anos. Para fornecer todos os detalhes, estavam a postos o enólogo da empresa, o competente Adriano Miolo e o consultor internacional da empresa, o enólogo francês Michel Rolland.

A Estância Fazenda do Seival abriga ainda a criação de ovelhas da raça texel, de gado da raça bradford e de cavalos crioulos, orgulho de Darci Miolo, que hoje passa uma boa parte de seu tempo cuidando de sua nova propriedade. Para completar o panorama, uma extensa área da fazenda está plantada com arroz, numa área que não é adequada para o plantio de uvas.

A decisão de mudar

Já faz algum tempo que vários enólogos brasileiros, entre eles Adriano Miolo, vinham buscando novos locais para plantar uvas viníferas, já que a região da Serra Gaúcha, além de ter pouca disponibilidade de áreas livres, apresenta um clima bastante difícil e principalmente não muito confiável. A incidência de chuvas na época da colheita é apenas uma das dificuldades enfrentadas pelos agrônomos e enólogos. Para não cometer injustiças e julgamentos precipitados, deve-se a bem da verdade dizer que existem na região de Bento Gonçalves locais muito interessantes para o cultivo de uvas de qualidade, que estão sendo estudados com muito carinho pela equipe de enologia da Miolo e de outras empresas.

No entanto, conforme nos disse Adriano Miolo, a região da Campanha e particularmente a região onde está a Fortaleza do Seival, tem alguns diferenciais que não podem ser deixados de lado. A implantação dos vinhedos na região ocorreu há 30 anos, com os vinhedos pioneiros da Almadén, baseando-se num estudo realizado pela Universidade de Davis, que encontrou ali todas as condições ideais para o cultivo de uvas viníferas. De fato, a localização no paralelo 31o de Latitude Sul a coloca na mesma situação de Chile, Argentina, Uruguai, África do Sul e Austrália, dentro da faixa considerada perfeita para a viticultura.

A altitude média da região do Seival é de 300 metros e o relevo caracteriza-se por coxilhas de pequena declividade, ou seja, um relevo de leves ondulações, de solo que tem o arenito como origem e composto por argila e areia entremeada, com média fertilidade e muito boa drenagem. Com respeito a esta drenagem, um especial cuidado foi tomado na implantação do vinhedo, de forma a facilitar o escoamento das águas pluviais.

Outro trunfo da Campanha está no regime de chuvas. Se a quantidade anual, algo como 1500 mm por ano, é apenas um pouco menor que na Serra Gaúcha, a maior parte está concentrada nos meses de inverno, o que favorece o desenvolvimento das videiras. Os verões são quentes e secos, o que proporciona uma perfeita maturação dos frutos, permitindo a produção de vinhos sem a chamada chaptalização (adição de açúcar de cana) no mosto antes da fermentação. A ocorrência de uma brisa bastante fresca durante a noite dá origem ao desejado "diferencial de temperatura dia/noite", prolongando o período de maturação, dando origem a taninos finos e maduros, essenciais para a produção de vinhos de textura macia.

Outro fato que Adriano Miolo destaca é a consistência das sucessivas colheitas, possibilitando uma maior confiabilidade nas uvas e por conseqüência nos vinhos que delas se originam.

Os vinhedos e os novos vinhos

Na Fortaleza do Seival estão em produção cerca de 100 hectares de videiras, de diferentes varietais tintas como Cabernet Sauvignon, Merlot, Tannat, Alicante Bouschet, Pinot Noir, Tempranillo, Tinta Roriz, Touriga Nacional, Alfrocheiro, Trincadeira, Jaen e Gamay. As brancas estão representadas pela Sauvignon Blanc, Chardonnay, Pinot Grigio, Viognier e Alvarinho. Segundo os agrônomos da Miolo, todos os vinhedos foram implantados pelo sistema de condução em espaldeira, onde as parreiras são dispostas em fileiras paralelas, permitindo uma perfeita insolação. A produção é limitada pela colheita em verde, o que reduz o rendimento das videiras para níveis de 35 a 50 hectolitros por hectare, bastante baixos e compatíveis com a produção de vinhos de ótima qualidade.

Estas uvas ainda são vinificadas em Bento Gonçalves, para onde são levadas em caminhões refrigerados, na moderna vinícola da Miolo no Vale dos Vinhedos, mas a Miolo já tem planos para iniciar a construção da nova vinícola em 2005, para processar as uvas da Campanha na própria Fortaleza do Seival em 2006.

Os vinhos que foram apresentados na Estância Fortaleza do Seival mostram um salto em termos de qualidade, o que comprova o acerto da decisão da Miolo em investir nesta nova região. Os brancos, um Sauvignon Blanc 2005 e um Pinot Grigio também 2005, têm aromas intensos e muita pureza de fruta e devem melhorar bastante com o envelhecimento das parreiras.

Os tintos têm dois níveis de qualidade. No primeiro nível estão os vinhos que se destinam ao uso corrente, projetados para serem vendidos num patamar de preços em torno dos R$ 20,00. A aposta foi em duas varietais não muito familiares para a maioria das pessoas, a Tempranillo (uva emblemática da Espanha) e a Tannat (originária da França e de grande sucesso no Uruguai). Ambos são muito agradáveis, focados na fruta, amigáveis e certamente farão grande sucesso junto ao público. Batizados de Fortaleza do Seival Tempranillo 2004 e Fortaleza do Seival Tannat 2004, são de certa forma uma boa opção aos vinhos dessa faixa de preço provenientes de nossos vizinhos, que inundam as prateleiras de nossos supermercados. Adriano e Fábio Miolo, este último diretor comercial da empresa não escondem que um grande trabalho foi realizado junto aos distribuidores e lojistas para que estes vinhos cheguem ao consumidor dentro do preço preconizado pela Miolo.

No evento foram ainda mostradas duas estrelas de primeira grandeza da constelação da Miolo, o já conhecido Quinta do Seival Castas Portuguesas, em sua nova safra, a 2004 e o inédito e surpreendente Fortaleza do Seival Cabernet Sauvignon 2004. Ambos merecem um olhar mais detalhado.

O Quinta do Seival Castas Portuguesas 2004, um corte de Touriga Nacional, Tinta Roriz e Alfrocheiro em partes iguais, com passagem por barricas de carvalho. Esta edição está alguns pontos acima da anterior, fruto da evolução das videiras e da impecável vinificação. De intensa cor púrpura impenetrável, exibe deliciosos aromas florais (violeta) e de frutas maduras, com boa expressão na boca, destacado equilíbrio, com bom corpo, taninos de textura fina, ótima persistência e boa concentração. Deve evoluir bem com mais algum tempo de garrafa.

No entanto, o vinho que realmente impressiona e nos dá a certeza de que muitos dos grandes vinhos do Brasil virão da Campanha, é o Fortaleza do Seival Cabernet Sauvignon 2004, produzido com uvas originadas de um vinhedo de baixo rendimento (42 hectolitros por hectare) e 12 meses de passagem por barricas novas de carvalho americano. Na vinificação foram utilizadas macerações pré-fermentativa a frio e pós-fermentativa prolongada, que contribuíram decisivamente para esculpir este puro-sangue de fina estirpe, digno das melhores tradições dos vinhos do Novo Mundo. De impressionante cor púrpura, intensa e impenetrável, tem uma paleta de aromas que compreende frutas escuras em geléia (ameixas e amoras), com chocolate e notas ainda muito marcadas de carvalho tostado e toques resinosos. Seu ponto alto no atual momento é a boca, onde reina absoluto, com muita concentração, acidez e álcool em perfeito equilíbrio, taninos sedosos, corpo pleno, longa persistência e sabor muito agradável. Como foi recentemente engarrafado, certamente vai melhorar muito dentro de alguns meses. Absolutamente obrigatório e sério candidato a ícone desta nova geração de vinhos.

Arthur P. Azevedo viajou para a Estância Fortaleza do Seival, em Candiota (RS) a convite da Vinícola Miolo.