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A hora e a vez da Itália - (Parte
2)
Arthur
P. Azevedo
Nossa viagem pela Itália, a convite de Celso La Pastina,
da World Wine nos reservava ainda muitas surpresas, mostrando
facetas interessantes de um país de grandes contrastes
em termos vitivinícolas, com a tradição convivendo
em perfeita harmonia com as mais modernas e revolucionárias
técnicas de produção de vinhos.
Curioso
notar que a revolução se dá de norte a sul
do país, não respeitando nem mesmo as mais conservadoras
regiões vinícolas italianas. Evidente que nada é
por acaso e por trás destas mudanças estão
alguns enólogos extremamente competentes e, as vezes, pouco
compreendidos e injustiçados. Deles dizem que fazem vinhos
que "não são italianos", tal o grau de
mudança imposto a alguns vinhos emblemáticos da
Itália. Mas, se este é o preço do progresso,
estes enólogos estão dispostos a pagar, com muito
prazer, para sorte dos apreciadores de vinhos de autor, que não
são poucos em todo o mundo.
Umbria,
o embrião das mudanças na Itália
Até
há bem pouco tempo, a Umbria era conhecida apenas pela
charmosa cidade medieval de Orvieto, marcante pelo "Duomo"
ricamente ornamentado por belíssimas obras de arte, pela
cerâmica artística e porque não, pelo inigualável
sorvete de sabor inesquecível. Vinho? Nada que fosse digno
de lembrança.
Hoje,
este conceito sofreu uma mudança radical, em grande parte
pela contribuição de Riccardo Cotarella, um talentoso
enólogo, que juntamente com seu irmão Renzo (hoje
o principal executivo da gigante Antinori, na Toscana), reescreveu
a história do vinho na Umbria. A diferença do perfil
de ambos é imensa. Enquanto Renzo se dedica quase que exclusivamente
à Antinori, Riccardo presta consultoria para mais de 60
vinícolas em toda a Itália, produzindo vinhos espetaculares
e reputadíssimos, de norte a sul, literalmente. No entanto,
ambos têm algo em comum, Falesco, a vinícola da família
Cotarella
As
origens da Falesco, a vinícola dos irmãos Cotarella
A
vinícola Falesco foi fundada pelos irmãos
Cotarella em 1979, quase como um tributo à memória
do pai, Domenico, que morreu prematuramente aos 48 anos, num acidente
de trator. Domenico trabalhava arduamente em sua propriedade,
mas os tempos eram difíceis e a Umbria vivia na sombra
da Toscana, esta sim uma região de grande prestígio
na produção de vinhos de alta qualidade. Na época
do falecimento do pai, Riccardo tinha 23 anos e Renzo, 17 e desde
então os dois irmãos resolveram levar adiante o
projeto do pai, de produzir vinhos de alta qualidade numa região
praticamente desconhecida do mundo.
Assim
nasceu a Falesco, hoje um nome respeitado por todo enófilo
que se preze, em qualquer lugar onde os bons vinhos são
reverenciados e apreciados. O grande diferencial da Falesco reside
na filosofia de trabalho implantada pelos irmãos Cotarella
e que custou muitos anos de muito trabalho. De início,
o grande objetivo foi resgatar as históricas videiras da
região, que num passado muito remoto, na época da
aristocracia romana, deram origem a vinhos muito reputados. Longos
anos de pesquisa foram necessários para que surgissem os
clones das antigas videiras, juntamente com outras varietais extremamente
delicadas, que praticamente haviam desaparecido por volta dos
anos 1960.
A
busca por locais que tivessem solos e adequada exposição
solar também foi de grande importância para que as
parreiras produzissem uvas de extraordinária qualidade.
Este trabalho de mapeamento durou cerca de 10 anos e resultou
na identificação de áreas como a que está
ocupada pelo vinhedo Poggio dei Gelsi, no Lazio, vizinho da Umbria,
onde raras varietais brancas sobreviveram, entre elas a Roscetto,
matriz de um vinho muito particular.
Merlot,
a especialidade da Falesco
No
entanto, a vinícola Falesco tem na uva Merlot sua grande
especialidade, dando origem em 1993 a seu vinho mais famoso, o
Montiano, que colocou a Umbria e a Falesco no mapa vinícola
internacional. Recentemente a Falesco adquiriu uma área
de 200 hectares, Marciliano, situada numa magnífica colina
ao sul de Orvieto, no município de Montecchio. Nesta propriedade
são plantadas as varietais Merlot, Cabernet Sauvignon e
Sangiovese. O novo vinho da Falesco, que leva o nome da propriedade,
Marciliano, é um corte de Cabernet Sauvignon e Cabernet
Franc, muito elegante e sofisticado. A nova área também
se presta a experiências em conjunto com a Universidade
de Tuscia, em Viterbo, onde Riccardo ministra aulas de enologia.
Nestes vinhedos experimentais estão sendo plantadas mais
de 20 varietais diferentes, entre as quais a Nero d'Avola, Primitivo,
Malbec, Tannat, Carmenère e Montepulciano, para citar algumas
delas.
Juntamente
com Riccardo Cotarella fomos conhecer a nova vinícola da
Falesco, que deverá estar totalmente pronta em fevereiro
de 2006. Hoje a maior parte dos vinhos já está sendo
produzida nesta vinícola, moderna, funcional e impressionante
pela quantidade de recursos tecnológicos que agrega, possibilitando
que Cotarella coloque em prática seu imenso conhecimento.
Aliás, boa parte dos revolucionários equipamentos
foram criados pelo próprio Cotarella, que esbanja inventividade.
Um dos segredos de Cotarella tem um nome muito simples: pesquisa
- intensa, refinada, árdua e muito trabalhosa. Riccardo
é obsessivo quando o assunto é produzir vinhos de
alta qualidade. Diz que "a enologia é uma ciência
biológica, em contínua evolução e
certamente não posso fazer vinhos como meu avô fazia".
Pesquisa
e trabalho, a chave do sucesso
Na
Falesco, o recurso da microvinificação é
exaustivamente utilizado e Riccardo é taxativo: "não
é possível improvisar, pesquisar é fundamental".
A Falesco é para ele uma vinícola da Universidade,
cujo principal objetivo é aumentar o conhecimento da região
e conseqüentemente, conhecer melhor o potencial dos vinhos.
Um de seus conceitos mais interessantes é que a uva não
é a parte mais importante do vinho !!!! e sim o terroir.
E Riccardo fala em terroir num sentido muito estrito, onde realmente
está plantado o vinhedo, algo como 2 ou 3 hectares. Segundo
ele, a influência do clima e do solo é muito maior
que a varietal. Textualmente, "a varietal vem depois do terroir"-
interessante, não?
Mais
algumas pérolas de Riccardo, sobre assuntos em voga hoje
no mundo do vinho, como o uso da gravidade na vinícola
- não é adepto e diz que se as bombas corretas forem
utilizadas, nenhum dano ocorrerá com o mosto ou com o vinho.
Biodinâmica? Só em condições ideais
de clima, seco e quente, como na Sicília. Duvida que dê
certo em climas úmidos. No entanto se preocupa muito com
o uso de química no controle de pragas. Irônico,
diz que muitos enólogos "vendem" a biodinâmica,
mas não a praticam. Por fim, diz com um leve sorriso nos
lábios, que "o enólogo não é
mágico", que "o conhecimento é a chave
do sucesso" e que "tem uma paixão pessoal por
conhecer o vinho". Alguém duvida ?
A
degustação na Falesco
Durante
a degustação dos vinhos, conduzida por Riccardo,
tivemos a oportunidade de conhecer na prática o resultado
dos cuidados extremos em todas as fases da produção
dos vinhos da Falesco. Alguns vinhos merecem ser destacados, em
especial o Ferentano 2003, um branco produzido
com a nobre uva Roscetto, de belíssima coloração
dourada, aromas inebriantes de frutas tropicais em compota e grande
expressão na boca, concentrado, untuoso, encorpado, longo,
rico, complexo e de final muito refrescante. Excepcional e absolutamente
surpreendente, talvez o melhor vinho branco degustado em toda
a viagem. Sobre este vinho, vale a pena reproduzir um comentário
de Riccardo, que nos disse que "vinho é emoção,
história, tradição, tecnologia, ciência
e terroir" e que "é perfeitamente possível
se ter diferentes emoções a partir de diferentes
estilos de vinhos".
As
outras estrelas da casa são sobejamente conhecidas dos
brasileiros: o Vitiano 2004, um vinho de extraordinária
relação preço x qualidade, de intensa cor
púrpura e aromas de frutas escuras maduras, com notas de
especiarias e toques florais sutis, bom corpo, taninos
finos e muito boa persistência. O clássico Montiano
2001, um merlot de primeira grandeza,
veio de roupagem púrpura, escuro e impenetrável,
exibindo aromas de frutas escuras em compota, com notas de couro,
cana de açúcar e chocolate. Na boca é delicioso,
equilibrado, elegante, com bom corpo e longa persistência.
O novíssimo Marciliano 2001, vinho agraciado
com nada menos que 95 pontos por Robert Parker, impressiona pela
cor púrpura, quase negra e pela paleta de aromas, com amoras
e ameixas em compota, fino defumado, café expresso, chocolate,
notas minerais (grafite) e elegante tostado. Na boca é
gentil e ao mesmo tempo potente, com perfeito equilíbrio,
textura sedosa (fruto da extrema maturidade de seus taninos),
longa persistência e sofisticado retro-olfato de frutas,
tabaco e chocolate. Já está ótimo e deve
melhorar ainda mais com um breve tempo de adega. Deixamos a Umbria
e seguimos rumo sul, direto para a Campania, uma região
em alta na Itália.
Feudi
San Gregorio, a alma da Campania
A
denominação San Gregorio, que ainda hoje é
usada para nomear o distrito de Sorbo Serpico, no coração
do antigo Principato Ulteriore, uma região de colinas suaves
na Campania, tem sua origem na idade gregoriana, numa lembrança
ao Patrimonium Sancti Petri, que englobava os condados de Irpinia
e Sannio, dispostos ao longo da Via Apia, durante o pontificado
de Gregório Magno (590 a 604 dC). É exatamente em
Sorbo Serpico que a vinícola Feudi San Gregório
se instalou, em 1986 e desde então tem se dedicado a produzir
vinhos com as curiosas uvas autóctones da região,
tais como a Greco di Tufo, a Fiano di Avellino, a Aglianico, a
Aglianico del Vulture e a Primitivo di Manduria.
Destas,
merecem destaque a Aglianico, a mais nobre e mais importante uva
tinta do sul da Itália, com a qual são produzidos
os vinhos da DOC Taurasi e a Greco di Tufo, a uva branca de maior
destaque da região, já mencionada desde a antiguidade
por Plínio e Virgílio e conhecida pela longevidade
que conferia aos vinhos aos quais dava origem.
Ainda
merece citação a Primitivo di Manduria, plantada
há mais de 200 anos no território entre as cidades
de Brindisi e Taranto e hoje muito conhecida pelo nome de Zinfandel,
largamente plantada na Califórnia e muito apreciada em
todo o mundo.
Vinhedos,
pesquisa, microvinificação e parreiras históricas
O
enólogo consultor da vinícola Feudi San Gregório
é Riccardo Cotarella, que também aqui instituiu
os mesmos cuidados extremos que dedica a todas as vinícolas
onde presta consultoria. Um dos detalhes mais importantes com
relação aos principais vinhedos da Feudi diz respeito
à sua localização privilegiada, sempre dentro
das regiões demarcadas da Irpínia. Na verdade, são
pequenos vinhedos, com status de Grand Cru, com solos e microclimas
perfeitos, totalizando 250 hectares de área cultivada.
Pela primeira vez nestes vinhedos a Aglianico foi plantada em
alta densidade para se testar os efeitos deste tipo de procedimento
no amadurecimento dos taninos desta exigente uva.
Talvez
o projeto mais interessante em andamento seja o denominado Projeto
Sirica, designação do mais antigo vinhedo em produção
em todo o sul da Itália, plantado segundo
os registros em 1826. A visita à área de 4 hectares,
onde a uva Sirica está sendo cultivada até os dias
de hoje, se constituiu numa verdadeira volta ao passado, pois
as imponentes parreiras estão plantadas por um antigo sistema
de condução suspensa, o Tendone Avelinense, num
solo impregnado pelas cinzas do Vesúvio, que se encontra
a apenas 45 km em linha reta do local. Estima-se que estas parreiras
da era pré-filoxera produzam cerca de 100 kg de uva por
planta, algo impensável nos dias de hoje. Na área,
além da Sirica, estão plantadas também antigas
videiras de Aglianico, cujas uvas são parcialmente utilizadas
para a produção de um dos melhores vinhos do Feudi,
o Serpico.
O
Projeto Sirica prevê a produção de um vinho
especial com as uvas destas parreiras centenárias, que
ainda está em gestação, mas que em breve
deverá se tornar realidade.
A
vinícola Feudi San Gregório é extremamente
moderna e funcional, com todos os requisitos para transformar
estas uvas históricas em vinhos muito atraentes e acima
de tudo, representativos desta região única da Itália.
Dentro da vinícola há um espetacular restaurante,
o Marennà, onde são servidas as delícias
gastronômicas da Irpínia e da Campania, acompanhadas
dos vinhos do Feudi San Gregório. Um programa imperdível
!!!
A
degustação no Feudi San Gregório
Dentre
os inúmeros vinhos degustados durante nossa visita, destaque
para o FSG Taurasi 2001, um puro vinho de Aglianico,
muito agradável e concentrado, e para o Ognissole
Vigna Canuddi 2004, um vinho produzido com a uva Primitivo,
de instigantes aromas de frutas escuras e chocolate, entremeados
por notas florais e sabores deliciosos, corpo pleno, taninos finos
e longa persistência.
Na
linha premium desponta o FSG Piano di Montevergine Taurasi
DOCG Riserva 1999, uma amostra do potencial da Aglianico,
com aromas elegantes e sofisticados de geléia de amoras,
mesclada a especiarias, chocolate e fino tostado. Excelente na
boca, tem perfeito equilíbrio entre álcool e acidez,
taninos muito finos ainda presentes, ótimo corpo, grande
concentração e longa persistência. Obrigatório.
Outro
grande vinho do Feudi e bastante conhecido dos brasileiros é
o FSG Serpico 2003, outro vinho de Aglianico
de grande expressão, ainda muito jovem mas já mostrando
que tem um brilhante futuro pela frente. Os aromas de frutas escuras
muito maduras e chocolate lhe dão um caráter especial
e na boca é concentrado, encorpado e de excelente persistência.
Por
fim, o FSG Patrimo 2002, um puro merlot, só
para mostrar que a vinícola também trabalha muito
bem as uvas "estrangeiras". Aqui temos um vinho de cor
rubi, ainda jovem e que exibe intensos aromas de cerejas e framboesas
perfeitamente maduras, numa delicada moldura de chocolate e notas
de defumado. Na boca é intenso, com boa acidez, corpo pleno,
imensa estrutura tânica marcada por taninos finos e maduros,
muita concentração e longa persistência. Um
vinho que certamente vai precisar de um bom tempo de adega, mas
que certamente recompensará quem souber esperar.
Todos
os vinhos comentados nesta matéria são trazidos
ao Brasil pela World Wine La Pastina.
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