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A Hora e a Vez da Itália - parte 1
Arthur P. Azevedo

O mercado mundial de vinhos vem assistindo, já há algum tempo, uma interessante disputa entre o Velho Mundo, representado pela Europa, onde estão os mais tradicionais produtores de vinhos e o Novo Mundo, onde vários países estão implantando novos paradigmas para a produção vinícola.

No mercado brasileiro esta competição é ainda mais acirrada, potencializada por fatores como a distância geográfica, os diferentes regimes de tributação alfandegária e até pela maciça disponibilidade de vinhos de países como Argentina e Chile nos mais remotos pontos de venda do território brasileiro. Some-se a isto o baixo poder aquisitivo da maioria da população e teremos o terreno mais que propício para a venda de vinhos mais baratos e de fácil apelo.

Aos poucos, o Velho Mundo começa a reagir, num movimento que começou pela Espanha, se difundiu por Portugal e agora começa a ser percebido num dos países de grande prestígio no mundo do vinho, a respeitabilíssima Itália, que começa a despertar de seu estado de letargia, dando sinais inequívocos que a situação vai mudar muito em breve.

Pudemos comprovar esta assertiva numa interessante viagem que fizemos em novembro deste ano, a convite de Celso La Pastina, proprietário da importadora World Wine, acompanhando um seleto grupo de jornalistas, que percorreu a Itália de Norte a Sul, do Piemonte à Sicília, visitando algumas das mais inovadoras e interessantes vinícolas italianas, cujos vinhos fazem parte do sofisticado catálogo da empresa. É nossa idéia fazer um relato do que vimos e das personalidades que encontramos, este sem dúvida o ponto alto da viagem, pelo privilégio de conhecer aqueles que estão realmente mudando a imagem do vinho italiano.

No Piemonte, a nova face dos Barolos e dos Barbarescos

Depois de uma viagem bastante tranqüila, a bordo de um moderno Boing 777 da Alitália, nosso grupo desembarcou em Milão, onde a neblina característica da região se encarregou de nos transportar para a mágica atmosfera do Piemonte.

Um curto trajeto e pronto, estávamos na charmosa Alba, em pleno domingo, debaixo de uma leve chuva e envoltos por um aroma inebriante e inconfundível, que evoca o gás metano, mel, especiarias, terra molhada e alho. O movimento nas ruas denunciava que algo de muito especial estava acontecendo.

Bastou andarmos duas quadras do hotel para descobrir não só a origem do aroma como o motivo da agitação. Sim, elas mesmas, as inigualáveis trufas brancas, ou tartufo bianco, como são chamadas na Itália, expostas em bancas nas ruas e disputadas avidamente, literalmente a peso de ouro, por uma multidão de apreciadores desta fina iguaria.

No entanto, rapidamente nos lembramos que nosso foco era outro, os elegantes vinhos piemonteses, em especial os Barolos e os Barbarescos, produzidos com a rainha das uvas italianas, a caprichosa Nebbiolo, cuidadosamente cultivada nas encostas do Piemonte e cujo nome deriva da palavra italiana nebbia, ou neblina.

Nosso primeiro encontro foi com Paulo Abonna, responsável pela Marchesi di Barolo, a primeira vinícola a produzir vinhos com a denominação Barolo. Hoje a Marchesi di Barolo produz vinhos em diferentes denominações de origem, tais como Barolo, Barbaresco, Barbera d'Alba, Dolcetto d'Alba, Gavi e Moscato d'Asti, seguindo a filosofia de manter a tradição, mas sem abrir mão da modernidade, com uso criterioso dos recursos tecnológicos atuais. Seus Barolos são vinificados com temperatura controlada e barricas francesas de 225 litros substituíram os antigos barris de 3.500 litros. Os vinhos são muito mais acessíveis, mesmo jovens, mas envelhecem com grande elegância.

As grandes estrelas da casa são o Barolo Sarmassa 2001, um vinho de sofisticados aromas de frutas em geléia, com notas florais e resinosas, corpo pleno e longa persistência, o Barolo Cannubi 2000, um vinho de boa complexidade aromática e bela expressão e o estupendo Barbaresco Reserva 1999, elegante, com aromas de frutas vermelhas e notas de couro, equilibrado, encorpado, muito persistente e marcado por taninos muito finos e maduros.

Ainda no Piemonte, visitamos outro produtor de imenso prestígio, Bruno Rocca, dono de uma minúscula vinícola encravada no coração de um dos mais importantes vinhedos da região, o Rabajà. Fundada em 1978 e proprietária de apenas 15 hectares, a família Rocca possui 5 hectares do vinhedo histórico Rabajà. Atualmente a Bruno Rocca produz apenas 55 a 60 mil garrafas por ano, somente com uvas próprias, sendo que 75% são vinhos da uva Nebbiolo, sob a denominação de origem Barbaresco. Também se produz Dolceto, Barbera e dois vinhos modernos, abrigados na denominação Langhi, sendo um tinto (Cabernet Sauvignon, Barbera e Nebbiolo) e um branco (Chardonnay 100%).

Um de seus principais vinhos é o Maria Adelaide, nome dado em homenagem à mãe de Bruno, uma doce senhora de 96 anos que nos recebeu com rara fidalguia em sua casa, onde pudemos degustar os vinhos da empresa. Ficamos muito bem impressionados pelo alto nível de qualidade de toda a linha, fruto de um extensivo trabalho nos vinhedos e dos cuidados na vinificação, onde se empregam tanques de aço inoxidável e barricas de carvalho francês, proveniente das florestas de Allier.

Os destaques ficam por conta do Bruno Rocca Coparossa 2001, um Barbaresco de fina estirpe, que exala aromas deliciosos de ameixas e amoras mescladas a café, denso, equilibrado, concentrado, longo e suntuoso. Já o Maria Adelaide 2001 mostra que é um vinho de longa guarda, pois ainda está em sua mais tenra infância. A produção foi de apenas 3000 garrafas, de um vinho com aromas de frutas confeitadas, com notas terrosas, de cogumelos, couro e chocolate, de bom corpo, longa persistência e taninos de muito boa qualidade ainda bastante presentes. Precisa de tempo, mas certamente os que tiverem paciência serão recompensados.

Na Toscana, tradição e inovação estão lado-a-lado

Perseguidos pelo tempo chuvoso e pela neblina, fomos do Piemonte até a Toscana, onde um experiência bastante interessante nos aguardava. Primeiro a tradição, representada pelo Barone Ricasoli, ninguém menos que os inventores do Chianti, um vinho que se confunde com a própria identidade do vinho italiano. Fomos recebidos por Francesco Ricasoli, que nos mostrou a intimidade da empresa, que nos últimos tempos vem passando por uma completa reformulação, que já consumiu nada menos que 30 milhões de euros, mostrando a confiança num produto que não para de evoluir.

A Ricasoli, implantada no coração da região do Chianti Classico, tem seus projetos voltados para a tradição e a modernidade. O Castello de Brolio é um puro varietal da uva Sangiovese, concebido dentro do conceito de Grand Cru, um vinho de grande personalidade, que visa atingir um público ávido por vinhos de terroir, menos internacionais. Já o Casalferro, um corte de Sangiovese e Merlot é um vinho de vocação moderna, em sintonia com as exigências do mercado.

A renovação na Ricasoli começou em 1993, quando a família recomprou a vinícola e os vinhedos, que nesta época estavam em poder da Hardy's, um produtor australiano. Um árduo trabalho de recuperação dos vinhedos, partindo do zero ou seja, desde o preparo cuidadoso da terra e o plantio dos clones adequados, que foi fundamental para o cultivo de uvas de ótima qualidade, base indispensável para se
produzir vinhos de qualidade. Também na vinícola a reformulação foi total, com a aquisição de modernos equipamentos e barricas de carvalho francês da melhor procedência. Os resultados podem ser sentidos nos vinhos da Ricasoli, desde os mais simples até os mais sofisticados.

Na degustação destacaram-se o Brolio 2003, um belo exemplar de Chianti contemporâneo e de boa relação preço/qualidade, intenso, agradável, saboroso e persistente. No topo da pirâmide estão o Castello de Brolio 2001, um corte de Sangiovese 90%, completado com Cabernet Sauvignon e Merlot, que passa 18 meses em barricas de carvalho francês, sendo 65% novas. Aqui estamos num outro patamar de qualidade e o vinho transborda aromas de frutas escuras perfeitamente maduras, entremeadas por chocolate e toques de tostado. Na boca é encorpado, concentrado, elegante, longo e perfeitamente sustentado por ótima acidez e taninos maduros. A outra grande estrela é o Casalferro 1999, no auge de sua evolução, revelando intensos aromas de melaço de cana e tostado, emoldurando as frutas em compota, permeadas por toques de fino couro. Hedonístico, dá grande prazer pelos sabores concentrados, pelo perfeito equilíbrio e pela textura sedosa. Inesquecível.

Ainda na Toscana, estivemos na La Massa, capitaneada por Giampaolo Motta, um irreverente napolitano, conhecido na região como "Il Pazzo di Napoli", ou seja, o louco de Nápoles. Formado em química em Lyon, na França, Motta é descendente de uma família com grande tradição na arte de trabalhar com peles animais, em Nápoles. No entanto, rapidamente percebeu que sua verdadeira paixão era o vinho. Começou sua carreira em Chianti, trabalhando para importantes produtores, em todas as áreas da produção de vinho, até como tratorista. Enquanto isso, observava e aprendia, visando um dia ter sua própria vinícola. Com a ajuda do enólogo e amigo Carlo Ferrarini, descobriu e comprou a La Massa, uma pequena propriedade situada em Panzano, num local conhecido como Concha de Ouro, por sua privilegiada localização e disposição geográfica. Depois de um começo tormentoso, principalmente devido à trágica safra de 1992, desafortunadamente a primeira da empresa, as coisas foram gradativamente melhorando, graças à obstinação de Giampaolo, um fervoroso discípulo da qualidade e adepto incondicional de Bordeaux.

Giampaolo trabalha seus vinhos hoje numa minúscula vinícola, quase artesanal, mas novas e modernas instalações estão sendo construídas, mas apenas para concentrar todas as operações num só local (atualmente as barricas estão estocadas num local distante da vinícola). Motta deixa muito claro que "faz e continuará fazendo todos os esforços para evitar que a tecnologia torne seus vinhos uniformes". Apesar de acreditar no conceito de Denominação de Origem, as relações de Motta com as autoridades reguladoras da região de Chianti não são as mais amistosas e Motta freqüentemente as desafia em seus regulamentos estritos. Até 2002 o Giorgio Primo, seu vinho premium obedecia as normas do DOC, usando um mínimo de 80% de Sangiovese, completando o restante com outras uvas. A partir de 2003, todos os vinhos da La Massa serão IGT ou Indicazione Geográfica Típica, segundo Motta "para ter uma imagem melhor no mercado internacional e até alcançar preços melhores". Adeus Galo Nero !!! Irreverente, a partir de 2002 Motta simplesmente estampou no contra-rótulo do La Massa, seu corte de Sangiovese 40%, Merlot 55% e Cabernet Sauvignon 5%, uma imagem insólita. O tradicional Galo Nero, ou Galo Negro, símbolo maior do consórcio do Chianti Clássico, aparece melancolicamente depenado, girando num espeto, numa fogueira, assando lentamente. Uma heresia sem tamanho.

Falando dos vinhos, tivemos o privilégio de degustar em primeira mão o La Massa 2003, intenso, com frutas perfeitamente maduras, toques florais (violeta), chocolate, café expresso e tostado, delicioso, potente, encorpado e muito longo. Depois, participamos de uma imperdível degustação vertical do Giorgio Primo (1997, 2000, 2001, 2002 e 2003), uma verdadeira festa para os sentidos, onde se destacaram o Giorgio Primo 2001 (aromas de compota de ameixa, chocolate, caramelo, ótima estrutura, taninos finos, longo e concentrado) e o Giorgio Primo 2003 (uma usina de força, de cor púrpura impenetrável, aromas inebriantes de violeta, couro novo, chocolate, café, amoras, cerejas negras e tostado, muito concentrado e encorpado, muito longo e com taninos ainda bastante presentes, finíssimos e maduros). Vai precisar de algum tempo de adega, mas certamente é um vinho para fazer história.

Todos os vinhos comentados nesta matéria são trazidos ao Brasil pela World Wine La Pastina.