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Expand promoveu "Duelo de Gigantes",
em São Paulo
Arthur
Azevedo
Uma
festa para os enófilos brasileiros. Esta é a melhor
definição do superlativo evento promovido pela Expand
em São Paulo, que reuniu alguns dos melhores degustadores
do Brasil, numa réplica da já famosa "Cata
de Berlin", realizada em janeiro de 2004. O objetivo principal
foi comparar às cegas alguns vinhos premium do Chile, com
grandes vinhos franceses e italianos, sob a coordenação
de Steven Spurrier, editor da mais importante revista de vinhos
da Inglaterra, a Decanter e com a presença de Eduardo Chadwick,
presidente da Viña Errázuriz, proprietária
das vinícolas Errázuriz, Seña e Viñedo
Chadwick.
A
"Cata de Berlin", onde tudo começou
A
primeira idéia de comparar vinhos do Novo Mundo com os
vinhos do Velho Mundo, na verdade, foi de Steven Spurrier, que
em 1976 promoveu a já antológica degustação
de vinhos californianos e franceses, analisados pelos maiores
críticos de vinhos da França e que de modo surpreendente,
consagrou definitivamente os vinhos da Califórnia, escolhidos
como os melhores naquela ocasião.
Em
23 de janeiro de 2004, Eduardo Chadwick resolveu reviver aquele
encontro, convidando o mesmo Steven Spurrier para conduzir uma
degustação totalmente às cegas, desta vez
em Berlim, colocando a prova seus vinhos Seña, Dom Maximiano
e Viñedo Chadwick, lado a lado com ícones da vinicultura
mundial, tais como os Premiers Grands Crus Classes de Bordeaux
(Chãteaux Margaux, Lafite e Latour) e os Super-Toscanos
(Solaia, Sassicaia, Tignanello e Guado al Tasso), só para
dar um exemplo.
O
painel era composto por 16 vinhos, sendo 6 chilenos, 6 franceses
e 4 italianos. O resultado foi para todos uma grande surpresa:
em primeiro lugar ficou o Viñedo Chadwick 2000, seguido
pelo Seña 2001 e pelo Lafite 2000. Desde então os
vinhos chilenos, antes considerados muito caros pelo que apresentavam
passaram a ter um outro conceito perante os críticos europeus,
que reconheceram sua alta qualidade e preço compatível.
Em São Paulo, o mesmo enredo, com final diferente
Havia
uma evidente expectativa no ar, quando em 7 de novembro, mais
de 25 jornalistas brasileiros do primeiro time, sommeliers e alguns
diretores de entidades ligadas ao vinho (ABS-SP e SBAV-SP), entraram
na sala de degustação cuidadosamente montada no
Empório Santa Maria, em São Paulo. Na mesa principal,
o anfitrião Otávio Piva de Albuquerque, presidente
do Grupo Expand, ladeado por Steven Spurrier e Eduardo Chadwick,
recebiam a todos, com instruções para que ocupassem
seus lugares nas mesas de degustação.
Eduardo
fez então uma rápida explanação sobre
seus vinhos, que seriam novamente postos a prova, às cegas,
contra 3 vinhos franceses e 2 italianos. Com sua identidade encoberta
por invólucros negros, os vinhos foram servidos em impecáveis
taças Riedel e identificados apenas por letras, de A a
J. Um longo silêncio se fez e todos se debruçaram
sobre as taças, avaliando cada vinho em sua intimidade
e escolhendo os três melhores, para posterior tabulação.
Em
voz alta, cada participante nomeava seus três vinhos e o
resultado foi sendo revelado numa planilha eletrônica, que
atribuía 3 pontos ao primeiro colocado, 2 ao segundo e
1 ao terceiro. Ao final, a revelação: havia uma
significativa diferença em relação ao resultado
de Berlin.
Em
São Paulo, a ordem de classificação (com
os respectivos pontos obtidos) foi: Château Margaux 2001
(41), Château Latour 2001 (27), Viñedo Chadwick 2000
(25), Guado Al Tasso Bolgheri 2000 (24), Seña 2001 (20),
Seña 2000 (17), Don Maximiano 2001 (11), Viñedo
Chadwick 2001 (7), Château Lafite-Rothschild 2001 (6) e
Sassicaia Bolgueri 2000 (1). Surpresos?
Pois
é meus caros, degustações às cegas
costumam ser imprevisíveis.
Algumas
inconfidências e evidências da degustação
Uma
vez revelados os resultados, fomos buscar algumas explicações
para as divergências entre Berlim e São Paulo. Um
dos fatores mais importantes é sem dúvida a familiaridade
que temos com os vinhos chilenos, pois eles fazem parte de nosso
dia-a-dia e poucos dos participantes, se é que existiram,
tiveram dificuldade em identificar os cinco vinhos chilenos do
painel.
Por
outro lado, os vinhos eram bastante diferentes entre si, revelando
estágios de evolução diversos. Em comum apenas
o perfil aromático dos chilenos, com os clássicos
aromas de mentol e frutas que remetem inevitavelmente à
nossa familiar goiaba. Os europeus se mostraram mais contidos
e o Margaux certamente encantou a todos com sua elegância
e seu aroma de café finamente tostado, que o diferenciava
de todos os outros vinhos.
O
autor desta coluna, considerando o momento por que passam estes
vinhos, escolheu como seu favorito o Seña 2001,
um vinho hedonístico, pleno de frutas perfeitamente maduras,
taninos sedosos e longa persistência, ótimo para
ser bebido agora. Teve uma honrosa nota 92/100. Em segundo lugar,
ficou o estupendo Château Latour 2001,
elegante e sofisticado, com aromas de frutas escuras, notas de
fino couro e toques florais. Na boca, prima pela refrescante acidez,
pela fineza dos taninos e pela ótima persistência.
Tem certamente um belo futuro. A nota? 91+/100. Por fim, nossa
terceira escolha foi o Château Margaux 2001,
um vinho de "nariz" diferenciado (mais parecia um Mouton-Rothschild),
dominado pelas notas de café torrado, entremeadas às
frutas perfeitamente maduras, com toques de couro novo e nuances
resinosas. Ainda jovem na boca, tem taninos de boa qualidade bastante
presentes, corpo médio e longa persistência. O tempo
certamente lhe fará bem. Hoje, merece um 90,5+/100.
Conversas
de bastidor, com Steven, Chadwick e Otávio
Depois
de um sofisticado almoço preparado pela equipe do Empório
Santa Maria, capitaneada pela incansável Tânia Piva
de Albuquerque, que se desdobrava para atender a todos de forma
personalizada, pudemos conversar um pouco com os idealizadores
da degustação, Eduardo Chadwick e Steven Spurrier.
Chadwick,
um verdadeiro embaixador do Chile, explicou que seu principal
objetivo ao criar a "Cata de Berlin" foi o de validar
os vinhos produzidos por sua empresa em diferentes terroirs do
Chile, mostrando suas qualidades e suas características,
bastante diferentes dos vinhos produzidos na Europa. Segundo Chadwick,
somente agora os vinhos chilenos começam a obter pontuações
expressivas nas publicações especializadas e ressalta
que até a década de 1990, nenhum vinho chileno havia
obtido notas acima de 90 pontos, fato hoje bastante comum, especialmente
nos vinhos de concepção premium.
Um
assunto delicado, abordado sem constrangimento por Chadwick, diz
respeito aos preços destes vinhos premium do Chile, bastante
elevados, especialmente para o consumidor brasileiro. Numa visão
bastante objetiva, Chadwick defende que o preço ajuda a
posicionar o vinho dentro do mercado e que compete à empresa
fazer um trabalho de convencimento do consumidor, no sentido de
que o preço cobrado pelo vinho é justo pelo que
o mesmo representa em termos de qualidade.
Chadwick
ainda enfatiza que estes vinhos dependem de um minucioso trabalho
nos vinhedos e na vinícola, o que evidentemente tem um
custo que fatalmente vai ser repassado ao vinho. Polêmico,
afirma que o preço faz parte da imagem do vinho.
Steven
Spurrier, um jornalista e escritor de vinhos com longa experiência,
inclusive no mercado de vinhos, pois foi durante longos anos proprietário
de uma conceituada loja de vinhos em Paris, traçou um abrangente
panorama do mundo do vinho, ressaltando o papel da França
nesta nova fase do Velho Mundo. Disse com todas as letras que
a Espanha é hoje o país que tem os vinhos mais interessantes
da Europa e destacou o progresso dos vinhos portugueses, mas não
escondeu que tem pelos franceses um carinho muito especial.
Comentou
o papel importante que os críticos de vinhos tem no mercado,
pois o público gosta de ter algumas referências para
a compra de vinhos. No entanto, alertou que este tipo de atividade
precisa ser exercida com cuidado, pois traz consigo uma imensa
responsabilidade.
Defendeu
com ardor a idéia que a França não deve se
render à "parkeirização" - referindo-se
aos vinhos que agradam ao crítico americano Robert Parker
- e que os verdadeiros vinhos franceses vão voltar. Na
disputa entre a crítica inglesa Jancis Robinson e Parker,
por causa do estilo dos vinhos de Bordeaux, claramente se colocou
ao lado de Jancis, defendendo a volta da elegância e da
sofisticação dos vinhos, em vez da potência
e da concentração.
Steven
acha que a França deve voltar seus olhos para regiões
particulares, citando como exemplo o Vale do Loire e a Alsácia,
fonte de vinhos muito subestimados pelos consumidores. Aposta
suas fichas nos jovens produtores franceses, que segundo ele,
estão resgatando as melhores tradições do
grande vinho francês. Nas palavras de Steve, a França
está num processo de reinvenção de si mesma,
"a la anciènne", buscando acima de tudo a originalidade
e a integridade de seus vinhos.
Por
fim, fez uma previsão das uvas que devem fazer sucesso
nos próximos anos, elegendo a Pinot Gris (em estilo alsaciano),
a Cabernet Franc para cortes, a Syrah (em estilo francês)
e a Touriga Nacional.
Falando
a Artwine, o empresário Otávio Piva de Albuquerque
ressaltou a importância deste tipo de evento, que também
foi repetido para os consumidores (que coincidentemente elegeram
o Margaux 2001 como o melhor vinho), dando a oportunidade para
que o brasileiro tenha acesso a este vasto universo que o vinho
descortina. O Brasil só tem a ganhar com estas iniciativas.
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