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Allegrini, Valpolicella em Grande Estilo

Arthur Azevedo

Em Valpolicella, uma das mais subestimadas regiões vinícolas da Itália, a Família Allegrini produz vinhos de alta classe e muita personalidade

Valpolicella é uma das mais belas e interessantes regiões vinícolas da Itália. No entanto, particularmente no Brasil, está muito longe de ser reconhecida como produtora de vinhos de alta qualidade. A razão para tal desconhecimento deriva do verdadeiro mar de opções de baixa qualidade provenientes da região que inunda as prateleiras dos supermercados e as cartas de vinhos de milhares de cantinas italianas espalhadas por todo o Brasil. Invariavelmente, esses produtos são acídulos, pouco concentrados, rústicos e sem grande expressão. Nada mais injusto que tomar este tipo de vinho como representativo de Valpolicella. Para resgatar a imagem dos vinhos de lá e recolocar as coisas no seu devido lugar, nada como conhecer um dos grandes produtores da região, Allegrini, onde estivemos a convite da Expand Importadora, representante exclusiva desse ícone da Itália no mercado brasileiro.

A região de Valpolicella

Situada no Veneto, Valpolicella é uma região montanhosa, de terra fértil, conhecida desde os tempos ancestrais. Compreende os vales dos rios Negrar, Marano e Fumane, que se originam nas montanhas Lessini, a oeste de Verona. Também faz parte da região uma larga faixa de terras altas planas que se estende ao longo do Rio Adige, desde La Chiusa até Parona.

Giuseppe Silvestri, um inspirado poeta italiano, descreve a região como "um território desenhado com linhas suaves e tons delicados, com nuanças que mudam de uma estação para a outra, uma terra onde a rica vegetação mostra cada uma das tonalidades de verde e no céu, cuja coloração vai do mais pálido azul ao mais profundo violeta, passeiam livremente grandes nuvens brancas e acinzentadas, esculpidas pelo vento, assumindo formas de torres bizarras e palácios fantásticos, ou simplesmente lembrando tufos de algodão, que se dissolvem num magnífico pôr-do-sol, atrás do relevo das montanhas, em direção aos reflexos prateados do Lago de Garda".

Voltando à região vinícola propriamente dita, o Valpolicella Clássico situa-se ao norte de Verona e compreende cinco municípios: Fumane, Marano, Negrar, Sant'Ambrogio e San Pietro In Cariano. O solo da região é predominantemente calcário, provavelmente, originário dos períodos Jurássico e Cretáceo. O clima é, geralmente, ameno e temperado e as precipitações anuais são da ordem de 900 a 1.100mm.

Uma curiosidade diz respeito à origem do nome Valpolicella, que muitos estudiosos garantem ser formada pela junção da palavra grega poli, significando muito, e da palavra latina cella, significando adega. Daí o nome, Vale das muitas adegas. De fato, a atividade de produzir vinhos na região vem de um passado muito distante. Há evidências de que a produção de vinhos na região remonta ao período Etrusco, dos séculos XV ao VII a.C. No entanto, as primeiras descrições das virtudes dos vinhos de Valpolicella só surgiram muito depois, quando os vinhos foram exaltados pelos escritores romanos.


A história da Allegrini

A família Allegrini tem desempenhado, há muitos séculos, um importante papel na história de Valpolicella. Na verdade, desde o século XVI, já que em 1557, Allegrino Allegrini adquiriu os direitos de usar algumas fontes de água da cidade de Fumane, com o objetivo de facilitar a irrigação de suas terras. Na época, os Allegrini já plantavam uvas e produziam vinho, além de possuir uma considerável área de terras e ocupar posições de destaque na sociedade local.

A nova geração da família começou com Giovanni Allegrini, que foi um dos primeiros produtores da região a questionar as técnicas viticulturais de Valpolicella, colocando em dúvida a qualidade dos vinhos produzidos. Giovanni defendia uma combinação de rigorosa seleção das uvas com modernas técnicas de enologia, reunindo em torno dele um grupo de talentosos enólogos, que produziu alguns grandes vinhos em Valpolicella entre os anos 1960 e 1970. Após sua morte, em 1983, seus filhos assumiram a empresa com grande competência, colocando-a entre as mais importantes vinícolas do mundo. Hoje, Walter cuida das atividades viticulturais, Franco, da parte de enologia e Marilisa, do marketing.

Os vinhedos da Allegrini

A Allegrini possui cerca de 70 hectares de vinhedos na região de Valpolicella, nos arredores de Fumane, Sant'Ambrogio e San Pietro, onde ainda existem antigos vinhedos plantados em latadas, em contraste com os novos vinhedos, dispostos em espaldeiras. O vinhedo mais renomado da empresa é o Palazzo della Torre, plantado em solo argiloso, em perfeita harmonia com o microclima local. É absolutamente perfeito para o cultivo da Corvina, que atinge a perfeição nesse terroir único.

O famoso vinho Amarone della Valpolicella, uma das especialidades da casa, é produzido a partir de uvas cultivadas em vinhedos situados na região montanhosa do Valpolicella Clássico. Estes vinhedos - Fieramonte, Monte dei Galli, Carpanè, Scornocio e Volta - estão situados em altitude de 250m, com exposição ao sol do sudeste. O clima é ameno, não só pela influência dos planaltos de Lessini e pelas Dolomitas ao norte, como pela vizinhança do Lago de Garda. O solo é de média fertilidade, o sistema de condução ainda é o de pérgola (latada) e a densidade, de cerca de 3.000 plantas por hectare, o que proporciona condições adequadas para um perfeito amadurecimento das uvas.

Já para a produção do delicioso Recioto Giovani Allegrini são usadas uvas provenientes de vinhedos situados em Fumane di Valpolicella, conhecidos como Lena e Gardane, plantados em encostas a 250m de altitude e com excelente insolação. O solo é de calcário e giz, adequados para o cultivo de Corvina e Rondinella.

O vinhedo do festejado La Poja está situado no alto de uma montanha, numa área plana e de visão estonteante, a cerca de 325 metros de altitude sobre o nível do mar. Aqui são apenas 2,5 hectares, de puríssimo solo calcário, plantados exclusivamente com a uva corvina, num terroir absolutamente único.

A produção do Amarone, o grande vinho de Valpolicella

Um dos vinhos mais interessantes de toda a Itália, o Amarone é produzido a partir de uvas secas, num processo que dura cerca de 4 a 5 meses e durante o qual pode ocorrer a infecção das uvas pelo fungo Botrytis (a chamada "podridão nobre"). Se alguns produtores ainda consideram benéfica esta infecção, esse ponto de vista é hoje contestado por Franco Allegrini e outros enólogos da região.

A teoria de Franco se baseia no fato que o principal ingrediente para se produzir um excelente vinho é a perfeita sanidade das uvas, o que não ocorre quando a Botrytis está presente. Segundo estudos recentes, mesmo uma mínima presença do fungo afeta o sistema de defesa do vinho, tornando-o vulnerável e fazendo com que ele se torne mais suscetível à oxidação.

A forma encontrada para contornar esse problema foi a construção de câmaras de desumidificação, onde os cachos das uvas permanecem por alguns dias, livrando-se da umidade e prevenindo-se do desenvolvimento de qualquer tipo de fungo. A seguir, as uvas são colocadas em grandes galpões de secagem, onde imensos ventiladores fazem o ar circular, promovendo a lenta e gradual secagem das uvas. A adoção de recipientes de plástico para acomodá-las também contribui de forma decisiva para a perfeita higiene do processo. A secagem das uvas da Allegrini é feita num grande centro de secagem conhecido como "Terre de Fumane", perto da sede da Allegrini em Fumane.

Os vinhos da Allegrini

Durante nossa visita à Allegrini, tivemos a oportunidade de degustar toda a linha de vinhos da empresa, que se mostrou muito consistente e num patamar de qualidade muito acima daquilo que, no Brasil, conhecemos como Valpolicella.

Os vinhos que mais nos impressionaram foram:
- Pallazo della Torre 2001 (Corvina 70%, Rondinella 25% e Sangiovese 5%), um ótimo vinho de aromas frutados e florais (violetas), com notas de tostado, finos taninos, boa concentração e sabores sutis (87/100);
- La Grola 2001, um corte de Corvina (70%), Rondinella (15%), Syrah (10%) e Sangivese (5%), com passagem por 16 meses em barricas de carvalho francês de segundo uso e aromas instigantes de frutas escuras em compota, chocolate e café torrado, com boa expressão na boca, taninos finos, boa acidez e longa persistência (88/100);
- La Poja 2000, com passagem por 20 meses em barricas de carvalho francês novo. Um puro-sangue da uva Corvina (100%), de intensos aromas florais (violeta e lavanda) mesclados a aromas de frutas escuras e chocolate, encorpado, concentrado e com taninos de boa qualidade, ainda bastante presentes (90/100);
- Amarone Clássico 2000, uma usina de força produzida com Corvina (75%), Molinara (15%) e Rondinella (5%), de complexos aromas de frutas escuras envoltas em chocolate, entremeadas por notas terrosas e toques animais (couro e estábulo), de ataque "quase doce", grande concentração, longa persistência e delicioso retro-olfato. Um canhão de grosso calibre (91+/100)

Fechamos nossa degustação com o espetacular Giovanni Allegrini Recioto della Valpolicella, um vinho doce produzido com Corvina (75%), Rondinella (20%) e Molinara, que passa 14 meses em carvalho francês e exibe intensos aromas de frutas passas, geléia de frutas e melaço de cana, com ótima doçura, taninos finos, longa persistência e que implora pela companhia de um belo bolo de frutas (90/100).

Villa Giona, um paraíso em Valpolicella

Uma das grandes atrações de nossa visita à Allegrini foi, sem dúvida, a visita à Villa Giona, uma belíssima propriedade, com castelo e jardins paradisíacos, além de impecáveis vinhedos de onde vem a mais nova maravilha produzida pela empresa.

O Villa Giona 2001 é um puro francês nascido no coração do Veneto, um corte de Cabernet Sauvignon (50%), Merlot (40%) e Syrah (10%), com estágio por 18 meses em barricas novas de carvalho francês. Aqui a cor é púrpura, impenetrável e sem evolução, com aromas de frutas escuras (amoras e ameixas), toques resinosos, chocolate, carvalho tostado e notas de fino couro. Na boca, impressiona pela complexidade e elegância, pela extrema maciez, pelos taninos extremamente finos e por sua persistência muito longa, além dos deliciosos sabores e retro-olfato de frutas, chocolate e caramelo tostado. Um gigante gentil, ótimo hoje, mas que vai melhorar muito com mais alguns anos de adega (92++/100).

Arthur Azevedo, editor de Wine Style e diretor da Associação Brasileira de Sommeliers-SP visitou a Allegrini a convite da Expand Importadora.