O renascimento do Jerez

Arthur Azevedo

20/10/2010

Patrimônio da Espanha, o vinho de Jerez tem uma longa história que remonta o ano de 1.100 a.C., quando as primeiras videiras teriam sido trazidas ao sul do país pelos fenícios. Achados arqueológicos, localizados a alguns quilômetros de Jerez, confirmam que os fundadores da antiga Gades (Cádiz) foram quem trouxeram do Líbano a arte de cultivar a videira e elaborar o vinho.



Desde então, fatos importantes como a dominação pelos mouros, a reconquista pelo rei Alfonso X, os ataques do pirata Francis Drake, a atração dos ingleses pelo vinho, as primeiras tentativas de regulamentação e o ataque pela praga filoxera, no final do século 19, marcaram a história deste vinho único, de grande personalidade e caráter, que aos poucos vem recuperando o lugar que lhe pertence, de fato e de direito, no universo dos vinhos fortificados - um território amplamente dominado pelo mais que conhecido Vinho do Porto.

Jerez é um vinho fortificado, produzido no sul da Espanha, em Andaluzia, numa zona de produção conhecida como “Marco de Jerez”, um triângulo que tem como vértices as cidades de Jerez de La Frontera, Sanlúcar de Barrameda e El Puerto de Santa Maria. A extensão total da região é hoje de 10.500 hectares, com cerca de 2.720 viticultores e 7 cooperativas. Inúmeras vinícolas estão instaladas, sendo as principais as chamadas “Bodegas de Crianza y Expedición”, que são as únicas autorizadas a envelhecer os vinhos (nas chamadas soleras, das quais falaremos adiante) e a vendê-los, tanto no mercado interno quanto no mercado de exportação.

Jerez é marcada pela exuberante exposição ao sol (cerca de 300 dias por ano), chuva escassa (600 mm/ano), temperatura de extremos (4 graus no inverno e 40 graus no verão), ventos úmidos e refrescantes no oeste e quentes e secos no sudeste. Os solos são muito particulares e se destaca a albariza, de puro calcário, branco e com boa retenção de água, onde estão plantadas as melhores videiras da uva Palomino Fino, a mais importante da região. Outros solos são as arenas e os barros, de menor importância e pouco valorizados. As demais uvas de Jerez são a Pedro Ximenes, que dá origem a vinhos intensamente doces, e a Moscatel.

O que diferencia o Jerez de seus pares é o sofisticado processo de elaboração, que conta com a inestimável colaboração de uma levedura natural, conhecida como Flor, que se desenvolve na superfície de alguns dos vinhos, protegendo-o contra a oxidação excessiva e dando-lhes um caráter único e muito diferenciado.

Basicamente existem três tipos de Jerez: Fino (incluindo as Manzanillas de Sanlúcar de Barramenda), Amontillado e Oloroso. O que os diferencia é a Flor. A produção de Jerez começa com a vinificação da uva Palomino Fino, dando origem a um vinho branco seco. Uma classificação feita por experientes profissionais dá destinos diversos aos diferentes vinhos. Os mais delicados são fortificados a 15 graus e encaminhados para a chamada “Crianza Biológica”, que se dá em contato permanente com a Flor. Serão, após alguns anos de solera (sistema de barricas empilhadas, onde o vinho é tirado da barrica mais próxima do solo e reposto com vinho das barricas imediatamente acima), os Jerez Finos. Esses vinhos são muito delicados e sensíveis, devendo ser consumidos no máximo até 7 dias depois de aberta a garrafa e sempre resfriados a aproximadamente 7 graus.

Outros são imediatamente fortificados a 17 graus e nunca terão Flor, passando todo o tempo na solera, em contato direto com o oxigênio, na chamada “Crianza Oxidativa”. Esses serão, no final do processo, os Olorosos.

O Amontillado tem parte de sua vida em contato com a Flor e parte sem a Flor, o que lhe confere um caráter muito interessante.

Cada Jerez tem seu momento de consumo, sendo uma boa companhia, por exemplo, para o clássico Jamon Ibérico (os Finos) e para charutos (os Amontillados e Olorosos). Descubra o Jerez, um vinho clássico que certamente merece melhor atenção.

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