"Culto do Amador": ameaça ao mundo do vinho?

Arthur Azevedo

10/10/2010

Assunto dominante no evento Wine Future 09, realizado na Espanha em novembro último, a qualidade e a confiabilidade das informações disponíveis nas diversas redes sociais (Facebook, Orkut, Twitter, My Space e outras), no You Tube e em inúmeros blogs e websites que se multiplicam a cada minuto, vêm despertando o interesse dos especialistas no mundo todo.



Para uma melhor compreensão do assunto, vale recapitular a origem do título que abre essa matéria. "Culto do Amador" é o nome do livro de Andrew Keen, editado no Brasil pela Zahar Editora, cujo tema central é a celebração do amadorismo, o que permite que qualquer pessoa, por mais mal-informado ou mal-intencionado, que seja, emita sua opinião sobre temas os mais diversos possíveis, fazendo com que muitas pessoas, inadvertidamente, recebam informações errôneas, visto ser hoje praticamente impossível se medir a confiabilidade da informação postada. Pior ainda, muitos desses pseudo-especialistas se escondem no anonimato, o que dificulta ainda mais qualquer tipo de verificação. Sobre o livro, o New York Times disse não ser "clara a linha divisória entre fato e opinião, entre a informação de um especialista e a especulação de amadores". Um comentário preciso e absolutamente procedente.

Esse fenômeno mundial do amadorismo chegou com força total ao mundo dos vinhos, com consequências nefastas, visto o vinho ser uma bebida que envolve diretamente a ciência em sua elaboração e apreciação. Quando se fala em qualificar informações, não está se preconizando censura a quem quer que seja, e sim de não permitir que inocentes úteis sejam usados pela indústria do vinho para validar produtos de péssima qualidade, que lamentavelmente se encontram às centenas em todos os países.

Para completar o quadro, se instituiu uma campanha insidiosa de desmoralização dos verdadeiros especialistas, disseminando a idéia de que qualquer pessoa pode avaliar tecnicamente um vinho, seja ele de que estilo for. Nada mais falso e perigoso para o consumidor, que vira presa fácil nas mãos desses manipuladores de informações, sendo levado a comprar vinhos nada agradáveis.

Consumidores comuns tendem a dar opiniões baseadas no hedonismo, do tipo "gostei" e "não gostei", que em última análise não servem para absolutamente nada, pois refletem um gosto pessoal, que pode ou não ser útil para outros consumidores. Novamente friso que não temos nada contra esse tipo de avaliação, desde que fique bem claro para todos qual tipo de análise está sendo feita.

Pior ainda são os blogs de pseudo-especialistas que são alimentados por produtores inescrupulosos, onde pessoas que não tem a menor noção dos diversos aspectos do vinho e sem nenhuma formação específica, por mínima que seja, se travestem de profundos conhecedores de um assunto do qual não tem noções rudimentares, fato facilmente comprovado quando se tenta aprofundar um pouco a matéria. Não é incomum encontrarmos em blogs e websites informações errôneas, que uma simples consulta a livros especializados poderia ter evitado. Mas, como sempre, o amadorismo substitui o profissionalismo e as consequências desse fato lamentável são facilmente previsíveis.

As facilidades trazidas pela internet escondem armadilhas para o consumidor de vinhos, que só poderão ser evitadas se a fonte das informações for cuidadosamente avaliada e as informações criteriosamente filtradas. O "Culto do Amador" deve sempre estar presente nas considerações de qualquer consumidor consciente, especialmente em assuntos que dependam de formação específica e bem fundamentada.

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