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Noções básicas de degustação
Arthur
P. Azevedo
A
degustação de vinhos deveria fazer parte da Declaração
Universal dos Direitos do Homem. Afinal de contas, todos deveriam
conhecer um pouco desta técnica que é a degustação,
para poder aproveitar o vinho em toda sua plenitude. No entanto,
de forma incompreensível, se difundiu a idéia, errônea
e preconceituosa, de que somente alguns privilegiados poderiam
ter acesso a esta difícil prática. Os demais mortais
estariam irremediavelmente condenados a apenas beber o vinho pelo
resto de suas vidas.
Na
verdade, qualquer indivíduo pode, e deve, aprender a degustar
um vinho. Basta que tenha todos os seus sentidos funcionando e
que conheça os princípios básicos da degustação.
Afinal
o que é realmente degustar um vinho ?
Degustar
um vinho é, nas palavras de Emile Peynaud, um dos maiores
enólogos da França, submetê-lo aos seus órgãos
dos sentidos, analisando-o atentamente. Em outras palavras, degustar
é beber com atenção. A degustação,
como técnica que é, não deve ser utilizada
como meio de exibição ou de demonstração
de dotes excepcionais, por indivíduos que são os
responsáveis pela imagem pouco lisonjeira que os verdadeiros
conhecedores de vinho têm. Deve-se degustar um vinho em
local adequado, com boa iluminação e livre de odores,
tomando-se o cuidado de servir o vinho em taças adequadas
(padrão ISO/INAO, encontráveis nas boas lojas de
vinhos) e na sua correta temperatura de serviço.
Para
acompanhar os vinhos durante a degustação recomenda-se
apenas água mineral (com ou sem gás) e pão
francês simples, que devem ser consumidos entre um vinho
e outro.
As
fases da degustação
A
degustação é dividida em três fases:
análise visual, análise olfativa e análise
gustativa, nesta ordem obrigatoriamente. Antes de se começar
deve-se estar atento para a maneira de segurar a taça,
sempre pela base ou pela haste e nunca pelo corpo do copo, para
não alterar a temperatura do vinho e para não sujar
o copo, dificultando a visualização do vinho
Análise
visual

Esta
talvez seja a mais negligenciada de todas as etapas da degustação
de vinhos. Poucas pessoas param para apreciar a cor do vinho e
para descobrir as pistas que o visual nos dá sobre a sua
evolução, sua maturidade ou mesmo o seu teor de
álcool.
Para bem analisar um vinho devemos estar atentos para a intensidade
de cor, a tonalidade, a limpidez, a transparência e as lágrimas.
Deve-se colocar vinho em cerca de 1/3 do copo e apreciar o vinho
tanto ao nível dos olhos, como inclinado a 45o sobre uma
superfície branca. Quanto à intensidade, um vinho
pode ser mais ou menos escuro, dependendo da uva que lhe deu origem,
da sua idade e da concentração de matéria
sólida dissolvida no líquido (extrato).
A
tonalidade de um vinho indica aproximadamente o seu grau de maturidade.
De modo geral, podemos dizer que um vinho branco fica mais escuro
com o envelhecimento e que os vinhos tintos ficam mais claros
à medida que o tempo passa. É importante perceber,
no caso de vinhos tintos e com o copo inclinado, se existem diferenças
de tonalidade entre o centro o copo e as bordas, pois isto indica
um grau de evolução e maturidade do vinho.
Os
vinhos brancos geralmente começam sua vida com a cor amarelo-palha,
evoluindo para amarelo-ouro e âmbar com o passar do tempo.
Claro que isto depende um pouco do tipo de uva com a qual o vinho
foi produzido. Existem certas variedades de uvas que dão
origem a vinhos mais escuros, mesmo jovens.
Os
tintos, pela presença inicial do pigmento antociano, azul,
são de cor púrpura (roxo), quando jovens, evoluindo
para vermelho-rubi, vermelho-granada e âmbar com a maturidade.
Brancos e tintos terminam sua vida da mesma cor. Notem que dissemos
terminam sua vida, pois o vinho, como um ser vivo, tem uma vida
finita. Daí vem o ensinamento que a velha frase que diz
ser um vinho quanto mais velho melhor, ser absolutamente falsa
e desprovida de qualquer fundamento. Cada vinho tem o seu melhor
momento de consumo e a análise visual nos dá boas
indicações de quando será este momento.
A
seguir verifica-se se um vinho é límpido, ou seja,
se não tem partículas em suspensão e qual
o seu grau de transparência, ou seja, o quanto o vinho deixa
passar de luz.
Uma
leve agitação do vinho permitirá que o mesmo
escorra pelas paredes do copo, formando estruturas que são
descritas como lágrimas ou arcos. Isto se dá por
um fenômeno físico-químico, pela diferença
de tensão superficial entre as diferentes substâncias
do vinho. Quanto mais lágrimas um vinho mostrar e quanto
mais finas forem estas lágrimas, maior será seu
teor de álcool etílico (etanol). A velocidade com
que as lágrimas escorrem pela parede do copo indicam a
densidade do vinho, dependendo neste caso do extrato e da quantidade
de glicerina.
Análise Olfativa

Quando
você parar de agitar o vinho, durante a queda das lágrimas,
é tempo de começar o próximo passo: a análise
olfativa. Agitando o vinho, este se vaporiza e na fina película
do líquido que recobre a parede interior do copo, este
se evapora rapidamente. O resultado é uma intensificação
dos aromas que se tornarão mais concentrados se o copo
for mais estreito em sua porção superior. Deixe
o vinho descansar por alguns segundos, coloque seu nariz diretamente
no copo e aspire.
O
vinho tem aromas diversos do de uva. A análise de seus
componentes voláteis revela as mesmas moléculas
que criam aromas que nos são familiares. Eis alguns exemplos:
rosa, cereja, ameixa, amora, framboesa, maracujá, banana,
pêssego, mel e baunilha. Até alguns aromas pouco
comuns, tais como: alcatrão, couro, tabaco e bacon defumado,
identificados por degustadores experientes, têm sua origem
em substâncias com afinidades químicas básicas.
É
notória a dificuldade de se encontrar palavras adequadas
para descrever as complexas e efêmeras sensações
olfativas que emanam de um copo de vinho. Para aumentar esta dificuldade,
deve-se ressaltar que o aroma de um vinho está em constante
evolução, mudando suas características com
rapidez desde o momento em que é colocado no copo. Estes
aromas também mudam se forem avaliados com o copo em repouso
ou logo após uma breve agitação. Desta forma,
numa degustação, deve-se freqüentemente reavaliar
os aromas do vinho, captando-se estas mudanças.
Numa
tentativa de facilitar a análise olfativa dos vinhos, poderíamos
dividir teoricamente os aromas em primários - seriam os
originários da própria uva, secundários -
os originados do processo fermentativo e do amadurecimento em
madeira (carvalho) e terciários - os originados do envelhecimento
na garrafa e também conhecidos por bouquet.
Segundo
Peynaud, também podemos classificar os aromas em famílias,
como se segue:
==>
Florais rosas, violetas, jasmins, acácias, etc.
==> Frutados cassis, cerejas, ameixas, pêssegos, limões,
laranjas, etc.
==> Especiarias pimenta, cravo, canela, alcaçuz, noz-moscada,
etc.
==> Animais caça, carne, pêlo molhado, couro,
etc.
==> Vegetais palha, capim, feno, cana de açúcar,
cogumelos, chá, fumo, etc.
==> Minerais vulcânico, petróleo, pedra de isqueiro,
etc.
==> Balsâmicos resinoso, pinho, eucalipto, baunilha,
etc.
==> Químicos odores da fermentação, fermento
de pão, enxofre, esmalte de unha, mercaptano (aliáceo),
cola de aeromodelo, removedor de esmalte, etc.
==> Empireumáticos odores associados a calor e fogo,
tais como o alcatrão, tostado, defumado, caramelo, café
torrado, piche, etc.
==> Outros aromas chocolate, mel, caixa de charutos, "sous-bois",
etc.
Da mesma forma que a cor, os aromas do vinho oferecem pistas de
seu caráter, origem e história. De uma maneira muito
genérica e simplista poderíamos dizer que:
a)
Nos vinhos jovens predominam traços de flores e frutas
frescas ou vegetais, que evoluem com o envelhecimento do vinho
para os aromas de frutas mais maduras, secas ou em geléia.
b) Nos vinhos mais envelhecidos predominam aromas animais ou de
decomposição.
c) Nos vinhos brancos predominam aromas de flores brancas e amarelas
ou de frutas brancas ou amarelas: maçã, pêra,
abacaxi, melão, pêssego, maracujá, lírio,
jasmim branco, etc.
d) Nos vinhos tintos percebemos aromas de flores ou frutas vermelhas:
rosa, violeta, morango, cereja, framboesa, amora, groselha.
e) Os aromas típicos das diferentes variedades de uvas
e porque não, até de algumas regiões vinícolas,
podem ser reconhecidos em determinados vinhos.
A
única maneira de se identificar com relativa facilidade
os complexos aromas que os vinhos apresentam é se reativar
nossa imensa capacidade de reconhecer os aromas existentes na
natureza. Em outras palavras, temos que formar nossa memória
olfativa. Isto se faz de forma sistemática e criteriosa,
prestando atenção aos aromas existentes na natureza
e no ambiente, procurando guardá-los na memória.
Isto requer tempo e disciplina, além de muita dedicação
no treino das técnicas de degustação. Em
se tratando de vinhos, acredito que não será difícil
treinarmos com afinco e porque não dizer, com grande prazer.
Análise gustativa
A última parte da avaliação sensorial do
vinho diz respeito aos aspectos gustativos. É importante
ressaltar que a expressão gosto abrange na verdade um conjunto
de sensações: as gustativas, cutâneas e as
olfativas retro-nasais. As sensações gustativas
revelam quatro sabores: doce, salgado, ácido e amargo;
a sensibilidade cutânea nos dá sensações
táteis (adstringência, aspereza e maciez ou untuosidade),
térmicas e dolorosas, que poderíamos definir como
complementares; o olfato por sua vez fornece o aroma (sensações
odoríficas retro-nasais), que é o componente mais
importante do gosto, pois é o que mais influencia o caráter
e determina a qualidade. Todas estas sensações são
percebidas quase ao mesmo tempo, e por isso muitas vezes é
difícil analisá-las, separá-las e atribuí-las
com certeza a uma determinada modalidade sensorial.
Mais
uma vez a técnica correta é essencial para uma completa
avaliação. Leve o copo à boca e coloque uma
quantidade suficiente, ou seja, o bastante para que o vinho possa
percorrer toda a sua boca. Mantenha o vinho dentro da boca por
cerca de dez a quinze segundos, fazendo-o manter contato com as
diferentes partes da língua que identificam as sensações
gustativas. Em outras palavras, deixe o vinho passear livremente
pela boca, observando atentamente as diferentes sensações
em cada região da língua e das mucosas.
Estas sensações referem-se aos sabores doce, salgado,
ácido e amargo.
==> Doce no vinho, o sabor doce é provocado não
só pelos açúcares residuais (frutose e glicose),
mas também pelo álcool e pela glicerina (glicerol).
Estas substâncias são melhor percebidas na ponta
da língua e na fase de ataque (primeira fase da análise
gustativa, logo que o vinho entra em contato com a boca) e são
reconhecidas não apenas por sua doçura, mas também
porque provocam sobre as mucosas da boca uma sensação
tátil de maciez e untuosidade.
==>
Salgado é um sabor raramente encontrado nos vinhos. É
descrito, às vezes em vinhos de regiões muito próximas
ao oceano, sendo o Jerez na Espanha o exemplo mais citado.
==>
Ácido proveniente no caso dos vinhos, dos ácidos
próprios da uva (tartárico, cítrico e málico)
ou dos ácidos provenientes da fermentação
alcoólica (succínico, láctico e acético).
Estas substâncias são percebidas nas bordas laterais
da língua, também na fase de ataque e reconhecidas
pela salivação fluida e abundante que provocam.
==>
Amargo os taninos podem provocar uma sensação de
amargor discreto (em vinhos jovens de boa qualidade) que é
melhor sentido no fundo da língua, ou mesmo nenhum amargor
(se estes taninos forem muito finos e maduros). O amargor intenso
e desagradável é, sempre que presente, um defeito
ou uma doença do vinho.
A amplitude destas sensações gustativas pode ser
aumentada através de técnicas especiais, que são
mais apropriadas para as salas de degustação do
que para ocasiões sociais. Inicialmente segure o vinho
na boca e, com os lábios entreabertos, inale uma pequena
quantidade de ar. Isto criará um turbilhonamento, que acelerará
a vaporização do vinho, intensificando os aromas.
A seguir, mastigue o vinho vigorosamente para retirar do mesmo
cada sutil matiz de sabor.
Nesta fase, deve-se proceder a avaliação do chamado
corpo do vinho, que é a sensação de peso
que o vinho aparenta ter na boca. Pode ser definido ainda como
o quão diferente da água o vinho em questão
aparenta ser. O corpo do vinho está diretamente relacionado
com o seu teor alcoólico - a quantidade de etanol do vinho
e com o seu extrato - a quantidade de material sólido diluído
no vinho.
O
álcool também poderá excitar os receptores
térmicos da língua, provocando uma falsa sensação
de calor, freqüentemente acompanhada de uma ligeira ardência
na mucosa bucal, além de provocar uma sensação
de doçura e maciez.
A
concentração de sabores
Um
conceito fundamental que hoje, mais do que nunca, é muito
valorizado na degustação de um vinho diz respeito
à concentração dos aromas e sabores na boca.
No jargão da degustação costuma-se referir
a este aspecto como o "meio de boca", que num bom vinho
deve ser preenchido pelos seus aromas e sabores de frutas. Aqui
deve-se valorizar a qualidade e a concentração do
vinho, na verdade o quanto de prazer que este vinho nos dá
na boca. Cuidado no entanto para não subestimar os vinhos
mais sutis, que possuem aromas e sabores delicados. Não
se deixe impressionar pelos vinhos super-extraídos e freqüentemente
muito alcoólicos, que costumam ser massivos e sem elegância.
A
persistência aromática intensa e o aroma de boca
Denomina-se
persistência aromática intensa a duração
dos aromas e dos sabores de um vinho na boca, antes que estes
diminuam de forma acentuada. Quanto mais prolongada for esta sensação,
mais valorizado será um vinho. Este tempo de duração,
medido em segundos, nos grandes vinhos pode ultrapassar a marca
de um minuto.
Diz-se
que um vinho tem curta persistência quando a duração
for menor que 4 segundos, média persistência quando
o tempo for de 5 a 7 segundos e longa persistência quando
o tempo for de 8 ou mais segundos.
Após
a deglutição do vinho, expire lentamente através
da boca e do nariz. Isto fará com que os aromas atinjam
o bulbo olfativo pela via retro-nasal, que liga a garganta e o
nariz, constituindo-se numa rota alternativa para os aromas, prolongando
seus efeitos por muito tempo após o vinho ter sido ingerido.
É o que se costuma chamar de retro-olfato. Você descobrirá
que quanto melhor for o vinho, seus aromas residuais serão
mais complexos, profundos e duradouros.
Este
é um momento sublime, de reflexão e comunhão,
que só o vinho é capaz de proporcionar. Um grande
vinho costuma ter aromas no retro-olfato diferentes dos aromas
diretos. Quanto mais aromas novos surgirem, mais valorizado deve
ser o vinho.
Adstringência: a qualidade dos taninos
Ainda
no final de boca, perceba se existe algum sinal de adstringência,
que é a sensação de secura na boca. Esta
adstringência é provocada pelos taninos, que têm
uma ação coagulante sobre a saliva. Quanto mais
grosseiro for o tanino, maior a sensação de adstringência
percebida na boca. Lembre-se que vinhos tintos jovens podem possuir
taninos mais agressivos, que variam de intensidade de acordo com
a variedade de uva. De qualquer forma, uma excessiva adstringência,
independente da idade ou da varietal usada no vinho é um
sinal preocupante de falta de delicadeza na vinificação
ou de uvas colhidas antes de atingir seu máximo grau de
maturidade fisiológica. Isto se traduz em taninos verdes
e grosseiros, que muito provavelmente não melhorarão
no período de envelhecimento na garrafa, por mais longo
que seja o tempo de adega. Os grandes vinhos, mesmo jovens, possuem
taninos maduros e macios que jamais agridem a mucosa da boca ou
causam adstringência excessiva.
Ao
final da avaliação gustativa, deveremos ainda correlacionar
todas as sensações percebidas, expressando um conceito
de difícil definição, que é o de equilíbrio
e harmonia do vinho.
O
equilíbrio do vinho
O
equilíbrio gustativo é o resultado da complexa interação
entre as substâncias que formam a estrutura do vinho, isto
é, álcool, taninos, açúcares, extrato
e ácidos. No caso dos vinhos brancos devemos analisar a
relação entre os açúcares (se o vinho
for doce) e o álcool, que conferem maciez ao vinho, em
contraposição à acidez presente no mesmo.
No caso dos vinhos tintos, os elementos a serem apreciados são
a acidez, os taninos e o álcool. Quanto mais correta e
equânime for a relação entre os elementos,
melhor será o equilíbrio e a harmonia do vinho analisado.
Para
finalizar, lembre-se de que a degustação de vinhos
deve ser encarada como uma grande diversão e acima de tudo,
ser extremamente agradável, constituindo-se numa inigualável
atividade intelectual, que deve ser praticada com grande paixão.
Bibliografia
1.
Emile Peynaud: Le Gôut du Vin
2. Giancarlo Bossi: Teoria e Prática da Degustação
de Vinhos
3. Marian W. Baldi: The University Wine Course
4. Michael Broadbent: Winetasting - How to Approach and Appreciate
Wine
5. Tom Stevenson: The New Sotheby's Wine Encyclopedia
6. Jancis Robinson: Wine Course
7. Jancis Robinson: The Oxford Companion to Wine
Texto
de Arthur P. Azevedo.
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