Revolução nos Rosés: os cinco estilos de vinhos rosados

06/03/2017

Os vinhos rosés podem ter a fama de ser uma bebida divertida e com pouca sofisticação, mas uma nova onda de enólogos estão mudando a tendência, usando diversos métodos para acrescentar complexidade ao vinho. Analisamos os cinco estilos encontrados atualmente no mercado. Artigo publicado originalmente no site The Drink Business. A tradução é de Marcello Borges, diretor da ABS-SP



O vinho rosé é sempre fresquinho, acídulo, com pouca complexidade e muita promessa de diversão, não é? 

Menosprezado como vinho pouco sério, teve, no entanto, um aumento nas vendas porque é facilmente apreciado por um mercado mais jovem, menos informado, com atrativos como o neologismo "Brosé" – vinho rosé para os brothers – para manter o interesse.

Até agora, qualquer tentativa de tornar esse vinho mais sério esbarrou em alguns desafios de marketing, mas parece que chegou o momento de analisar os vários estilos disponíveis de rosé.

Surgiu um pequeno número de rosés interessantes e complexos, e a necessidade de um "rosé gastronômico" para acompanhar uma refeição, no lugar de um vinho apenas para aperitivo, estimulou os produtores a tentar outras abordagens.

Não se trata apenas de envelhecer o rosé em carvalho: isso tem produzido rosés desequilibrados, nos quais o carvalho domina o atraente encanto frutado, dando má fama a rosés amadeirados, e sim de reavaliar a maneira de fazer o rosé. A chave é produzir um vinho com o peso, a complexidade e o potencial de envelhecimento capazes de lidar com o carvalho.

Para isso, usam-se vinhas velhas com baixo rendimento e outros métodos de vinificação, resultando em vinhos mais complexos. Quando esses novos vinhos passam pelo carvalho, vemos aparecer novos e excitantes estilos. Paul Chevalier, da Shaw-Ross, distribuidora americana do Château d’Esclans, diz que a chave para comercializar rosés com passagem em barrica é aceitar que o vinho tem estilo e qualidade diferentes da maioria dos rosés comerciais, com identidade única.

Nicholas Paris, MW e sommelier, diz que ele procura as "frutas vermelhas e o frescor normalmente encontrados em versões sem passagem por madeira, mas com um pouco mais de especiarias e de aromas exóticos ao nariz, e mais corpo, estrutura e complexidade na boca. 


Os rosés amadeirados enfrentam e complementam pratos mais temperados ou especiados". Ele não está sozinho, e acha que os sommeliers como um todo ficam mais "animados com os rosés amadeirados, não esses com excesso de madeira, mas com maior complexidade, mais características e até notas terciárias".

Esses rosés também têm grande capacidade de envelhecer bem e de desenvolver notas ainda mais complexas. Fica aparente, quando se degustam rosés vinificados e/ou envelhecidos em carvalho, que não existe um estilo único de rosé amadeirado.

A vinificação é importante, mas há muitas variações e experimentações – barril novo ou velho, tipo de madeira, tamanho, fermentação, bâtonnage ou simplesmente envelhecimento.

Emergem cinco estilos, de modo geral:

• Rosés com carvalho invisível
• Rosés com carvalho evidente
• Rosés no estilo de tinto leve
• Rosés tradicional
• Rosés modernos num estilo tradicional

ROSÉS COM CARVALHO INVISÍVEL

O emprego de barris velhos e neutros, de foudres (tonéis com mais de 1.000 litros) ou de barris novos de carvalho neutro, como o Stockinger, para vinificação, pode fazer com que o carvalho fique praticamente invisível. Usando frutas com bom peso e extração, obtém-se uma sensação de boca mais satisfatória e uma textura mais arredondada, sem diminuir a fruta fresca, a acidez e a elegância dos vinhos.

Randall Grahm da Bonny Doon na California, quando produz seu Vin Gris busca "não os aromas da Madeira", mas "o tamanho, a dimensão e a geometria do recipiente, permitindo maior área superficial para que as leveduras sejam absorvidas pelo vinho".

Randall Grahm

Os rosés de Mourvèdre de Bandol têm uma tradição antiga de passagem por madeira e a fama de oferecerem estilos de rosé mais estruturados, mas o carvalho mal se nota, exceto pelo peso cremoso e suave, e pela estrutura. Eric de Saint Victor, da Pibarnon, diz que vai comer seu chapéu caso você consiga perceber o emprego de barris Stockinger em seu rosé. 

Na África do Sul, a Waterkloof tem produzido seu Cape Coral Mourvèdre desde 2005.
A enóloga Nadia Barnard prefere usar madeira porque a "Mourvèdre pode ser um pouco redutiva, e a fermentação em fermentadores de madeira francesa mais antiga, que já não transmitem características do carvalho, é ótima para permitir um ingresso lento do oxigênio durante a fermentação, o que funciona bem com a Mourvèdre". Degustado o seu vinho com seis meses, mal se percebia a madeira, exceto pela estrutura firme por trás da vibrante presença do cassis.

ROSÉS COM CARVALHO EVIDENTE

Na Provença, alguns dos rosés mais conhecidos e amadeirados são produzidos pelo Château d’Esclans. Desde 2006, o enólogo Patrick Léon tem produzido uma gama de rosés com base em Grenache, focalizando a fruta e a estrutura do vinho base usando videiras velhas e de baixo rendimento, produzindo o Garrus com vinhas de 80 anos cultivadas em altitude. 

Sua linha começa pelo Rock Angel, com envelhecimento parcial por seis meses em carvalho francês, e vai ao Les Clans e ao Garrus, ambos fermentados numa mistura de barris de 600 litros (demi-muids) novos e de segundo ano de uso, seguida por envelhecimento por 10 meses em barril com bâtonnage das leveduras duas vezes por semana.
 
O Garrus desenvolve mais complexidade, e os aromas do carvalho integram-se aos da fruta para formar especiarias, nozes e frutas vermelhas.

Bordeaux e Borgonha têm exemplos de rosés com estágio em carvalho. Jean-Christophe Mau, do Château Brown em Bordeaux, produziu seu primeiro rosé amadeirado em 2012 para mostrar que era possível criar um rosé premium complexo e compatível com gastronomia.


 O vinho é vinificado em barricas novas e de um ano de tosta leve, visando produzir uma sensação de boca suave, redonda, em vez de apenas proporcionar incorporar o caráter da madeira; com isso, a Cabernet consegue brilhar. A agitação das leveduras durante o envelhecimento aumenta a complexidade. 

O Fleur de Pinot do Domaine Sylvain Pataille em Marsannay (a única apelação da Borgonha para rosé) envelhece por 18 meses em barris velhos de 500 litros. Aqui também o carvalho (que quando jovem é intenso) não domina a fruta, servindo para proporcionar concentração, profundidade, estrutura e potencial para guarda.

ROSÉS NO ESTILO DE TINTO LEVE

Lorincz György do St Andrea em Eger, Hungria, produziu o primeiro rosé com passagem por madeira, o "Rósza", em 2015 usando Pinot Noir, Merlot e Kékfrankos. Usando barris de 500 litros, tanto a Merlot quanto a Kékfrankos foram fermentadas em carvalho, enquanto a Pinot foi fermentada em tanque para preservar o caráter da fruta fresca.

Um terço da Merlot foi fermentado em carvalho Kalina novo e de tosta intensa para deixar o vinho redondo e complexo, e o restante ficou oito meses em carvalho usado. 

Quase um tinto leve, repleto de fruta vermelha, uma sugestão de estrutura tânica, especiarias, casca de laranja e acidez salgada.

Na Provença, uma cor levemente mais intensa costuma funcionar como uma declaração visual, indicando que o vinho não é um rosé clássico ao estilo local. São mais raros, mas estão ganhando público.

Em Côteaux d’Aix, dois enólogo, Matthias Wimmer da Domaine d’Eole e Ivan Khougazian do Château Pigoudet, têm feito experiências com esse estilo. O vinho de Eole, adequadamente chamado Caprice, tem fruta vermelha fresca e acidez mineral, com uma sutil estrutura de carvalho proveniente da fermentação e da permanência em madeira por seis meses. 

O vinho de Pigoudet, o Cuvée Le Grand Pigoudet, é feito com Cabernet Sauvignon e Syrah, usando sangria para obter boa estrutura de frutas escuras para dar suporte à madeira durante a vinificação e o amadurecimento em barricas de carvalho novo.

ROSÉS MODERNOS NUM ESTILO TRADICIONAL

Estes rosés têm um sabor singular, com aromas complexos e interessantes e um delicioso perfil de boca.

São difíceis de se apreciar e vender se comparados com a maioria dos rosés disponíveis no mercado; assim, no cenário comercial, estão começando a desaparecer, perdendo para o estilo mais moderno.

A Bodegas Muga na Rioja faz um Rosado com Grenache, Viura e Tempranillo cultivadas em encostas de face norte para ganhar acidez e fruta fresca.

A longa maceração de 12 horas é seguida pela fermentação em tonéis de madeira de 2.000 litros, proporcionando corpo e complexidade, com notas tostadas e de damascos. 

No Douro, o Redoma da Niepoort é feito principalmente com uvas locais, Tinta Amarela e Touriga Franca, de vinhas velhas cultivadas em altitudes entre 200 e 400 metros, fermentadas em barris de carvalho francês novo, passando em seguida por fermentação malolática e amadurecimento em aço durante seis meses.


O carvalho bem integrado fornece toques de nozes, de torrefação e peso mais cremoso, com damasco, pêssego e casca de laranja no final. O rosé do Château Musar, do Líbano, é feito principalmente com as uvas locais Obiadeh e Merwah, com vinhas velhas de pés francos e baixo rendimento, plantadas a cerca de 1.400 metros. Fermentado e amadurecido por seis a nove meses em barris de carvalho francês (de Nevers), o vinho é engarrafado um ano depois e envelhecido por mais dois anos antes de ser vendido.

Christy Canterbury, MW, percebeu os aromas complexos desse vinho: "Morangos murchos… terra seca, garrigue e pétalas secas de rosas", dizendo que era mais um "vinho gastronômico do que uma bebida de piscina".

 Alguns enólogos do Novo Mundo estão trabalhando com os aromas complexos desse estilo. Jason Lett, do Eyrie Vineyard, em Williamette Valley, Oregon, fez seu primeiro rosé de Pinot Noir fermentado em carvalho em 2011.

Usando barricas velhas com leveduras indígenas, que funcionam bem na madeira, seguida pela fermentação malolática, apresenta a cereja do Pinot com notas complexas, até de umami, e uma estrutura mais pesada. Pike & Joyce de Adelaide Hills, sul da Austrália, tem feito seu rosé de Pinot Noir por sangria desde 2006, fermentando o vinho em barricas de carvalho francês de 228 litros usando levedura indígena. A acidez natural das videiras cultivadas acima de 500 metros é preservada, pois não se faz a malolática.

O vinho amadurece sobre as leveduras em barris por dois a três meses. Segundo o enólogo Neil Pike, o vinho tem "complexidade e certo corpo graças à fermentação em madeira, as notas que provém do fermento morno e o morango e a cereja que, em última análise, dão alma ao vinho. Sua complexidade e baixo açúcar residual fazem dele um excelente vinho gastronômico". O vinho chamava-se "The Bleedings" ("Os Sangramentos"), mas, após comentários negativos do mercado, passou a se chamar "Les Saignées".

UMA GAMA COMPLEXA DE AROMAS

Será que vinhos rosés que passaram por madeira devem conter essa indicação no rótulo?

Um tema comum a todos eles é a atraente e complexa gama de aromas, tornando-os adequados para acompanhar comida. Paul Chevalier, do Château d’Esclans, disse: “Os vinhos do D’Esclans sempre se saem bem em eventos onde os consumidores estão presentes, especialmente nos jantares com enólogos, onde acompanham os pratos". 

Pike & Joyce vende cerca de metade da pequena produção de Les Saignées no restaurante da vinícola, mostrando como seus aromas complexos se harmonizam com a comida.

O restante é vendido para restaurantes selecionados na Austrália. A pequena produção de Brown vai principalmente para restaurantes estrelados na França e em Londres. Eole, Pigoudet e Lett também têm pequena produção e também são vendidos localmente ou em pontos estratégicos.

Musar só produz o rosé quando dispõe de uvas suficientes e de boa qualidade. A produção limitada faz desses vinhos um produto de nicho que poucas pessoas conhecem – por enquanto.



A ênfase em todos esses estilos é a compatibilidade com comida, levando-os a um setor diferente do mercado. Volta e meia, os apreciadores ignoram os vinhos rosés por conta de sua simplicidade, mas à medida que a geração mais jovem (para quem o rosé representa um vinho divertido e glamoroso) envelhece, esses rosés complexos e diferentes tornam-se mais atraentes.

Rachel Arthur disse recentemente no site www.beveragedaily.com que os produtores de rosé podem expandir ainda mais seu mercado se buscarem os compradores mais velhos "apresentando cuidadosamente o rosé como um produto artesanal, premium".

A educação é essencial para se apresentar esses novos aromas. Chris Wisson, da Mintel, uma gigantesca empresa  de pesquisa de mercado, acredita que "as marcas de rosé devem atrair o consumidor mais velho transmitindo mensagens premium, enfatizando o processo de produção... isso pode ajudar a produzir mais ressonância nesses consumidores".

Vemos oportunidades empolgantes para se atingir o consumidor de vinhos mais curioso: os rosés com passagem por carvalho deveriam encontrar um lugar nas cartas de vinhos dos restaurantes.
 
 Se quiser ler o original, clique AQUI

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Elizabeth Gabay MW Eleizabeth Gabay é formada em História e Master of Wine. Sua área de especialização é em vinhos rosés. Seu currículo completo pode ser acessado em https://elizabethgabay.com/about/
Elizabeth Gabay MW

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