Premiers Crus da Alsácia: O que você precisa saber -ATUALIZADO-

10/01/2017

Premier Cru na Alsácia? Será verdade? Neste abrangente artigo, Julian Boulard explica o que poderá acontecer muito em breve. O artigo, publicado originalmente no site da revista Decanter, foi traduzido para o site Artwine, com o habitual brilhantismo, por Marcello Borges


 Clos Windsbuhl (credit Julian Boulard)


Já faz algum tempo que se ouvem rumores sobre a possível criação de uma categoria Premier Cru para vinhos da Alsácia.

Olivier Humbrecht MW acaba de ser nomeado presidente do "comitê de hierarquização", e, como passei duas semanas trabalhando em sua vinícola, seria uma vergonha se não lhe perguntasse o que pode mudar na maneira como apresentamos essa fantástica região vinícola.

Atualmente, os vinhos tranquilos da Alsácia dividem-se oficialmente em dois níveis: existe a "Appellation Alsace Protégée" (Alsace AOP), que produz cerca de 95% dos vinhos com Indicação Geográfica feitos nessa região.

Os 5% restantes são produzidos com uvas dos melhores vinhedos e vendidos sob a denominação "Appellation Alsace Grand Cru Protégée".

Parece simples, mas as coisas ficam levemente confusas se você leva em conta que o primeiro nível (Alsace AOP) abrange, na verdade, três subcategorias: 1) o vinho geral da Alsácia; 2) vinhos com denominação geográfica complementar e 3) vinhos lieux-dits.
 


Fig. 1. A atual hierarquia dos vinhos da Alsácia
 

A indicação regional Alsace AOC/AOP foi criada em 1945 e abrange mais de cem vilarejos nos departamentos (estados franceses) do Bas-Rhin e do Haut-Rhin.

As treze "denominações complementares" são áreas delimitadas que adquiriram ótima reputação ao longo do tempo, produzindo vinhos com qualidades peculiares como Ottrot e seus tintos de Pinot Noir, ou Klevener de Heiligenstein e seus vinhos brancos secos feitos com a Klevener (nome local da Savagnin Rose).

Ao contrário das "denominações complementares", as áreas dos "lieux-dits" não estão definidas no cahier des charges [especificações do projeto]; contudo, se alguém menciona o nome específico de um vinhedo no rótulo, deve obedecer regras de produção mais estritas, em particular quanto à produção máxima (68 hl/ha em vez de 80 hl/ha, aplicável a um vinho regional da Alsácia, por exemplo). 

Finalmente, o primeiro Grand Cru foi reconhecido em 1975 (Schlossberg) e o último em 2007 (Kaefferkopf). Em 2011, todos os 51 Grands Crus foram reconhecidos como AOPs independentes, cada uma obedecendo regras de produção específicas.

Os Premiers Crus da Alsácia de amanhã

O que irá mudar se a nova classificação for aceita pelo INAO?

Primeiro, os vinhos com denominação complementar serão retirados da categoria regional e "promovidos" a um novo nível, "vinhos de village". 

Seriam reconhecidos como AOPs independentes, com cahier des charges próprios ou regras específicas de produção.

Depois – e esse é o foco da discussão – alguns lieux-dits de alta qualidade que demonstraram consistência ao longo do tempo seriam reunidos numa nova categoria Premier Cru (1er Cru), também com regras específicas de produção (cfe figura 2).
 


Fig. 2 – Possível nova hierarquia dos vinhos da Alsácia
 

Razões para se modificar a hierarquia

Por que modificar uma "classificação" que funciona há tantos anos? Posso pensar em várias razões.

A primeira é que, embora muitos achem que essa nova classificação vai complicar a compreensão do consumidor sobre os vinhos da Alsácia, vejo, na verdade, que a pirâmide vai se simplificar (pare de achar que o consumidor não consegue lidar com quatro camadas!)

A estrutura atual, com um nível inferior e outro superior, é excessivamente simplista. 

Vinhos de qualidade relativamente elevada estão juntos de produtos de "entrada", e os produtores (e consumidores) não possuem uma prateleira intermediária para uma colocação apropriada dos vinhos, em termos qualitativos, entre as apelações regionais e os Grand Crus.

É como se fosse uma loja de roupas cujas prateleiras tivessem apenas a marcação "P" e "GG", e todas as peças "M" e "G" ficassem na área "P". Essa divisão aparentemente simples complica bastante as coisas.

Outra razão é que muitos esperam que essa nova classificação eleve o nível geral de qualidade. Como mencionei antes, todos os vinhos 1er Crus serão os atuais vinhos lieu-dits que se mostraram consistentes em termos de qualidade, reputação e preços.

Clos Windsbuhl (credit Julian Boulard)

Se o INAO validar o projeto, os produtores terão de respeitar a exigência de redução da produção para serem comercializados como 1er Crus (57 hl/ha em vez de 68 hl/ha). 

Ademais, cada área de 1er Cru precisará demonstrar sua "unidade geológica", o que significa que o tipo de solo, a inclinação da colina e a orientação do vinhedo de um 1er Cru, entre outros itens, terão de ser homogêneos dentro de seu limite demarcado. 

Vê-se que a delimitação da área dos 1er Crus, portanto, será bem mais severa do que a dos Grand Crus.

Finalmente, se essa hierarquização for validada pelo INAO, isso significa que cada apelação de "village" ou "1er Cru" terá sua própria Appellation d’Origine Protégée, e, como você deve ter percebido, a passagem da antiga Appellation d’Origine Contrôlée para o status de "Protégée" implica não só que a origem é garantida por controles, mas que também é "protegida", ou seja, nenhuma outra região do mundo (pelo menos, não na Europa e nos países que assinaram acordos com a União Europeia) poderá usar esses nomes AOPs.

A discussão

Em minha estadia na Alsácia, encontrei muito poucas vozes contrárias à nova hierarquização. Alguns objetaram – com certa amargura – dizendo que essa nova classificação vai favorecer principalmente produtores icônicos e de volume, que já possuem vinhedos de alta qualidade e que por isso verão o preço de suas terras aumentar ainda mais.

Quando lembrei que esse aumento também vai beneficiar pequenos produtores que têm videiras em locais com potencial para 1er Cru, responderam-me que a atual geração pode, com efeito, beneficiar-se do aumento de valor de sua propriedade, mas isso será um fardo para seus filhos, que terão dificuldades para pagar o imposto de herança francês, proibitivamente elevado, para não falar do possível aumento do imposto sobre a propriedade; isso significaria o desaparecimento gradual de produtores artesanais.

Embora você possa alegar que a nova classificação pode fazer com que esperem ter maior renda, é verdade que muitos produtores não têm o poder de elevar seus preços para cobrir os custos decorrentes de uma produção menor por hectare, gerando, ao mesmo tempo, maiores margens de lucro.

Essa transição terá de se dar ao longo de muitos anos, que poderão ser difíceis em termos financeiros, exigindo muita consciência dos produtores.

A segunda preocupação dos opositores da reforma é a relação qualitativa ambígua entre Grand Crus e Premier Crus.

Como disse, os vinhedos dos 1er Crus serão delimitados de forma mais estrita do que era a dos Grand Crus. Além disso, com um limite de produção de 57 hectolitros por hectare, os requisitos são quase os mesmos impostos aos Grand Crus.

Assim, preocupam-se achando que muitos 1er Crus irão se sobrepor a Grand Crus de qualidade inferior, com preços superiores e eventual confusão na cabeça dos consumidores. Um produtor me disse que preferiria aumentar o número de Grand Crus em vez de criar uma "categoria com nome errado".

Pessoalmente, sou favorável a essa classificação, pois creio que ela ajudará a desenhar um quadro mais claro da hierarquia dos vinhos da Alsácia; além disso, é sempre melhor que o discurso seja mais claro para o consumidor – e portanto para as vendas.

Do ponto de vista do apreciador de vinhos, acho que essa nova categoria vai estimular alguns produtores a elevar seus padrões de qualidade, e a delimitação severa das parcelas pode ajudar a colocar mais terroir nessa região, movida pelas cepas.

Quanto ao argumento do eventual desaparecimento de pequenos produtores, receio que essa seja uma tendência geral na França, que não pode ser evitada com o boicote a essa classificação. Se alguns 1er Crus tiverem desempenho melhor do que alguns Grand Crus, certamente chegará um momento em que subirão no ranking.

A única coisa que considero um pouco frustrante é o status de alguns vinhos lieu-dits que vão permanecer no quarto inferior da pirâmide, apesar da exigência de produção menor (68 hl/ha em vez de 72 hl/ha) e de delimitação de área do que se estabelece para os vinhos village.

Outra coisa que me incomoda é que algumas apelações village não vão cobrir necessariamente os Grands Crus e/ou 1er Crus situados em seu território administrativo. 

Mas isso acaba sendo positivo, pois a apelação village precisa mostrar uma "unidade geográfica".

Vinhedo Herrenweg de Turckheim, de Zind Humbretch


Para citar um exemplo, Olivier Humbrecht MW explica que as uvas provenientes do famoso Grand Cru "Brand" não podem ser usadas para fazer um AOP Turckheim (nome do vilarejo onde está o Brand), pois o solo do Grand Cru é feito principalmente de granito e a maior área de Turckheim, em torno do Rio Fetch, tem solo majoritariamente aluvial.

Ele lembra ainda que "é quase impossível encontrar um vilarejo na Alsácia que tenha uma identidade geográfica uniforme em todo o seu território".

Além da homogeneidade geográfica, Eric Kintzler, da Domaine Kientzler, lembra que algumas AOPs village estariam também relacionadas com certos estilos de vinho. Os produtores de Ribeauvillé, por exemplo, gostariam que a apelação de sua localidade só fosse atribuída a vinhos brancos sem açúcar residual.

Após entrevistar diversos proprietários de vinhedos, percebi como é difícil apresentar um projeto consensual, elogiado com entusiasmo por todos os vitivinicultores.

O mundo do vinho não se divide simplesmente entre produtores icônicos, motivados pela qualidade, e fábricas orientadas para o mercado de massa. Existe um mundo muito diversificado e complexo entre esses extremos, com prioridades e preocupações que precisam ser levados em conta.

Ainda assim, creio que a sustentabilidade de qualquer indústria depende essencialmente da melhoria contínua da qualidade de seus produtos e/ou serviços, e qualquer iniciativa que "provoque uma emulação geral, mesmo que não seja muito firme", como disse Olivier Humbrecht, merece ser apoiada e/ou implementada.

Agora, vamos cruzar os dedos e esperar que a administração francesa, com sua fama de entediante, não leve séculos até permitir que as palavras "Alsace 1er Cru – Clos Windsbuhl" apareçam num rótulo…

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Julian Boulard Julian Boulard vive na China desde 2003. Tem o nível WSET Diploma e atualmente estuda para se tornar um Master of Wine. Sua fluência em mandarim, tanto na linguagem escrita quanto falada e sua forte influência na mídia chinesa o torna um dos mais conceitu
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Clos Windsbuhl (credit Julian Boulard) Heimbourg (credit Julian Bouilard) Vinhedo Herrenweg de Turckheim, de Zind Humbretch

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