DIAM, a rolha do futuro

22/01/2016

O preocupante problema da contaminação das rolhas pelo temido TCA (TriCloroAnisol) deu início a uma corrida para soluções que pudessem resolvê-lo. O TCA é o responsável pelo desagradável aroma de mofo nos vinhos, conhecido como Bouchonée. Saiba mais sobre as rolhas DIAM - TCA Free nesse artigo de Andrew Jefford, publicado no site da revista Decanter, gentilmente traduzido pelo nosso colaborador Marcello Borges


Um dia claro de junho em Chablis deu-me a oportunidade de conversar com Alain Marcuello na Fevre e depois com Benoît Droin (e de provar seus imaculados 2012, maravilhosamente clássicos). 

Ambos, para minha surpresa, tinham adotado rolhas Diam em toda a sua produção. 

Ambos, conforme disseram, estavam satisfeitos com os resultados: não encontravam mais garrafas bouchoné ou problemas de oxidação prematura; os perfis dos vinhedos mantinham-se intactos; o envelhecimento estava satisfatório até agora (desde 2008 para Fevre e 2011 para Droin). Hugel, na Alsácia, é outro adepto da Diam, assim como Jadot e Bouchard Père et Fils para seus vinhos brancos, inclusive Grand Crus. Achei que era hora de saber mais.

Antes de visitar a unidade de produção de Diam em Céret, Roussillon (uma de suas duas fábricas, sendo a outra na Extremadura espanhola), eu conversei com meus contatos do Facebook sobre o tema. Os resultados foram muito variados.


Opiniões divergentes são recorrentes sobre o controverso tema das rolhas

Alguns dos que usam Diam mostraram-se muito satisfeitos com esse tipo de fechamento, incluindo a maioria de meus contactos europeus e norte-americanos, embora o produtor de Champagne e consultor Jean-Michel Jacquinot tenha dito que as rolhas Diam (ou Mytik para vedação de espumantes) eram "demasiadamente herméticas" e que a consequente falta de reatividade significava que com seu uso ele não reconhecia seus próprios champanhes. 

Meus correspondentes australianos e neozelandeses mostraram-se mais céticos sobre a Diam, e um da Nova Zelândia disse que "frequentemente" encontra TCA em garrafas fechadas com Diam e percebeu que "todos eles perderam um pouco de vivacidade". Vários disseram que as rolhas Diam deixam os vinhos com uma nota de "cola". A maioria prefere tampa de rosca, o que sugere que com a gama de níveis de permeabilidade agora disponível para tampa de rosca, qualquer motivo para usar um derivado de cortiça (com exceção da resistência dos clientes) desapareceu.

( Nota do Editor -Os produtores da Austrália e Nova Zelândia são os mais ardorosos defensores da tampa de rosca - Screwcap)



Pelo menos um produtor australiano (James Tilbrook da Adelaide Hills), na verdade, disse que seus clientes realmente preferiram vinhos fechados com Diam a vinhos fechados com tampa de rosca em degustações às cegas, e encontrei outros entusiastas australianos da região de Barossa (Matt McCulloch do Château Tanunda) e de Coonawarra (Sandrine Gimon da Rymill). Michael Dhillon da Bindi, Macedon Ranges, tem uma experiência de quase dez anos com Diam - e está satisfeito com esse tipo de fechamento para seu Pinot.

Sabatè foi quem fez a pesquisa original e a patente para as rolhas Diam

A pesquisa original e a patente para rolhas Diam pertencia à Sabaté, anteriormente o segundo maior fabricante de fechamentos do mundo. A Sabaté, porém, estava atolada em problemas (e litígios) por conta de suas rolhas Altec 'híbridas' - que diziam ser livres de TCA, mas cujo processo de fabricação acabou distribuindo uniformemente baixos níveis de TCA por lotes inteiros. 

A empresa foi adquirida pela Andromède, holding da família Heriard-Dubreuil, principal acionista da Rémy Martin, e em 2003 o nome Sabaté desapareceu; agora é conhecida como Oeneo, e a subsidiária inclui a tanoaria Seguin Moreau.

Depois de um início lento (até porque as rolhas Diam se parecem com rolhas aglomeradas, historicamente uma alternativa "barata" da cortiça natural), a empresa agora luta para atender à demanda. Ela está atualizando sua instalação em Céret para atingir plena produção - e sendo mais seletiva com seus clientes (recusando-se a atender supermercados, por exemplo). 

Seu sucesso tornou-a impopular entre os rivais os fornecedores de cortiça natural, especialmente agora que ela está começando a atingir a faixa de "prestígio" do mercado da cortiça, com altas margens.


Como se produz a rolha Diam?

O que é uma rolha Diam? Cerca de 95 por cento dela é cortiça processada; o resto é acrilato e poliuretano. A Diam utiliza cortiça apenas finamente moída, livre de lenhina e rica em suberina (cerca de 40 por cento do peso bruto total a cortiça), que depois é banhada em dióxido de carbono supercrítico. 

É um dióxido de carbono muito quente e pressurizado, na forma líquida, que limpa todas as impurezas químicas da cortiça moída, incluindo o TCA (que é apenas um entre cerca de 125 produtos químicos extraídos pelo solvente). A rolha limpa é então misturada com micropartículas de acrilato, finas como talco (que se expandem quando aquecidas para preencher os espaços de ar entre os fragmentos de cortiça) e com um aglutinante para manter a cortiça unida. 

Esta "cola" é um poliuretano semelhante ao utilizado para unir as partes de uma rolha tradicional de champanhe. As rolhas são então "acetinadas" com silicone (vinhos espumantes), parafina (bebidas espirituosas) ou uma mistura dos dois (vinhos de mesa).

As rolhas Diam estão disponíveis em três níveis de permeabilidade – e o diretor de pesquisa da empresa, Christophe Loisel, salienta que esta permeabilidade é encontrada em todo o corpo do Diam, e não simplesmente dos lados, como tende a ser o caso da cortiça natural. Para quem deseja, é possível fazer o branqueamento com peróxido – mas a Bouchard, por exemplo, insiste em usá-las sem clareamento, e usa o nível mais impermeável de Diam. 

Recentemente a empresa lançou a "Diam 30", um fechamento alto de gama que a empresa garante que funcionará perfeitamente durante 30 anos.


Garantias? "Nós vendemos", diz o diretor comercial Pascal Popelier, "três bilhões de rolhas desde 2005 e não tivemos um único caso de TCA vindo da própria cortiça". 

E sobre as reclamações que eu mencionei? O Sr. Popelier salientou que a cortiça não era a única fonte possível de contaminação do TCA. E essas notas de cola? O ligante de poliuretano, disse ele, era "completamente neutro do ponto de vista sensorial", e assim esse aroma teria de ser "imaginário".

Essas discrepâncias parecem estranhas - mas estou cheirando uma rolha Diam sem uso enquanto escrevo isso, e apesar do processo de produção ter um efeito neutralizante, ainda é claramente cortiça, e possui ainda uma presença amadeirada quente, algo diferente e mais interativo do que a neutralidade da tampa de rosca. 

Degustadores que têm fobia a cortiça, portanto, não devem ficar muito contentes com a Diam. Eu não encontrei uma nota de cola em nenhum dos vinhos tampados com DIAM que provei até agora - mas tampouco tive a chance de fazer comparações diretas entre o mesmo vinho fechado com uma rolha Diam e por tampa de rosca, o que pode revelar tal caráter.

O comerciante australiano de vinhos Brian Miller me lembrou do filme de Danny DeVito de 1991 "Com o dinheiro dos outros", no qual o investidor de empresas interpretado por DeVito sugere que a maneira mais rápida de ir à falência é comprar mais e mais ações de um mercado em declínio. "Ao mesmo tempo, deve ter havido centenas de empresas que faziam chicotes neste país. E aposto que a última empresa que sobrou foi a que fazia o melhor chicote que você já viu.


 E você gostaria de ter sido um acionista dessa empresa?" Repassei o comentário sombrio de Miller para Pascal Popelier.

"Diam não é melhor do que tampa de rosca", disse ele. "É diferente. Pode ser que todos acabem usando tampa de rosca. Eu não sei - mas não vai ser na minha vida. A cortiça ainda representa dois terços do mercado de fechamentos. Muitos produtores de vinho ainda querem usar cortiça, e muitos consumidores querem rolhas de cortiça em suas garrafas. Talvez sempre queiram. Nosso objetivo é apenas fornecer as rolhas mais neutras e confiáveis que pudermos".

Texto de Andrew Jefford, publicado originalmente no website da revista Decanter, com tradução de Marcello Borges para o site da Artwine

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