Made in England: novos espumantes ingleses surpreendem pela qualidade

13/07/2015

Os vinhos espumantes ingleses são de categoria internacional – e vão continuar a ganhar pontos graças a investimentos contínuos, idade das vinhas e apoio de apreciadores patrióticos de vinhos. Susie Barrie, MW, analisa os progressos feitos até agora. A tradução é de Marcello Borges...





É difícil acreditar que, em pouco mais de 25 anos, a indústria inglesa de vinhos espumantes pôde fazer tanto progresso. Foi no final da década de 1980 que videiras de Chardonnay foram plantadas ao lado de Pinot Noir e de Pinot Meunier em West Sussex por um casal pioneiro de Chicago, determinado a serem os primeiros a fazer vinhos espumantes que pudessem rivalizar com os de Champagne. Nasceu a Nyetimber e teve início uma revolução.

Até aquele momento, a Inglaterra era conhecida, na melhor hipótese, por vinhos tranquilos produzidos com variedades alemãs; acima de tudo, porém, era considerada uma nação de bebedores de vinhos, mais do que de produtores. (Gales também produz vinhos de renome, mas nosso foco aqui será a Inglaterra.) 


Nyetimber, espumante que deu início à revolução das bolhas na Inglaterra


Recentemente, em 2008, Stephen Skelton, MW, Diretor Regional para o Reino Unido do Decanter World Wine Awards, escreveu em seu guia das vinícolas britânicas: "Espero que possamos mudar e transformar o que antes era considerado uma piada numa indústria sustentável".

Inquestionavelmente, essa mudança já aconteceu, e o estilo que esteve na proa é o dos vinhos espumantes. Hoje, a Chardonnay e a Pinot Noir são as duas variedades mais plantadas na Inglaterra, e, junto com a Pinot Meunier, respondem por cerca de metade da área de vinhedos. Cerca de dois terços de tudo que a Inglaterra produz é de vinhos espumantes, e isso deve crescer à medida em que novas vinícolas forem criadas. 

Há hoje um amplo consenso em torno do fato de os vinhos espumantes ingleses serem produtos de categoria mundial. Sua crescente presença em lugares como banquetes de estado, premiações internacionais e cartas de restaurantes de alta qualidade do mundo todo (inclusive da França) evidencia isso ainda mais.

Denbies, uma das melhores casas produtoras de espumantes na Inglaterra

Esse sucesso recente é, em parte, resultado de investimentos consideráveis – em vários casos, muitos milhões de libras – feitos por empresários de sucesso que procuram um projeto quando estão prestes a se aposentar. Toda indústria necessita de uma base financeira, e esses investimentos, bem como uma visão de longo prazo, estão ajudando a criar os fundamentos de um negócio lucrativo e sustentável.

Naturalmente, é exatamente essa a abordagem estratégica que a indústria inglesa de vinhos espumantes precisava num estágio crucial de seu desenvolvimento. Isso fez com que fosse investido dinheiro em todos os aspectos do negócio – de estudos geológicos detalhados a mapeamento do tipo de solo, às mais avançadas máquinas e até a consultores franceses da região de Champagne para produzir os vinhos.

 Contudo, muitas das melhores vinícolas empregam hoje formandos do Plumpton College de Sussex, que já viajaram bastante e apresentam uma abordagem nova, moderna, a essa arte tão tradicional.
 
Bases sólidas

A maioria dos melhores vinhos estão sendo produzidos no sul da Inglaterra, embora não seja possível definir diferenças regionais específicas entre Kent, Sussex, Hampshire, Dorset e Cornwall. 

Além disso, é certo dizer que muitos produtores compram uvas de mais de uma região, reduzindo ainda mais essas diferenças. Do mesmo modo, apesar dos tipos de solo mais procurados serem o giz / calcário (chalk) e o arenito verde (greensand), bem como uma face sul, a compreensão de cada terroir ainda não está completa. 


Como diz Ben Murray da recém-fundada Henners sobre esse conceito, "estamos começando a arranhar a superfície".

O estilo de cada vinícola, o corte de uvas e a safra são parâmetros mais confiáveis.  A maioria dos vinhos é safrada, e, excetuando-se 2012, que foi um choque para quase todas as empresas, os últimos anos têm sido bons, com 2009 produzindo vinhos deliciosamente robustos e suntuosos, 2010 com mais potencial de guarda, e a pequena mas madura colheita de 2011 proporcionando concentração e textura.

Um ponto crucial é a falta de vinhos de reserva. Não se deve nem à pressão de colocar vinhos no mercado, nem à falta de instalações de armazenagem ou de pobreza de safras mais antigas. Não só é possível acrescentar legalmente até 15% de vinho de reserva a vinhos safrados para dar complexidade ao corte final, como os vinhos de reserva permitem a elaboração de vinhos não safrados mais consistentes, o que é particularmente importante em safras difíceis.


Como diz a enóloga Emma Rice, da Hattingley Valley: "2012 nos levou a fazer isso", e, embora mais e mais produtores estejam começando a formar estoques, seria bom ver que todos estão fazendo isso.

Um dos aspectos mais empolgantes com relação a produtores conhecidos como Nyetimber, Ridgeview, Chapel Down, Camel Valley e Denbies é a sensação de que nenhum deles está parado. De investimentos em terras e novos plantios a instalações aprimoradas de vinificação e para visitantes, particularmente o desenvolvimento de novos rótulos de prestígio, há alguma coisa interessante acontecendo em cada um deles.

A Nyetimber foi pioneira nos primeiros tempos e ainda é uma luz para as demais vinícolas. Embora os vinhos tenham sofrido altos e baixos no passado, desde que Cherie Spriggs e Brad Greatrix assumiram como enóloga e gerente da vinícola em 2007, a empresa produziu algumas de suas melhores safras até hoje. 

Para mim, a qualidade da gama em geral e o potencial de envelhecimento dos melhores vinhos da Nyetimber destacam a empresa, como demonstra o atual Blanc de Blancs 2007. 

A Nyetimber tem mantido vinhos de reserva desde 2007, e a partir da safra de 2011 o Classic Cuvée vai se tornar um vinho não safrado pela primeira vez. Além disso, um novo vinho da soberba safra de 2009 está para ser lançado, com 3% de fermentação em barris
 de carvalho novo.



 
Expansão e turismo

A Ridgeview abriu um caminho diferente. O lema do falecido Mike Roberts, segundo explica sua nora Mardi, era "qualidade, consistência, valor". Embora possua vinhedos, empresa adquire uvas do sul da Inglaterra, elaborando uma ampla gama de vinhos espumantes que são consistentemente bons, e volta e meia excelentes. 

A empresa tem planos de expansão que vão dobrar a produção com o rótulo Ridgeview e aumentar as exportações, que já são da ordem de 20%, o que faz dela uma das marcas mais encontradas fora do Reino Unido.

Se você quiser visitar uma vinícola inglesa, a Chapel Down, a Camel Valley e a Denbies precisam estar no alto de sua lista, pois têm excelentes instalações para turistas. A Denbies tem de tudo, desde um giro de trem pelos vinhedos até uma loja de fazenda; a Chapel Down tem um excelente restaurante, The Swan; e a Camel Valley é um lugar muito bonito para se fazer uma visita com guia e degustar vinhos. 

Chapel Down

Na Chapel Down, que se orgulha de oferecer um "vinho para todos", você pode encontrar o dinâmico enólogo Josh Donaghay-Spire fazendo coisas impressionantes com a Chardonnay e expandindo os limites com vinhos espumantes e tranquilos.

Quanto aos produtores mais novos, há tantos nomes empolgantes surgindo que é quase impossível saber por onde começar. Compreensivelmente, os membros mais antigos do grupo produzem vinhos melhores e mais consistentes, enquanto muitas das propriedades recentes estão em sua primeira safra ou, como o ambiciosíssimo projeto Rathfinny em East Sussex, ainda não lançaram seus vinhos.

Gusbourne é um de meus favoritos há tempos, mas quando a vinícola entrou no mercado de capitais de Londres, em 2013, admito que me preocupei com a preservação do estilo bem inglês dos vinhos. Felizmente, parece que não foi o caso – sem dúvida, com a ajuda do fato de que o enólogo Charlie Holland foi para a Gusbourne e saiu da Ridgeview (onde estava produzindo os vinhos da Gusbourne) e uma nova vinícola foi construída perto do vinhedo, aumentando a conectividade entre ambas. Há planos para desenvolver e ampliar a Appledore para acomodar o aumento de produção e o turismo.


 
Vinícolas premiadas

Wiston e Hattingley Valley são dois nomes importantes para se prestar atenção. O talentoso enólogo Dermot Sugrue (ganhador do troféu DWWA de 2014) admite que tem um solo preferido: "Sou um adepto do solo argiloso", diz. Seus vinhos mostram um refinamento incrível, aliado à deliciosa textura e complexidade que ele obtém com pequena parte de licor de dosagem e o uso habilidoso do carvalho. 

Os vinhos são consistentemente excepcionais. Sugrue também produz um vinho com vinhas alugadas sob seu próprio rótulo, Sugrue Pierre, altivo e elegante e que também demonstra seu talento com o carvalho.

Em Hattingley, Emma Rice, que ganhou o título de Enóloga Inglesa do ano de 2014, e sua equipe, gerenciam o maior contrato de produção vinífera do Reino Unido, bem como uma gama de vinhos sob o rótulo Hattingley Valley. 



O estilo é atraente e generoso, e a qualidade deu um grande salto entre 2010 (a primeira safra) e 2011. Rice também produz vinhos para a Court Garden, e os Blanc de Blancs e os Blanc de Noirs de 2010 são particularmente notáveis.

Em Dorset, tanto a Furleigh quanto a Langham são vinícolas para se ficar de olho. Na Furleigh, Ian Edwards (Enólogo Inglês de 2012) transformou uma fazenda leiteira numa vinícola com vinhedos, produzindo o primeiro vinho em 2009. 

Os espumantes de Edwards são incrivelmente bem feitos e mostram riqueza e intensidade. Ele também produz vinhos para seus vizinhos Steven e Bella Spurrier em Bride Valley (conforme artigo na edição de abril da Decanter), aqui com um caráter puro, fresco e delicado que é adequado ao desejo de Spurrier de produzir um vinho de "estilo aperitivo".  
Além dessas vinícolas privadas, alguns varejistas importantes do Reino Unido estão entrando em cena, e a Waitrose lançou seu próprio vinho espumante, bastante crível, no ano passado, feito na propriedade de Leckford, e a Family Vineyards da Laithwaite tem feito vinhos excelentes, que vende em suas lojas.



Os demais - Hambledon, Henners, Hindleap, Hush Heath, Jenkyn Place e Upperton –, embora não tenham entrado na minha lista de vinhos recomendados, certamente são produtores dignos de atenção.

Pode não ser muito do perfil estereotípico da discrição inglesa começar a defender nossos produtos domésticos – especialmente se são vinhos. Mas os espumantes infleses são uma proposta cada vez mais excitante, com um número crescente de garrafas para vendermos ao mundo. Tendo em vista a qualidade e as promessas contidas, não é nem de longe uma piada: é algo a cujo respeito todo apreciador de vinhos pode começar a divulgar com tranquilidade.


 
Susie Barrie, MW, é escritora e radialista

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