Mendoza e suas subzonas, a terra de Malbec

19/06/2015

Mendoza produz 75% dos vinhos Malbec que vemos nas lojas, mas você se enganaria se presumisse que esses vinhos são muito parecidos. Para garantir que você está comprando o melhor que a Argentina tem a oferecer, Patricio Tapia revela as cinco principais subzonas para se buscar nos rótulos. A tradução do artigo, publicado em inglês na revista Decanter, foi de nosso colaborador Marcello Borges...

 

Até recentemente, o modelo de Malbec oferecido pela Argentina em geral e Mendoza em particular poderia ser resumido como tintos amigáveis, suculentos, maduros, com taninos macios e texturas sedosas. A fórmula foi bem sucedida em todo o mundo, especialmente no mercado dos EUA, onde os Malbecs argentinos entraram na moda.

Dito isso, ao longo dos últimos cinco anos, os produtores argentinos levaram o foco de seu interesse dos barris e das mais recentes tecnologias de vinificação para a vinha, descobrindo nesse processo que, na realidade, não existe apenas um Malbec mas muitos, e, como toda grande varietal, ela é muito influenciada pelo local onde crescem as uvas.

Então, o que vem surgindo é toda uma nova geração de Malbecs deixaram de se concentrar num estilo e começaram a basear seus sabores em suas origens. Para entender melhor esse fenômeno, eu focalizei Mendoza - a região que produz três quartos do Malbec que a Argentina oferece ao mundo - e selecionei suas sub-regiões mais empolgantes (aqui relacionadas em ordem geográfica, do norte ao sul). 

Essas áreas representam apenas 10% do total de vinhedos de Mendoza, mas estão produzindo sabores e texturas totalmente sem precedentes, simplesmente aguardando serem descobertos.


Vistalba e Las Compuertas

Área plantada 886 hectares
Percentual dos vinhedos de Mendoza 0,6%

Vistalba e Las Compuertas são duas zonas ocidentais situadas na parte mais elevada da denominação Luján de Cuyo. Situam-se acima da margem norte do Rio Mendoza, ambas com abundantes vinhedos antigos de Malbec, alguns com mais de um século. Ambas também compartilham solos de aluvião, ricos em areia e pedras arrastadas dos Andes pelo rio.

Em termos de altitude, Vistalba é uma região mais baixa, situada em média a  uns 980m acima do nível do mar, enquanto Las Compuertas tem vinhedos a 1.100m – como muitos no Vale do Uco. Logo, no contexto cálido do clima desértico de Lujan, Vistalba e Las Compuertas são lugares frescos. A altitude e a proximidade das montanhas banham os vinhedos com brisas frias.

Las Compuertas, zona de produção de altíssima qualidade

Em termos de sabor, essa influência andina reflete-se na acidez firme de seus Malbecs, mas não tanto em seus aromas. O sol faz sua parte. "Esta zona proporciona muita cor e corpo, com mais estrutura do que outras áreas", diz Rodrigo Arizu, principal executivo da Viña Alicia. "Há mais frutas vermelhas e pretas do que notas florais, bem como especiarias como pimento negra, cravo e às vezes um pouco de violeta".

Para Hervé Birnie-Scott, diretor da Terrazas de Los Andes, os Malbecs da região têm bom volume e são sempre sedosos. "Neste sentido, os do Vale do Uco têm mais estrutura e são tânicos, com notas aromáticas mais selvagens. São mais clássicos".

Se você procura Malbecs amplos e expansivos, ricos em aromas adocicados e macios, mas ao mesmo tempo com ossos sólidos e tensos e uma acidez marcante para assegurar-lhes longo tempo na adega, procure  os vinhos de Las Compuertas em Mendoza. Exemplares mais macios e exuberantes de Vistalba podem ser bebidos mais jovens, como acompanhamento perfeito para um rosbife.

Agrelo

Localização: ao sul da cidade de Mendoza em Luján de Cuyo
Área plantada 9.000ha
Percentual dos vinhedos de Mendoza 6%

Agrelo é uma das zonas mais tradicionais de Mendoza e é rica em vinhas velhas de Malbec. É também a origem de alguns dos mais importantes tintos da Argentina e um bom exemplo da paisagem desértica da região: uma enorme encosta com areia, solos rochosos que irrompem da Cordilheira dos Andes e variam de 780m a 1.100m acima do nível do mar. Com apenas 200 milímetros de chuva por ano, suas condições desérticas são visíveis na paisagem árida, dominada por árvores de espinho e por canais de irrigação que espalham faixas de verde no meio da areia e das pedras.

Agrelo, zona de Malbecs de cor intensa e aromas de frutas negras

A Malbec amadurece pacificamente sob o sol de Agrelo. "Geralmente, a Malbec de Agrelo tem rendimentos entre baixos e médios e produz uvas de cor intensa e maturação muito boa, valores transferidos para o vinho, juntamente com aromas de frutas negras - especialmente figos - com um caráter muito sutil de especiarias", diz Jorge Riccitelli, enólogo da Bodega Norton. Ele acrescenta que as Malbecs de Agrelo são conhecidas por sua boa concentração de taninos suaves e doces.

Como muitos amantes da Malbec, uma de minhas primeiras incursões nesta uva foi graças a Agrelo, um lugar quente e ensolarado que permite que a Malbec amadureça facilmente. O resultado é o Malbec mais generoso e suave que se pode encontrar; uma excelente introdução a essa uva.

Gualtallary

Localização: sudoeste de Tupungato, na parte norte do Vale do Uco
Área plantada 1.900ha
Percentual dos vinhedos de Mendoza 1,2%

Graças a vinhos de vinícolas como Catena, Sophenia, Doña Paula e Zorzal, hoje 
Gualtallary é um dos pontos mais interessantes do cenário vinícola de Mendoza. E esse status deve-se aos excelentes tintos provenientes da região, bem como à personalidade forte de suas Malbecs.

Gualtallary fica na zona mais elevada do departamento de Tupungato (até 1.600 m, embora a maioria dos vinhedos se situe a 1.300m), e por isso é o setor mais frio de Mendoza. Os Andes mostram-se majestosos aqui, com seus picos pontiagudos dominando o horizonte. As colinas que descem pelas montanhas podem perder seus solos arenosos, rochosos, ricos em calcário – um terroir muito pobre, no qual só árvores espinhosas e videiras podem sobreviver.

Gualtallary, zona de produção de malbecs mais minerais do que frutados...

Esta paisagem e seu clima produzem alguns dos Malbecs mais frescos de Mendoza – mesmo quando os vinhos forçam a escala de maturidade (o que é cada vez menos comum nesta área) – e oferecem uma faceta completamente distinta para essa varietal. "Esta região nos dá mais austeridade do que exuberância", diz Juan Pablo Michelini, enólogo da Bodega Zorzal. "Isso quer dizer que os aromas são mais florais, herbaceous e minerais do que frutados, os taninos têm bela textura, aguçada em vez de arredondada, e uma acidez rica e natural, com vinhos mais frescos e aromáticos".

Sinto-me fascinado pela paisagem de Gualtallary – os Andes parecem dramáticos vistos daqui. Fascinam-me também seus vinhos, tanto no estilo descomplicado que fornece um suco de cereja vermelha puro e elétrico quanto nos exemplares mais ambiciosos, que podem durar uma década ou mais na garrafa. Sugiro que você experimente os dois estilos.

Altamira

Localização: Tunuyán, no centro do Vale do Uco
Área plantada 1.200ha
Percentual dos vinhedos de Mendoza 0,8%

De todas as zonas do Vale do Uco, Altamira (oficialmente conhecida como Paraje Altamira) foi uma das primeiras sub-regiões a colocar os vinhos argentinos no nosso radar e nas prateleiras. Entre esses vinhos, encontra-se o Finca Altamira Malbec 1999 da Achaval-Ferrer – pioneira na exploração do conceito de vinhedo único para a Malbec Argentina, além de um dos primeiros (talvez o primeiro) dos grandes vinhos do Vale do Uco.

Os Malbecs de Altamira são perfumados, com violeta, lavanda e frutas vermelhas, posicionados entre os melhores da Argentina

Estamos no departamento de Tunuyán, coração do Vale do Uco, às margens do Rio Tunuyán, uma das mais importantes fontes de água de Mendoza.  Este rio nasce nos Andes e há séculos permite a viticultura em Altamira – graças a canais artificiais. A fama recente da zona atraiu novos empreendimento, o que significa que hoje há vinhedos muito velhos de Malbec ao lado de videiras novas. Altamira fica num cone aluvional, em altitudes que variam entre 1.000 e 1.100 metros. Esta paisagem, semelhante a um deserto, é rica em areia e pedras e também em pedra calcária, que confere um caráter especial a alguns dos vinhos, especialmente em termos de textura.

"Os Malbecs de Altamira são perfumados, com violeta, lavanda e frutas vermelhas", diz Santiago Achaval da Bodega Achaval-Ferrer. "Os melhores vinhos também são bem minerais, com notas claras de grafite". Sebastián Zuccardi das Bodegas Zuccardi também acredita que os solos fazem com que os Malbecs de Altamira sejam diferentes. "Os solos calcários ficam mais evidentes no palato. Os vinhos não se mostram tão gordos quanto os de outras zonas do Uco, mas com uma elegância e tensão na textura que os tornam muito longos e persistentes".

Vista Flores

Localização: Tunuyán, no Vale do Uco
Área plantada 2.300ha
Percentual dos vinhedos de Mendoza 1.5%

Vista Flores começou a ser conhecida internacionalmente graças ao trabalho do consultor Michel Rolland, que convenceu outras seis figuras importantes de Bordeaux a investir no Vale do Uco. 

O projeto, Clos de los Siete, ainda é um dos mais ambiciosos empreendimentos do Novo Mundo.

Vista Flores é uma zona conhecida por parcelas específicas, com excelente (embora não necessariamente abundante) herança de vinhas velhas de Malbec que tiveram participação  vital em grandes vinhos que, até Rolland, ficaram rotulados simplesmente sob a apelação de Mendoza. Hoje, Vista Flores está merecidamente sob o olhar do público.

Vinicolas de alto nível estão alojadas no famoso Clos de Los Siete, em Vista Flores

Os vinhedos mais altos ficam a oeste, chegando a 1.200m de altitude. "Os solos são de origem aluvional, predominantemente marga (loam), e têm uma presença significativa de seixos que às vezes são calcários", explica Susana Balbo, proprietária da Dominio del Plata, uma das muitas vinícolas que compra uvas dessa zona.
Anne-Caroline Biancheri, proprietária da Antucura, uma bodega que faz vinhos 100% de Vista Flores, descreve o caráter da zona como variado, mas principalmente produtor de Malbecs de cor e aroma intensos. "Os sabores lembram pêssegos com notas de violeta e rosas", diz.

De todas as áreas do Vale do Uco, Vista Flores parece oferecer as versões mais exuberantes e maduras de Malbec. Pode ser fruto da marcante influência do estilo concentrado de vinificação de Rolland. Entretanto, novas abordagens praticadas por produtores como Dominio del Plata e Antucura provam que o caráter dos Malbecs de Vista Flores ainda está por ser definido.
 
Patricio Tapia é o representante regional da Decanter World Wine Awards na Argentina e publica Descorchados, guia anual de vinhos da Argentina, Brasil, Chile e Uruguai.
 

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Patricio Tapia Patricio Tapia é colaborador da revista inglesa Decanter e de outras importantes publicações, representante regional da Decanter World Wine Awards na Argentina e autor de Descorchados, guia anual de vinhos da Argentina, Brasil, Chile e Uruguai.
Patricio Tapia

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