Seis fatos que talvez você não saiba sobre a Argentina

11/06/2015

Todos sabem que a Argentina produz Malbec e Torrontés. O que poucos conhecem é a diversidade da primeira e a história jesuíta por trás da segunda. Isso sem mencionar os mistérios genéticos da Bonarda, os enólogos especializados em terroirs, os sommeliers de renome internacional e um punhado de outros detalhes que vamos compartilhar com você.

Malbec, a grande estrela da Argentina


Malbec, a principal variedade...

Importada da França e levada primeiro para o Chile e depois para a Argentina, em 1852, a Malbec encontrou seu lugar nos desertos irrigados do oeste da Argentina. A razão é simples: o clima e os solos permitiram uma adaptação completa que, ao longo dos anos, levou à uva mais cultivada no país, com 36.000 hectares plantados até agora.

Ela foi "redescoberta" no final da década de 1990 por seu caráter frutado e a facilidade de agradar ao paladar. Hoje, produz os vinhos varietais mais exportados e consumidos, aqueles dos quais os argentinos mais se orgulham.

Ela tem até seu Dia Mundial, 17 de abril, data que assinala a fundação da primeira "quinta agronômica", vinhedos nos quais a variedade começou sua carreira no século dezenove. Além disso, é a chave para compreender os diversos terroirs do país: os de Salta, com especiarias e concentrados; Lujan de Cuyo, frutados e de corpo médio; o Vale do Uco, florais e frutados, com estrutura; Patagônia, vinhos frutados, herbáceos, de corpo médio e com bom frescor.

Torrontés, uma variedade em ascenção

Torrontés, o branco singular... 

Com nome importado, pois também é o nome de um grupo de uvas espanholas, a Torrontés Riojana é a única uva "nascida e criada" em nossos vinhedos. Segundo as informações disponíveis e a tese do historiador Paul Lacoste – que, por sua vez, é apoiada por outros autores e estudos genéticos – a Torrontés é um cruzamento natural entre a Criolla Negra e a Moscatel de Alexandria. Ao que parece, esse cruzamento deu-se nas terras que os jesuítas cultivavam em Mendoza no século dezoito. E, em função de seu caráter aromático e nobre para vinicultura, espalhou-se pelo país. Em Salta produz vinhos muito florais, perfumados, icônicos, com paladar  um pouco austero; nas altitudes de Cuyo, produz um branco cítrico, com volume e frescor, que recentemente começou a ganhar renome no mercado.

Os irmãos Pablo e Hector Durigutti, grandes enólogos da nova geração argentina

Enologia local... 

Quando a indústria vinícola argentina resolveu mirar o mercado de exportação, precisou de consultores estrangeiros. Mas isso não foi feito de maneira caprichosa. Havia um número significativo de pessoas dedicadas à vinicultura e à agronomia na Argentina, a ponto de, nas vinte safras desde 1989 – quando começaram a prestar consultoria – até 2009, algumas das pessoas mais criativas se fortaleceram: são os enólogos que hoje beiram os 40, como Alejandro Vigil, Marcelo Pelleriti, Hector Durigutti, Mauricio Lorca e Alejandro Pepa, para mencionar alguns. 

Enquanto isso, a velha guarda, como Susana Balbo, Jorge Riccitelli, Marcelo Miras, Roberto de la Mota, Angel Mendoza, Roberto Gonzalez, Mariano di Paola e Daniel Pi, foram os veículos naturais de transmissão do conhecimento. Agora, devemos prestar atenção aos que virão em seguida. 
Fique de olho nos enólogos que estão na faixa dos trinta, como Sebastián Zuccardi, Matías Riccitelli, Alfredo Merlo, Juan Pablo Michelini, Marcos Fernández e Alejandro Cánovas. Eles percorrem o mundo com suas safras. Neles, foi plantada a semente das coisas que virão.


Paz Levinson, sommelier de elite

Sommeliers de exportação...

 Um dos fenômenos mais curiosos em torno do vinho argentino foi a proliferação de sommeliers formados. Desde a abertura da Escola Argentina de Sommeliers, em 1999, esses profissionais conquistaram posições de destaque no mundo. Na vanguarda do serviço de restaurantes importantes, como Paz Levinson ou Agustina de Alba. Ou profissionais que treinaram na CAVE, a Escola Argentina de Vinhos e Gato Dumas, e agora estão em restaurantes de toda a América Latina. 

Em 2016, a reunião mundial da Associação Internacional de Sommeliers (ASI) terá lugar em Mendoza, patrocinada pela Wines of Argentina e pela Wine Corporation. Uma coisa impensável há apenas cinco anos.

A surpreendente Bonarda, uva que agora teve sua origem desvendada


Bonarda para principiantes...

 Logo atrás da Malbec em área de cultivo vem a Bonarda com 18.000 ha. Sua história é perfeita para descrever os vinhos argentinos. No começo das pesquisas mais sérias sobre as variedades cultivadas no país, na década de 1970, a Bonarda revelou-se como um enigma: tinha o nome de um grupo de variedades italianas, mas não se encaixava nestas e nem em outras variedades conhecidas. 

Esta confusão durou até 2009, quando estudos genéticos determinaram que ela era a Corbeau, Charbono ou Douce Noir, os três nomes de uma uva típica do sudeste da França. 

A Organização Internacional da Vinha e do Vinho (OIV) aceita hoje a Bonarda como sinônimo. Para além da confusão, sua vasta distribuição deve-se ao caráter frutado e amigável dos vinhos que ela produz nas áreas quentes da Argentina, onde costuma ser mais plantada. Entretanto, mais recentemente, começamos a ver exemplares de áreas mais frias, com caráter frutado, fresco e fechado.

Cabernet Franc, a varietal francesa que vem fazendo enorme sucesso na Argentina

Por quê a Cabernet Franc? 

Esta uva típica do Loire chegou à Argentina há pouco mais de um século e ficou perdida na maré das chamadas "uvas francesas", juntamente com a Petit Verdot e a Cabernet Sauvignon. No entanto, ela decolou quando se incorporou um material genético clonal na década de 1990, e quando seu cultivo em áreas temperadas e frias foi explorado. 

Vinte anos depois, a Franc demonstrou que assumiu raízes profundas na Argentina: chegou ao topo das classificações da revista Decanter em outubro de 2014, quando críticos internacionais como Luis Gutierrez (Wine Advocate) e James Suckling (jamessuckling.com) demonstraram seu entusiasmo por esses vinhos.

Primeiro, porque abriu a palheta estilística para tintos descomplicados, verticais e lineares, com fruta intensa. Segundo, porque essa mesma palheta nos permite repensar noutros estilos de vinho a partir de seu sucesso. Agora, a lição aprendida com a Cabernet Franc está se compensando noutros vinhos.



Joaquín Hidalgo (36) é de Mendoza, onde formou-se como enólogo no Liceo Agrícola. Depois, formou-se em Jornalismo na Universidade Nacional de La Plata, e desde 2003 mora em Buenos Aires onde escreve sobre vinhos e comidas em importantes veículos nacionais: tem textos de vinhos na revista JOY e Planetajoy, é colunista da edição dominical de La Mañana de Neuquén e da revista La Nación (2014). Coeditor do guia de vinhos Austral Spectator entre 2011 e 2013, ano em que lançou Vinómanos, primeiro guia móvel em app para vinhos argentinos. Ele aguça seu senso criativo em seu blog Bien Jugoso (planetajoy.com/bienjugoso).

Tradução de Marcello Borges
 

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Joaquin Hidalgo Joaquín Hidalgo (36) é de Mendoza, onde formou-se como enólogo no Liceo Agrícola. Depois, formou-se em Jornalismo na Universidade Nacional de La Plata, e desde 2003 mora em Buenos Aires onde escreve sobre vinhos e comidas em importantes veículos nacionais
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