Bordeaux Primeurs 2013, um desafio ao conhecimento

02/05/2014

As primeiras notícias da safra 2013 em Bordeaux não são nada animadoras. Neste caso, informações precisas valem ouro e dois grandes conhecedores do assunto, Thierry Desseauve e Jean-Marc Quarin acabam de divulgar suas primeiras impressões. Nosso colaborador André Logaldi fez uma síntese do que estes autores pensam de Bordeaux 2013


Grande preocupação entre os apreciadores (e investidores) dos vinhos Bordeaux é saber como foi a safra e como os vinhos devem evoluir no futuro, uma tarefa nem sempre muito fácil e sujeita a grandes erros de avaliação, como ocorreu em 1982 (veja abaixo). A qualidade da safra se reflete diretamente no preços e neste sentido, a opinião de especialistas tem grande valor.

É inegável que as notas potenciais do crítico americano Robert Parker balizam os preços cobrados pelos Châteaux, mas é sempre muito importante sabermos o que pensam os críticos franceses, que também possuem enorme vivência em avaliar precocemente os vinhos de Bordeaux.

Nesse sentido, Artwine pediu ao seu colaborador André Logaldi que fizesse uma síntese de do pensamento de dois grandes críticos franceses, Thierry Desseauve (autor do mais conceituado guia de vinhos franceses, em parceria com Michel Bettane) e Jean Marc Quarin, um experiente degustador da região. O relato é importante para quem pretende comprar "en primeur" os Bordeaux 2013. Vamos a ele...(Arthur Azevedo, editor de Wine Style)

O desafio de prever o futuro: como se comportarão os Bordeaux 2013?

Um dos grandes momentos de um enófilo com uma boa bagagem em degustações é, sem dúvidas, tentar colocar em prática de maneira harmoniosa a soma de seu conhecimento específico, astúcia sensorial, humildade e capacidade de antevisão. Poucas produções vinícolas são mais efervescentes e desafiadoras do que uma nova safra de vinhos de Bordeaux!

Sim, prever o futuro do pretérito é fácil, mas todos os melhores e menos arrogantes críticos sabem que não conseguirão fazer disso uma ciência exata. O profeta de hoje pode ser o idiota de amanhã.

Jean-Marc Quarin


Um dos grandes degustadores de Bordeaux, Jean-Marc Quarin, conta uma anedota clássica: ainda jovem, em 1983, empolgado em adquirir sua primeira garrafa de um grande Bordeaux (seu desejo era um Latour 1982), ele se deixou influenciar pelo gerente de uma cave, que disse que esta safra seria um fiasco, com vinhos moles, sem acidez e incapaz de envelhecer bem. Hoje é fácil dar risada, mas a safra de 1982 foi tida como atípica, quente, talvez propícia para se fazer Cabernets da Califórnia para alguns, embora outros tenham recebido o calor e a alta produção de uvas maduras como uma indicação de um ano excepcional.

A esta evolução em que vinhos “chatos” se transformam em ícones seculares, podemos atribuir a força do terroir, que se sobrepõe ao clima e também se torna mais relevante que as uvas. Em 2005, dizia-se que muitos produtores queriam acidificar suas vindimas!

Mas antes da volta ao presente, tenho sempre a obrigação de reafirmar: a degustação de primeurs não é como uma degustação regular, de vinhos já prontos e evoluídos. Jamais comparem um Latour de 15 anos com um Lafite vindo de amostra de barrica. São abordagens muito diferentes! A somatória da intervenção do tempo e do efeito-terroir podem inverter todas as análises!

Thierry Dessauve

Então, como foi 2013? Os críticos especializados (muito especiais!) como Thierry Desseauve e o próprio Quarin já estão disponibilizando suas primeiras impressões. 

A difícil safra 2013, um enorme desafio aos produtores

 2013 foi um ano de primavera fria, após um inverno úmido, a floração e consequentemente a maturidade foi tardia, o que vai contra a tendência das gloriosas safras bordalesas, em que há ótima insolação, pouca umidade e floração precoce. 

A grande salvação da colheita foi um mês de julho quente, tanto que bateu um recorde de temperaturas altas, tornando-se o mais cálido dos últimos 60 anos. A baixa foi a perda de 80% da colheita na região de Entre-deux-mers devido ao granizo. 


Château Cheval Blanc, referência na margem direita de Bordeaux


Aliás, em linhas gerais, é uma safra de baixa produção (toneladas por hectare). Um ditado popular na região diz “Agosto faz o mosto”! E o mês de agosto foi normal, com calor de dia e noites frescas, favorecendo o perfil aromático dos vinhos. Idem para setembro e a colheita começou em outubro. 


Desseauve não hesita em dizer que junto às safras de 92 e 84, esta deve ser uma das piores dos últimos 30 anos. Alguns Châteaux não declararam sua safra e outros puseram no mercado um volume de 30-50% de suas colheitas normais.

Resumo geral da safra: baixíssima produção, tintos com qualidade muito heterogênea. O calor de julho e a produção menor podem ter salvo a safra. 

Os crus devem ter desempenhos melhores do que o das denominações (AOCs), há uma maior dominância da Cabernet Sauvignon. A Cabernet Franc se desenvolveu bem também e a Merlot, sofrendo mais do que o normal com o desavinho, se manteve apenas em seus solos clássicos, argilosos, em Pomerol.

É bastante comum nas avaliações de experts, uma “nota prazer”, a mais “imediata” e a “nota potencial”, que deve ser a maior nota possível caso o vinho envelheça de acordo com as melhores expectativas. 

Para ambos os críticos acima citados estas notas são muito próximas, significando que eles acreditam pouco no ganho de qualidade ao longo do tempo. Quarin crê que é uma safra a ser bebida realmente jovem e guardada por não mais de dez anos, exceção ás garrafas magnuns ou maiores.


Château Valandraud, um ícone de Saint-Émilion

Os vinhos brancos licorosos deverão ser de bons a muito bons, os brancos secos, variam apenas de médios a bons, com raríssimas exceções ligados aos crus especiais, o Château Valandraud Blanc, por exemplo, sendo cotado como extraordinário, por Desseauve. 

Por ter baixa produção e necessidade de triagens cuidadosas, o custo do trabalho foi alto, mas isso de acordo com Quarin, não deve levar a um valor de mercado elevado, pelo contrário, os preços devem baixar.

Para finalizar vamos a alguns vinhos cuja qualidade foi bem recomendada pelos críticos! Observação: Jean-Marc Quarin estará divulgando dez boletins até o fim de abril de 2014, sendo que até agora só quatro foram lançados. Ao todo serão descritos mais de 500 vinhos. 

12 vinhos acessíveis que não podem faltar (Thierry Desseauve)

- Château Figeac: se aproxima dos grandes e sabiamente seu preço permanece estável
- Château Jean Faure: confirma o estatuto de “super-challenger” em Sat-Émilion
- Château Laroze: verdadeira personalidade para conhecedores
- Clos Saint Julien: minúscula propriedade em St-Émilion, de grande classe
- Clos du Clocher: sempre bom e mantendo alta qualidade
- Château Haut-Carles: chegará o tempo em que perceberemos a excelência deste cru de Fronsac
- Château Croix-Mouton: o Bordeaux de Philippe Janoueix tem nervo, profundidade e muita personalidade
- Château Le Boscq: discreto St-Estèphe que se impõe com força e serenidade
- Château Monbrison: simplesmente a classe de Margaux
- Château Durfort-Vivens: incontestavelmente reavivado dentro de sua categoria (Nota do redator: este 2eme cru de Margaux, apesar de muito bem localizado chegou a ser citado por Quarin em seu livro como “um cru que suscita muita frustração, faltando-lhe fruta madura e profundidade”. Ou seja, a qualidade enfim pode ter dado um grande salto o que o tornaria uma grande opção de compra)
- Château Dauzac: o início de uma renovação?
- Château Pédesclaux: onde a renovação se confirma

Branco extraordinário: Château de Valandraud Blanc


Château Yquem, origem do mais famoso vinho doce da França

Alguns dos vinhos preferidos de Jean-Marc Quarin (Somente Sauternes e margem Direita até a elaboração deste texto)

Notas potenciais:

Sauternes/Barsac:

- Coutet 16,56; Clos Haut Peyraguey 16,75; Extravagant de Doisy Daene 17,5; Yquem 17,5

Pomerol:

- Eglise Clinet 16,75; Lafleur 16,75; Petrus 16,5; Vieux Château Certan 16,25; La Violette 16,25

Saint-Émilion:

- Angélus 16,5; Ausone 16,75; Canon La Gaffelière 16,25; Cheval Blanc 16,5; Le Dome 16,25; Pavie 16,25; Troplong Mondot 16,25

E vamos estudar, degustar e aguardar! Santé!

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André Logaldi Médico cardiologista, membro da diretoria de degustação da ABS-SP, palestrante, colaborador de revistas e revisor de livros sobre vinhos, tour-leader em viagens enogastronômicas (região de Provence-França)
André Logaldi

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