Rippon, Nick Mills, e os segredos de Central Otago, na Nova Zelândia

31/03/2014

Nick Mills, enólogo e proprietário da Rippon Vineyards, esteve na ABS-SP para mostrar seus excelentes vinhos, trazidos ao Brasil pela Premium Importadora de Belo Horizonte. Quase artesanais, seus vinhos expressam com rara felicidade o terroir único de Central Otago, na paradisíaca Nova Zelândia.

Nick Mills, em frente ao cinematográfico vinhedo da Rippon, em Central Otago

Rippon Vineyards é um nome de respeito na Nova Zelândia, bastante conhecido no Brasil, graças ao trabalho pioneiro do pessoal da Premium Importadora, de Belo Horizonte, representada pelos empresários Orlando Rodrigues e Rodrigo Fonseca, que estiveram na ABS-SP acompanhando Nick Mills, enólogo e proprietário da vinícola.

Um dos trunfos da Rippon é o emprego de técnicas biodinâmicas, ou seja, de máximo respeito ao terroir, sem uso de pesticidas ou de elementos não naturais no processo de vinificação. 

Além disso, a região de Central Otago, situada na Ilha Sul da Nova Zelândia, possui inúmeras particularidades, entre as quais chama a atenção o fato ser o vinhedo situado mais ao Sul de todos os vinhedos do mundo. 

A região possui tipografia montanhosa, solo de xisto e um imenso lago, o Wanaka Lake, que regula as temperaturas extremas que a latitude propicia. Por estas características, é considerada uma área privilegiada para o cultivo de Pinot Noir, Chardonnay, Riesling e Gewürztraminer, saindo um pouco do lugar comum da Nova Zelândia, um país mundialmente conhecido pela excelência de seus vinhos baseados em Sauvignon Blanc.

Identidade própria, a principal caracaterística dos vinhos da Rippon

O enólogo-chefe da empresa familiar, Nick Mills, parece mesmo um homem da terra, conhecedor profundo do assunto, recém-saído dos vinhedos. Não precisa de muitas palavras para fazer captar a sua filosofia de elaborar vinhos cuja identidade representem o lugar e não tentar recriar Borgonhas ou Mosels em seus domínios. 

Nick estagiou na França, em grandes Domaines, onde provavelmente compreendeu a “transparência” da casta tinta mais nobre que cultiva e de como a Pinot Noir é capaz de revelar segredos da terra ou do vinificador. 

E as diferenças de terroir são evidentes em seu microclima próximo ao lago Wanaka, fator atenuador das características continentais mais extremas do país e solos ricos em xisto e algo de argila.


Para surpresa de todos, Nick pediu que os vinhos brancos fossem servidos depois dos Pinot Noirs, quatro vinhos produzidos com uvas de vinhedos diferentes e/ou safras diferentes, bastante delicados e típicos desta nobre casta francesa. O motivo? Seus dois vinhos brancos, um Riesling e um Gewürztraminer são tão aromáticos e expressivos, que poderiam comprometer a percepção das sutilezas dos Pinot Noirs. Ao final de tudo, todos perceberam o acerto desta decisão.  

Produção praticamente artesanal, um dos trunfos da Rippon

Os vinhos são raros, produções artesanais realmente, variando de 100 a 1200 caixas por ano. O primeiro da série foi o Rippon Jeunesse Pinot Noir 2010, cujo nome evoca as videiras mais jovens mostrando cor rubi, com aromas de frutas vermelhas frescas (morangos), especiarias e toques florais. Na boca  mostra boa acidez, corpo médio, álcool equilibrado, com taninos pouco perceptíveis e de boa qualidade, de média persistência. Um vinho de entrada, não fosse isso um luxo em vista de sua baixíssima produção, de ínfimas 350 caixas ao ano.

O segundo vinho foi o Rippon Mature Vine 2008, produzido à partir de uvas provenientes de videiras mais velhas. Um salto em complexidade: a coloração é rubi, com discreto halo de evolução, os aromas são de frutas muito maduras, especiarias, e os florais são mais marcantes. A passagem por barricas de carvalho francês, 25% novas, e o restante de barricas usadas, pelo período de 12 meses (de inverno a inverno) é pouco percebida. A acidez é refrescante e equilibra os 14 % de álcool, tornando o vinho bastante agradável, qualidade chave para os vinhos de Nick e dos biodinâmicos em geral. Um vinho de corpo médio, com taninos de boa qualidade e o final mais persistente. Aqui devemos concentrar a atenção na identidade Rippon, cujos vinhos são nomeados pela própria vinícola como “A voz de Rippon”!



Sempre num crescendo de qualidades organolépticas, o Rippon Emma’s Block Pinot Noir 2009, sai de um vinhedo de minúsculas dimensões, com 0,8 hectares de extensão, bem em frente ao lago Wanaka. O terreno tem xistos e alguma argila em seu subsolo. Na degustação mostrou-se visualmente jovem, exibindo aromas de frutas muito maduras, já sugerindo compotas, notas balsâmicas, especiarias finas e florais. Um vinho com perfeito equilíbrio entre álcool (13%) e acidez, muito macio, expansivo, explodindo em notas frutadas e condimentadas, com taninos finíssimos, e de ótima persistência. São produzidas anualmente meras 100 caixas! Nick afirmou que os xistos permitem ao vinho expressar complexidade e certo grau de mineralidade e estrutura, enquanto a argila favorece a untuosidade, notória no Emma’s Block!

O quarto e último tinto, o Rippon Mature Vine Pinot Noir 2003,  já está bastante evoluído, de rubi com halo acastanhado, notas empireumáticas que se antecipam à fruta. Muito defumado, com toques de especiarias, possui excelente acidez, e se mostra mais expansivo no palato e de bom corpo, com taninos muito finos, final longo e retroolfato ligeiramente terroso.

Brancos elegantes e aromáticos, a marca registrada da Rippon


Enfim, os brancos! O Rippon Riesling 2010, de vinhas maduras com raízes profundas sobre solo de xisto, exibe uma estrutura diferenciada, que proporciona uma sensação de bom corpo e densidade em boca. Amarelo-palha de média intensidade, límpido e brilhante, exala aromas de lima, florais e intenso mineral no ataque inicial. Mostra ainda acidez excepcional, frescor, frutado e longa persistência. Sua densidade é marcante, fruto da prolongada permanência sobre as borras finas ao final da fermentação.

Fechamos com o Rippon Gewürztraminer 2011, uva que enfrenta algumas dificuldades com o clima para sua expressão plena na região, de acordo com a própria Rippon. A vinificação de cachos inteiros pode ser total ou parcial de acordo com o grau de boa maturação das uvas e também tem contato com as borras, como o Riesling. De cor amarelo claro, o vinho se exibiu pleno de notas cítricas e florais e após agitação, os clássicos aromas de lichias apareceram em toda sua plenitude. Seco ao paladar, ele possui acidez e álcool equilibrados, bom corpo, boa fruta e boa persistência. De modo geral, é bem diferente do padrão clássico da uva em outras regiões, ou seja, vinhos alcoólicos, pouco ácidos e com ligeira doçura

Resumo da ópera: a Rippon desfruta de um terroir muito particular, com certa influência mesoclimática, porém com um microclima temperado pelo lago Wanaka, que permite a elaboração de vinhos elegantes e de personalidade peculiar.

Nick Mills e Rodrigo Fonseca, na degustação da ABS-SP


Mais informações em www.premiumwines.com.br e em www.rippon.co.nz

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André Logaldi Médico cardiologista, membro da diretoria de degustação da ABS-SP, palestrante, colaborador de revistas e revisor de livros sobre vinhos, tour-leader em viagens enogastronômicas (região de Provence-França)
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