Cristiano Van Zeller – o Douro é a síntese de Bordeaux e da Borgonha

21/03/2014

Cristiano Van Zeller, um dos Douro Boys, esteve no Brasil para apresentar as novas safras dos vinhos da Quinta do Vale D. Maria, agora importados pela World Wine. Artwine esteve lá e conta como foi o evento.



O Douro é uma fonte inesgotável de vinhos de excelente qualidade, tanto em sua vertente Douro DOC, quanto nos fantásticos Vinhos do Porto. Um de seus melhores produtores, e integrante da troupe dos Douro Boys, o sempre bem humorado e competente Cristiano Van Zeller, trouxe seus vinhos mais recentes, e alguns de safras antigas, para marcar sua mudança de importador, pois agora está sendo representado pela World Wine, ramo de vinhos de alta gama da tradicional La Pastina, capitaneada por Celso La Pastina.

Cristiano é quem está à frente da Quinta do Vale D.Maria, uma propriedade situada no Vale do Rio Torto, no coração do Douro, a mítica região vinícola de Portugal, hoje com 28 hectares de vinhas, metade delas com mais de 60 anos, e que pertence à família da esposa de Cristiano, Joana, há mais de 200 anos. 

Cristiano Van Zeller, um dos Douro Boys, é quem dirige a Quinta do Vale D. Maria

Para saber a história da vinícola, clique AQUI 

Mas o que interessa mesmo no momento é conhecer as novidades espetaculares que Cristiano trouxe nesta sua nova incursão no mercado brasileiro. 

O Douro, uma mescla de Bordeaux e Borgonha

Sempre muito comunicativo e simpático, Cristiano iniciou sua apresentação surpreendendo a todos com uma comparação muito interessante, colocando o Douro como uma síntese de Bordeaux e Borgonha. 

Como? Primeiro, a região teria propriedades com boa extensão territorial, divididas em Quintas bastante homogêneas, o que guardaria certa semelhança com as propriedades de Bordeaux. 

Por outro lado, dentro de cada uma destas Quintas, existem áreas de produção muito diferenciadas, à semelhança da Borgonha, com pequenas parcelas de vinhedos situados em diferentes exposições e altitudes, mas com invejável multiplicidade de castas, o que seria uma grande vantagem sobre a notável região francesa. 

Vista da Quinta do Vale Dona Maria, no coração do Douro


Para aproveitar estas características únicas, cada parcela é colhida e vinificada separadamente, o que dá origem a uma enorme gama de vinhos, que depois são mesclados por mãos experientes para compor o vinho final. 

Pisa e fermentação em lagar, um dos trunfos da Quinta do Vale D. Maria

Para demonstrar de modo cabal sua ousada tese, Van Zeller mostrou dois vinhos de vinhedo único da Quinta do Vale D.Maria: os espetaculares Vinha da Francisca 2011 e Vinha do Rio 2011.



Na verdade, tudo começou em 1996, primeira colheita de Cristiano na recém-adquirida Quinta do Vale D. Maria, quando as diferenças entre as parcelas foram percebidas de forma muito evidente. Tendo isso em mente, resolveu em 2004, ano do 18º  aniversário de sua filha Francisca, plantar a Vinha da Francisca com a antiga casta Tinta Francisca (casta plantada no Douro,  pela primeira vez em Portugal, no ano de  1756, na Quinta do Roriz, propriedade da família Van Zeller até 2009), e com as castas Touriga Franca, Sousão, Rufete e Touriga Nacional. A área total da Vinha da Francisca é de 4,5 hectares. 


Na degustação o Quinta do Vale D. Maria Vinha da Francisca 2011, um vinho produzido com Sousão 50%, Touriga Nacional 20%, Touriga Franca 15%, Rufete 10% e Tinta Francisca 5%, com pisa em lagar, fermentação em temperatura controlada (22 a 27 graus) e amadurecimento em barricas de carvalho francês de Allier, novas (65%) e de segundo uso (35%) por 21 meses, mostrou-se de cor rubi/púrpura escura, com aromas elegantes e sofisticados de frutas escuras maduras (e não sobremaduras, é bom que se diga), mescladas a delicadas notas de chocolate e tostado. Na boca impressionou pela fina textura dos taninos, pelo destacado equilíbrio entre a fresca acidez e o álcool, pela concentração de frutas, traduzida em sabores deliciosos, e pela longa persistência. Um vinho em sua mais tenra infância, com futuro promissor...


A outra grande estrela, o Quinta do Vale D. Maria Vinha do Rio 2011 é produzido com uvas da mais antiga parcela da quinta, e também a mais próxima do Rio Torto, que desde a primeira colheita destacou-se pela produção de vinhos bastante distintos. Desde 2009, se decidiu engarrafar separadamente os vinhos desta parcela.

O Quinta do Vale D.Maria Vale do Rio 2011 é produzido com uvas de vinhas velhas de Tinta Francisca, Touriga Franca, Sousão, Rufete e Touriga Nacional, pisa no lagar, temperatura controlada e amadurecimento em barricas de carvalho francês de Allier, novas, por 21 meses. 

Na degustação, o vinho mostrou-se escuro e de cor rubi/púrpura, exibiu aromas deliciosos de frutas perfeitamente maduras, com notas florais e toques de chocolate, especiarias e tostado. Boca potente, mas gentil,  com acidez e álcool equilibrados, sabores  concentrados, bom corpo, taninos finíssimos, longa persistência e retro-olfato muito agradável. Um grande vinho, já acessível, e com imenso potencial de guarda. Difícil será resistir aos seus encantos...

Velhos conhecidos, em safras antigas e recentes, e uma seleção irretocável de Portos completaram o painel

Fechando a degustação, Cristiano mostrou alguns vinhos de safras novas e antigas, como o Quinta do Vale D. Maria 2011 (frutado, floral intenso, boa fruta, equilibrado, com bom corpo, taninos finos e muito boa persistência), ao lado do mesmo vinho, da safra 2004 (surpreendente, jovem, com aromas de frutado ervas, chocolate, e boca agradável, equilibrados e com taninos finos ainda perceptíveis). 

Ainda foram degustados dois vinhos topo de gama da vinícola, começando com o CV –Curriculum Vitae 2011 (jovem, impenetrável, reticente, com aromas sutis de frutas e floral, equilibrado, com taninos finos bastante perceptíveis e fruta plena), claramente um vinho projetado para guarda. O seu irmão mais velho, o ótimo CV 2005 mostra a face de uma safra quente, com boa fruta, álcool um pouco perceptível, taninos finos ainda perceptíveis e longa persistência. Deve evoluir bem nos próximos anos. 




A Quinta ainda produz Vinhos do Porto de estilo Ruby, tendo os Porto Vintage  como carro chefe. Como exemplo foi mostrado o precoce Vintage 2011, inacreditavelmente acessível, com textura sedosa, corpo impressionante, fruta deliciosa e instigantes aromas frutados e florais. 

Quase se esquece que é um Porto Vintage, e portanto, projetado para longo envelhecimento em garrafa. Graças a essa atípica evolução e a esse estilo mais moderno dos Vintage, tem aumentado de forma bastante expressiva o número de apreciadores que preferem bebê-los ainda jovens, quase no berçário. Posso assegurar que há bons motivos para este exercício de pedofilia vínica!!!!

Agradecimento especial ao caríssimo Gianni Tartari, sommelier de elite  e mestre da ABS-SP, pelo impecável serviço do vinho...

Mais informações em www.worldwine.com.br

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Arthur Azevedo Presidente da Associação Brasileira de Sommeliers (ABS-SP) , editor da revista Wine Style (2005/2011), jornalista especializado em vinhos, palestrante, consultor da Artwine, membro de confrarias internacionais.
Arthur Azevedo

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