O Futuro do Vinho na visão de Miguel Torres

03/12/2013

Com a autoridade de quem conhece profundamente o assunto, Miguel Torres discorre com propriedade sobre as ameaças e as tendências futuras no complexo mundo do vinho, nesse artigo gentilmente enviado à Artwine. (Tradução de Marcello Borges)


Miguel Torres em conferência sobre o aquecimento global e seu impacto na vitivinicultura mundial


Alguns anos atrás, li um livro muito interessante chamado "Cisne Negro", de Nassim Nicholas Taleb, que afirma que eventos completamente imprevisíveis ocorrem, para os quais não estamos preparados.

Mas são eventos transcendentais, além de nosso alcance, em todos os sentidos. Seja o caso de 11/09 em Nova York, a descoberta da América por Colombo, a descoberta da penicilina por Fleming, etc.

O mesmo posso dizer por meu pai com relação ao bombardeio da vinícola em 21 de janeiro de 1939: foi um "Cisne Negro". Os aviões eram da chamada "Legião Condor", e os que atacaram nossa bodega eram particularmente os Junkers Ju-87 Stuka. Metade das adegas foram destruídas. Logo, é difícil prever o futuro: muitas coisas podem acontecer.
Para ser mais específico em minha apresentação, permiti-me dividi-la em dois blocos: um sobre ameaças e outro sobre tendências futuras.

Mas vamos tentar explorar os problemas que teremos de enfrentar. Não se trata de um "Cisne Negro", porque não é um evento imprevisível; o fato é que ele é bem previsível, porque já está acontecendo.

1. AMEAÇAS

Mudanças climáticas

Na minha opinião,  a ameaça mais importante hoje para a indústria do vinho em geral e para a viticultura em particular é a mudança climática. 


Creio que não há mais dúvidas de que o aquecimento global é um fato. Um fato que nós – a raça humana – tornamos possível nas últimas décadas (1 Grau Celsius nos últimos 40 anos); e a previsão para o resto do século é bem pessimista. 

Se as temperaturas aumentarem entre dois e cinco graus nas próximas décadas, pode ser um verdadeiro desastre para a viticultura tal como é vista hoje. Pense na Europa e nas Apelações de Origem, baseadas em milênios de experiências para se descobrir a melhor localização para cada vinha.

Não há dúvidas de que teremos de nos adaptar, mas as consequências podem ser dramáticas para a qualidade dos vinhos. Naturalmente, poderíamos usar a Monastrell no lugar da Tempranillo ou a Tempranillo no lugar da Pinot Noir em algumas áreas. Mas os vinhos não seriam aqueles que o consumidor conheceu no passado.

Se a temperatura aumentar no máximo dois graus, ainda haverá espaço para adaptação, deslocando a viticultura mais para o norte (se possível) e procurando a altitude para vinhedos mais elevados (também se possível).

 É o que temos feito na Catalunha nos últimos vinte anos, e compramos terras nos pré-Pirineus em altitudes de até 1.200 metros, onde hoje o cultivo de vinhas ainda não é possível. Mas, talvez no futuro, tenhamos boa oportunidade para certas uvas.

Creio que a viticultura orgânica não deve ser excluída. No futuro, não acho que seja suficiente o consumidor saber que não foram adicionados produtos químicos ao solo ou à vinha em si, quando ele adquire um vinho orgânico. Creio que não bastará o consumidor saber que respeitamos a viticultura do vovô.


Acredito que mais e mais consumidores vão querer saber que empresas e que vinhos estão fazendo alguma coisa para adiar ou prevenir as mudanças climáticas.

Nesse sentido, nos últimos 10 anos tivemos três simpósios "ecossustentáveis" em Vilafranca del Penedès (Barcelona). Nesses três simpósios, basicamente estudamos como a viticultura orgânica pode se adaptar à nova situação criada pela mudança climática. 

Não creio que faça sentido termos de fumigar os vinhedos todas as semanas do verão para impedir o mildium.

Na minha opinião, não resta dúvidas de que a indústria deve criar produtos que respeitam o ambiente e que não tornam necessário o uso intensivo de tratores, que poluem o ar com dióxido de carbono.

A pegada de carbono deve se tornar um ponto essencial de nossas vidas, e no futuro a viticultura deve compreender estas consequências.

Por que usar postes metálicos nos vinhedos orgânicos se podemos usar postes de madeira? Qualquer pedaço de madeira que pudermos armazenar no planeta é um modo de guardar carbono. Pelo menos, por várias décadas.

Por que usar o CO2 para evitar a oxidação em tanques de aço inox se podemos usar o nitrogênio sem aumentar a pegada de carbono da vinícola?

Se a elevação da temperatura for confirmada, a água também será uma ameaça, especialmente na região do Mediterrâneo. Por isso, devemos levar em conta a troca da Vitis vinifera por outras uvas. Em experimentos que temos realizado nos últimos 30 anos recuperando vinhas catalãs do século 19, descobrimos que algumas não apenas produzem vinhos excelentes, como também não exigem muita água.


Appellations of Origin (AOC)

Nas próximas décadas, será difícil as Apelações de Origem não se adaptarem a esses novos cenários. Talvez alguma relocação das áreas produtivas seja permitida pelas DO's, caso seja necessário para manter a qualidade dos vinhos.

Além disso, o engarrafamento do vinho na origem, uma demanda clássica da maioria das apelações europeias, deve ser reconsiderado. Não para os vinhos top, mas para aqueles vendidos hoje abaixo de €10 – talvez o engarrafamento no mercado de destino deva ser levado em consideração para se reduzir a concentração de CO2.

Antigamente, era normal a Suécia e outros países escandinavos despacharem o vinho em grandes quantidades, engarrafando-o no país de destino. O mesmo aconteceu no Canadá. Hoje isso só acontece com vinhos Bag-in-Box baratos. Por que não aplicar isso também a vinhos de qualidade engarrafados no futuro?

Bag-in-Box, uma embalagem ecológica e adequada para vinhos de baixo custo

O uso de garrafas novas tem sido um ponto crítico nas últimas décadas. Hoje estamos reciclando todo o vidro que usamos, mas isso ainda exige muita energia para transformarmos as garrafas velhas em novas. 

O reuso dessas garrafas deve ser avaliado no futuro, e para isso precisamos de uma nova legislação europeia. Ao fazê-lo, talvez devamos reduzir drasticamente a quantidade incrível de modelos diferentes de garrafas de Borgonha e de Bordeaux que estamos usando hoje em dia: definitivamente, precisamos de maior padronização.

Alguns anos atrás, os mercados escandinavos tomaram uma boa medida com o Bag-In-Box. O BIB é muito mais econômico em termos de pegada de carbono. O mesmo se aplica ao PET.

Seria possível estender esses tipos de embalagem a outros mercados além da Escandinávia?

Finalmente, no que diz respeito às mudanças climáticas, quero aproveitar a oportunidade para explicar o que temos feito na Espanha nos últimos dois anos, quando criamos uma associação chamada "Wineries for Climate Protection" (Vinícolas pela Proteção 
Climática, ou WCP). 

No começo de 2011, um grupo de vinícolas apresentou para a Federação Vinícola Espanhola (FEV) a ideia de organizar uma conferência que promova o compromisso das vinícolas espanholas com a proteção climática.

Junto com a FIVIN, a FEV aceitou e organizou o simpósio "Wineries for Climate Protection". Mais de 300 vinícolas nacionais e estrangeiras estiveram presentes ao evento. O Sr. Ricardo Lagos – enviado especial da ONU para Mudanças Climáticas - , autoridades espanholas e parceiros assinaram a chamada Declaração de Barcelona, pedindo uma redução mínima de 20% nas emissões de CO2 até 2020 e outros cinco pontos de ação ambiental. 

Ao final de 2011, a FEV criou o comitê "Wineries for Climate Protection" que, ao longo de 2012, trabalhou na criação de um processo de certificação. A Price Waterhouse Coopers ajudou o comitê WCP a desenvolver os padrões técnicos e os protocolos de certificação.

Hoje, a "Wineries for Climate Protection" tem um sistema regulador que promove investimentos reais entre vinícolas para se chegar ao compromisso de redução de 20% das emissões de CO2 por garrafa até 2020, entre outros parâmetros. Os regulamentos contemplam os três escopos do processo produtivo: cultivo de uvas, vinificação e distribuição. Esperamos que, até o final do ano, muitas vinícolas espanholas entrem no processo de certificação da WCP. 

O WCP não prega um vinhedo sustentável como tantas outras iniciativas. Trata de compromisso real, investindo no uso de energias renováveis, eficiência, etc.

Vinho e Saúde

De tempos em tempos, ouvimos falar de ameaças contra o álcool, e, consequentemente, contra o vinho.

A relação entre o consumo moderado de vinho e reais benefícios à saúde é hoje fato inconteste

Creio que, antes de tudo, devemos concordar que o vinho deve ser separado do álcool. Por exemplo, o perfil dos consumidores é diferente, os padrões de consumo são diferentes, e também o ambiente, o momento em que o vinho é consumido: em nossa tradição mediterrânea, o vinho é sempre acompanhado por comida e consumido em reuniões com familiares e amigos. 

Para nós, o vinho é um elemento cultural, e tem sempre estado presente em nossos costumes a harmonização entre vinhos e pratos na busca de mais prazer para nosso paladar.

A fundação espanhola FIVIN tem feito um trabalho excelente nas últimas décadas promovendo pesquisas sobre as qualidades positivas do vinho para a saúde humana, organizando simpósios e possibilitando a divulgação de todo esse material de pesquisa para os médicos espanhóis. Mais de 5 mil médicos espanhóis são embaixadores da FIVIN e podem explicar os efeitos positivos de um consumo moderado de vinho.

Hoje, há mais estudos a caminho, mas já sabemos que o vinho, particularmente o tinto, tem um bom efeito sobre doenças cardiovasculares e ajuda ainda a prevenir o câncer. 

Estudos epidemiológicos e clínicos mostraram que um consumo regular e moderado (uma a duas taças por dia) está associado a uma incidência decrescente de doenças cardiovasculares, hipertensão, diabetes, certos tipos de câncer, distúrbios neurológicos e síndrome metabólica.

Há evidências de que certos polifenóis como o resveratrol, antocianinas, flavonoides e catequinas do vinho proporcionam abundantes benefícios à saúde. Além disso, no lugar dos próprios polifenóis, seus metabólitos podem ser os verdadeiros atores na proteção cardiovascular e contra o câncer. Apesar do consumo de álcool ser uma moeda com duas faces, bebedores leves a moderados de vinhos – sem complicações médicas – podem ter a certeza de que seu consumo de vinho é um hábito salutar.

Um dos médicos espanhóis que contribuiu para a FIVIN é o Dr. Estruch, do Barcelona Hospital Clínico. Em seu último trabalho, ele mostrou os resultados de um estudo clínico europeu (Predimed) com 7.500 pessoas testadas para o risco de doenças cardiovasculares. No estudo, a chamada dieta mediterrânea foi comparada com uma dieta pobre em gorduras. O estudo foi programado para cinco anos, mas a investigação parou antes porque os benefícios da dieta mediterrânea ficaram tão evidentes que continuar com a dieta pobre em gorduras poderia ser um risco para os indivíduos envolvidos no teste. O Dr. Estruch também lembrou que os alimentos que tornam a dieta mediterrânea tão especial são o azeite de oliva, nozes, peixes e vinho. 
Sistemas tributários
Hoje, na União Europeia, os impostos sobre o vinho são drasticamente diferentes, dependendo do país. Alguns países, como a Inglaterra e a Irlanda, têm taxas muito altas, o que pode se dever ao fato de não serem países produtores. Creio que seria conveniente se as taxas fossem homologadas pela Europa. Talvez, com isso, o consumo poderia se reduzir nos países mediterrâneos e aumentar no resto da UE.

Em alguns países da Ásia, como a Índia, os impostos são muito altos. Com relação aos Impostos sobre Receita (ou Impostos sobre Lucros) da Organização Aduaneira Mundial: vamos esperar que num futuro próximo os impostos sejam pagos no país onde o vinho foi produzido.

2.- TENDÊNCIAS FUTURAS

É provável que a produção mundial veja algumas mudanças no futuro.
Mesmo hoje, países que não produziam vinhos há 20 ou 30 anos estão exportando, ou, pelo menos, vendendo-os em seus mercados domésticos.
Vejam, por exemplo, o caso de países como México, Peru, Índia e mesmo a China. Hoje, a China é o quarto maior produtor mundial, com mais de 500 mil ha dedicados ao cultivo da videira.
Vinhos chineses de muito boa qualidade, hoje encontrados em lojas especializadas de vários países

Além disso, a produção de vinhos cresceu em países como Turquia e Geórgia. De modo geral, o vinho não tem sido muito atraente para grandes multinacionais do vinho nas últimas décadas. 

Se você ler qualquer revista de administração como a Harvard Business Review, raramente encontrará artigos relacionados ao vinho, pelo que sei. O único de que me lembro foi o estudo de caso da Kendall Jackson nos últimos vinte anos. 

Por que tão pouco interesse pelo vinho por parte dessas grandes empresas? Porque o vinho não tem muito interesse financeiro: os lucros são baixos, os investimentos elevados e você precisa ter uma visão de longo prazo. 

É por isso que o mercado de ações não é a companhia ideal para uma vinícola. Empresas familiares se saem muito melhor porque preferem um sacrifício de longo prazo, e elas têm valores e postura que tornam isso possível. 

É o caso da Primum Familiae Vini (PFV), estabelecida em 1993. A ideia nasceu de nosso desejo de manter nossas empresas nas mãos da família, mantendo esses valores e transferindo-os para as gerações seguintes.

No que diz respeito ao consumo e à distribuição, creio que os monopólios vão continuar a funcionar nos países escandinavos e no Canadá. 

O e-commerce é algo que vai continuar a crescer, e toda empresa terá de se adaptar a ele.

Quanto ao consumidor final, creio que também no futuro a relação entre preço e qualidade vai continuar a ser fundamental. Além disso, creio que os vinhos orgânicos – adaptando-se ao novo cenário de mudanças climáticas – também terão seu impacto. 

Uma categoria relativamente nova de "negócios justos" vai continuar a progredir, o que deve ajudar eficientemente os viticultores mais pobres em países do Terceiro Mundo.
O mapa do consumo vai continuar a aumentar e mais mercados se abrirão para o vinho. Vejam o caso da China e da Índia.

Nota do Editor – O texto acima é o resumo da concorrida palestra de Miguel Torres, em Londres, em novembro de 2013. Agradecemos a deferência do envio do artigo, publicado em primeira mão e com exclusividade no site da Artwine. Agradecimento especial ao nosso amigo Marcello Borges, brilhante tradutor, por sua contínua, e competente, assistência à Artwine.

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Miguel Torres Enólogo, profundo conhecedor do mundo do vinho, personalidade de destaque na indústria vinicola espanhola e proprietário da vinícola Torres, na Catalunha. Palestrante, estuda há tempos a influência do aquecimento global na viticultura
Miguel Torres

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