A primeira confraria: A Sociedade dos Diletantes

08/07/2013

Unir-se em Confrarias para se degustar bons vinhos na companhia dos amigos é uma prática cada vez mais comum no Brasil. Em mais um de seus artigos de pesquisa histórica, nosso amigo Marcello Borges nos conta como surgiu a primeira confraria. Confira...



O hábito de viajar e de conhecer os costumes estrangeiros completava a educação do gentleman inglês entre meados do século 17 e o final do século 18, e era chamado de the Grand Tour. É de se lembrar que estamos tratando de uma época na qual as viagens eram muito caras, e o Grand Tour levava uns três anos e meio: viajava-se por seis meses e vivia-se no exterior durante três anos. Mais tarde, o total do Grand Tour não passava de dois anos.

No começo, a Itália e a Provença eram os lugares preferidos – Samuel Johnson dizia (em 1776) que "um homem que não conhece a Itália está sempre consciente de certa inferioridade, por não ter visto aquilo que se espera que um homem deve conhecer" – mas a França (por ser a segunda língua mais popular da época), Espanha, Portugal, Alemanha, o leste europeu, os Bálcãs e o Báltico eram visitados.

Pois bem, em dezembro de 1734, num pub londrino, uma das figuras mais  pitorescas do século, sir Francis Dashwood (1708-1781), fundou a Society of Dilettanti – do italiano dilettare, "deleitar" – para reunir pessoas que tinham completado o grand tour. Dashwood era o 11º barão le Despencer, 2º baronete de West Wycombe Park, segundo Ministro das Comunicações, membro do Parlamento e Ministro da Fazenda – e estava sempre bêbado.

Francis Dashwood
No primeiro domingo de cada mês, quarenta cavalheiros se encontravam com Dashwood no The Bedford Head Tavern em Covent Garden. 

O grupo sempre tinha os melhores vinhos para brindar à beleza e à vida, evocando lembranças do sol da Itália naquela sombria e fria Londres. Com trajes diferentes e cognomes, exploravam novidades exóticas como café, chocolate e sorvete.

Além disso, colecionavam antiguidades, patrocinavam expedições arqueológicas e publicavam livros importantes sobre arquitetura e escultura. Ao brindar, diziam, seria ludo ("coisas sérias sob um espírito brincalhão"), res est severa voluptas (o prazer é uma coisa séria) e viva la virtù (longa vida às belas artes). 

Como comentou o romancista inglês Horace Walpole, "a qualificação oficial para ser membro é ter visitado a Itália, a extra-oficial é beber".

Neste quadro de Joshua Reynolds de 1778, um óleo sobre tela de 1,42 x 1,97m, vemos 
William Hamilton e outros membros da Sociedade dos Diletantes reunidos com suas taças de vinho. 

Quadro de Joshua Reynolds

Existindo até os dias atuais, com sessenta membros, a Sociedade conta entre seus membros com figuras importantes do mundo das artes e da cultura, reunindo-se cinco vezes por ano no Brook's Club de Londres para jantar. As vagas nesse clube só ficam disponíveis com a morte ou a saída de um sócio, e são preenchidas em eleições nas quais cada membro pode propor ou apoiar um candidato.

É interessante dizer que até o local atual tem uma relação com o vinho. O fundador do Brook's Club foi William Brooks, agiota e comerciante de vinhos. Por esse motivo, em suas dependências, boa comida, vinhos de qualidade e tabacos finos sempre tiveram lugar de destaque.

Eu acredito que a Sociedade dos Diletantes teria sido a primeira confraria de vinhos, embora num formato um pouco diferente do atual (com degustações dirigidas, por exemplo). Mas certamente o fato de seus sócios apreciarem as boas coisas da vida, regadas por bons vinhos, dá a eles certa qualificação...


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Marcello Borges Marcello Borges é professor da Associação Brasileira de Sommeliers-SP (Conhaques e Charutos), tradutor, colaborador de revistas e sites especializados em matérias sobre vinhos, relógios, charutos, conhaque e outros assuntos ligados ao mercado de luxo.
Marcello Borges

Fotos

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Francis Dashwood Quadro de Joshua Reynolds

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