Cheval Blanc 1947, a radiografia de um mito

29/05/2013

O que pode fazer com que ele atinja praticamente a unanimidade como um dos, se não O melhor vinho tinto do século 20, a ponto de dois dos maiores enófilos do Brasil, Arthur Azevedo e Mário Telles Jr., responderem "Cheval Blanc 1947" à pergunta sobre qual o melhor vinho que já degustaram? Saiba o que a natureza e o homem fizeram para que esse monumento da Margem Direita do Gironde se tornasse um verdadeiro mito entre apreciadores, neste pequeno ensaio.


 Imagens da nova vinícola do Cheval Blanc, uma das mais modernas do mundo, projeto do arquiteto Christian de Portzamparc

 

Um vinho de fama cinematográfica

No filme Ratatouille, o crítico de gastronomia Anton Ego pede uma garrafa de Cheval Blanc 1947 para acompanhar sua refeição. Claro que os consultores de vinhos de plantão devem ter soprado o nome e a safra para os produtores do desenho animado. 

E no filme Entre umas e outras (mais conhecido como Sideways), o personagem de Paul Giamatti, o escritor frustrado Miles Raymond, bebe um Cheval Blanc 1961 num copo de isopor numa lanchonete, o que certamente faria Max Riedel rir (ou chorar!).

(Nota do editor de Artwine - a escolha do Cheval Blanc pelo diretor de Sideways, um filme sobre o amor do personagem aos vinhos de Pinot Noir, além de ser uma indesculpável derrapada, mostra a força do Cheval Blanc, um vinho elaborado em sua maior parte com a uva Cabernet Franc, complementada por generosas doses de Merlot e uma pitada de Cabernet Franc - de Pinot Noir não tem nem o cheiro...)

Como diz a capa de um LP de Elvis, "50.000.000 de fãs de Cheval Blanc não podem estar enganados". Esse vinho tem uma mística, e a safra de 1947 eleva essa aura ao nirvana dos vinhos. Qual a sua história?

O mágico vinhedo de Saint-Emilion, o berço do mito

Cheval Blanc é uma propriedade com 37 hectares plantados a poucos quilômetros a leste de Saint-Émilion, com solo de aluvião (areia, cascalho e argila), com um terço de Merlot e dois terços de Cabernet Franc, com uma média de 6.000 pés por hectare. A idade média das vinhas é 40 anos, com uma produção de 35 a 40 hl/ha.

Vinhedos e Vinícola do Cheval Blanc

Até 1832, quando foi vendido à família Ducasse (seria parente do famoso chef Alain Ducasse?), o Cheval Blanc fez parte do Château Figeac. Uma filha de Ducasse casou-se em 1852 com Jean Laussac Fourcaud, e a família – cujo nome acabou ficando "Fourcaud-Laussac" no rótulo – ficou com o Château até 1998, quando foi adquirido por Bernard Arnault, dono da LVMH. 

O atual diretor do vinhedo é nada menos do que Pierre Lurton, que também dirige outra lenda do mundo do vinho, também do grupo LVMH, o Château d'Yquem, de Sauternes.

O clássico Château Cheval Blanc, referência obrigatória em Saint-Émilion, na margem direita da Gironde, em Bordeaux

Houve uma vez um verão...

... e o de 1947 foi escaldante, com temperaturas implacáveis – atingindo mais de 35oC – entre o começo de abril e outubro. Com o calor, a seiva não circula, as folhas murcham e caem. Sem a clorofila das folhas, as uvas não recebem açúcar, com o que há uma parada em seu crescimento. Outro problema decorrente do calor é a parada da fermentação. Thierry Manoncourt, que na época era dono do vinhedo vizinho, o Château Figeac, teve de jogar barras de gelo nos toneis para que o seu vinho não sofresse a parada da fermentação. 

Diariamente, Manoncourt enfrentava a fila do distribuidor de gelo da região – juntamente com pescadores e açougueiros que também precisavam do gelo – para pegar as barras de 20 quilos. Mesmo correndo o risco de diluir seu vinho, preferiu fazê-lo a enfrentar os desagradáveis efeitos do açúcar residual e da acidez volátil, resultantes daquela parada. Foi, segundo ele, a safra mais difícil de sua carreira.

A colheita desse ano na propriedade de Cheval Blanc começou em 15 de setembro, três semanas após a chuva de 21 de agosto; por volta do dia 20, quando muitas uvas já tinham sido colhidas, tornou a chover. A colheita se encerrou em 4 de outubro, e para Cheval Blanc a Merlot estava tão boa quanto a Cabernet Franc. A proporção dessas uvas no Cheval Blanc 1947 foi de 50-50%, com uma produção de 110 mil garrafas.

Apesar do calor infernal e das consequências para a produção de Bordeaux, a safra de 1947 acabou produzindo vinhos de grande magnitude, como Petrus. Mas inexplicavelmente, o Cheval Blanc desse ano foi excepcional, apesar de ter sofrido os efeitos da parada da fermentação. 

O que pode ter contribuído para isso foi o fato de os tanques de fermentação do Château serem de cimento, bons isolantes térmicos. Outro fator que tornou esse Cheval um Bordeaux raro foram os 14,4 por cento de álcool, na época, e até hoje, algo completamente fora da curva para a região, que então ficava perto de 11,5 ou 12 por cento. 

Nesta impressionante sala de fermentação nasce um dos melhores vinhos do mundo, o clássico Cheval Blanc

Sua fermentação malolática foi completa e perfeita e os aromas extraordinários, a ponto de o cellar master da propriedade, Gaston Vaissière, ter dito que a cantina parecia estar repleta de bananas, algo que nunca tinha acontecido antes.

O mito, na visão dos mais famosos críticos de vinhos

Cheval Blanc 1947, um vinho mítico, presença garantida no imaginário de todos os enofilos e das listas dos melhores vinhos de todos os tempos

Em seu livro Fine wines: The Best vintages since 1900 (Ed. Assouline), Michel Dovaz diz que "o invulnerável Cheval Blanc 1947 desafia as leis da enologia moderna", mencionando uma palavra que outros críticos empregam para tentar definir esse vinho: "não se parece com nenhum outro vinho, embora aproxime-se de um Porto vintage".

Em seu livro Vintage Wine, Michael Broadbent diz algo parecido: "sua concentração e suavidade o tornam semelhante a um Porto", e que esse 1947 é "um dos maiores vinhos de todos os tempos". Quando ele o degustou em meados da década de 1960, considerou que o Cheval Blanc "nocauteou Lafite e Margaux". Jancis Robinson diz apenas que "não espero degustar um vinho melhor do que este".

Parker, por sua vez, fez um comentário que não inspirou todos os seus leitores do mesmo modo, comparando sua textura – embora de forma positiva – a "óleo de motor". Também adotando a palavra chave  "Porto", Parker declara, "O que posso dizer deste mamute que se parece mais com um Porto do que com um vinho seco? O Cheval Blanc 1947... nariz de bolo de frutas, chocolate, couro, café e especiarias asiáticas... textura untuosa e riqueza de fruta adocicada são espantosas... perfeito ou quase perfeito sempre que o degustei".

Evidentemente, muita gente cobiça esse vinho. Mas a carteira precisa estar recheada: num leilão de abril de 2012 da Sotheby's, em Nova York, uma garrafa do Cheval 1947 foi vendida a US$ 30.625, incluindo a comissão do leiloeiro. Nada mal para um vinho que para Pierre Lurton, atual diretor, foi um "acidente da natureza"...


 (Nota do Editor de Artwine - vai aqui meu depoimento sobre meu primeiro (e único) Cheval Blanc 1947 que degustei na vida. Como dizia o anúncio - o Primeiro Cheval 1947 a gente nunca esquece, e realmente, a experiência foi inesquecível. Tive o privilégio de degustar o vinho no aniversário de um grande amigo, no Hotel Emiliano, e, para minha sorte, a garrafa estava perfeita. O Cheval 1947 foi adquirido num leilão em Londres , e neste caso, o comprador tem que contar um pouco com a sorte, pois nem todas as garrafas que sobreviveram estão saudáveis. A nossa estava e o Cheval 1947 não decepcionou, na medida em que sua fama o precede. Na taça, mostrou-se um vinho de cor tijolo, com boa intensidade e lágrimas finas, que cobriram a taça, muito lentas, denotando sua imensa concentração de glicerol. O nariz exibiu todos os lendários aromas, com fruta seca e fruta confeitada, couro, chocolate, especiarias e leve tostado, de complexidade, fineza e elegãncia únicas. Na boca mostrou-se macio como seda, com acidez e álcool equilibrados, muito saboroso, com frutas adocicadas, taninos perfeitamente fundidos, corpo pleno e persistência interminável, acima de 30 segundos. Uma verdadeira maravilha, inesquecível. Um vinho que fez parte da história de minha vida como degustador...)

Ver outros Artigos e Reportagens
Marcello Borges Marcello Borges é professor da Associação Brasileira de Sommeliers-SP (Conhaques e Charutos), tradutor, colaborador de revistas e sites especializados em matérias sobre vinhos, relógios, charutos, conhaque e outros assuntos ligados ao mercado de luxo.
Marcello Borges

Conteúdo RSS

Visualizar Conteúdo RSS Artwine

Newsletter

Receba nossas novidades por e-mail Cadastrar
2019 Artwine - Todos os direitos reservados