Pingus, a saga de um dinamarquês na Espanha

23/04/2013

Trazido pela Grand Cru, importadora exclusiva de seus vinhos para o Brasil, o dinamarquês Peter Sisseck conduziu exclusiva degustação de seus vinhos e explicou as razões de seu sucesso...

PETER SISSECK, o criador do ícone Pingus


Simplicidade absoluta – essa seria a melhor definição para Peter Sisseck, codinome Pingus, o homem que está por trás de um dos melhores e mais bem sucedidos projetos vinícolas da Espanha. 

Quem não o conhecia pessoalmente, como é o nosso caso, se impressiona com a tranquilidade e a modéstia desse dinamarquês nascido em 1962 e que, desde muito cedo, se apaixonou pelo mundo dos vinhos e dele nunca mais saiu.

Sorte nossa, e de todos aqueles que valorizam vinhos de terroir, nascidos em uma das mais conceituadas regiões vinícolas da Espanha, a nobre Ribera del Duero. O primeiro contato de Peter com os vinhos se deu quanto visitou seu tio Peter Vinding, um renomado enólogo em Bordeaux. Ali,  percebeu que seu destino seria irremediavelmente o vinho. Já adulto, passou um período no Château Rahoul na França e depois, mais um tempo na Simi Winery em Sonoma, nos EUA.

Em 1998 estudou engenharia agrícola em Copenhagen, mudando após o término do curso para a França, trabalhando com Vindig no Château Landiras. Sua história na Espanha começou de forma muito discreta, no cargo de gerente e diretor técnico da Hacienda del Monasterio. 

Isso era pouco para Peter, que aproveitou seus momentos em Ribera del Duero para buscar antigos vinhedos de Tinta del Pais, nome que a Tempranillo recebe em Castilla y León. Sua obstinação foi recompensada com o encontro de um vinhedo extraordinário em La Horra-Roa, a 750/800 metros de altitude. 

Segundo nos contou em nosso encontro na Grand Cru em São Paulo, essa pequena parcela de terreno possui uma constituição geológica muito particular. Conhecida como Quintanilla de Onesimo, nome derivado de um soldado romano que teria sido seu antigo proprietário, a propriedade abriga dois vinhedos pré-filoxéricos, com mais de 80 anos de idade, naturalmente equilibrados e de baixíssimo rendimento, que estão plantados em solos bastante diversos e únicos. 

Vinhedos de baixíssimo rendimento, um dos trunfos do Dominio de Pingus

O primeiro vinhedo, de onde vêm as uvas de Pingus, o vinho ícone da empresa, se denomina Barroso, e está localizado numa antiga “terraza”, ou terraço do Duero, constituída de pedregulho e areia, sobre um subsolo de argila e calcário, com excelente drenagem e baixa fertilidade, um terreno ideal para que as videiras produzam uvas de excepcional qualidade.

Viñas Viejas, origem das uvas que dão vida ao Pingus


O segundo, denominado San Cristóbal, tem suas plantas bem estabelecidas numa “ladera”, ou pequena encosta, com orientação Sul e Oeste.

Desses dois vinhedos nasceu, em 1995, o Pingus, um autêntico vinho de garagem, de inspiração biodinâmica, vinificado com uvas inteiras em pequenos balseiros de 2000 litros, com fermentação maloláctica em barricas de carvalho francês, onde o vinho permanece, em média, por 20 a 22 meses. 

Para se ter uma ideia da exclusividade desse vinho, basta dizer que são produzidas apenas 6000 garrafas por ano, quantidade minúscula, reflexo do rendimento muito baixo dos antigos vinhedos, algo como 11 hectolitros por hectare, cerca de 1,5 toneladas por cada 10000 metros de área plantada, que hoje é de 4,5ha.

Pequenos tanques de aço inoxidável e balseiros de carvalho francês, onde os vinhos da Dominio de Pingus são fermentados

Segundo Peter, a primeira safra do Pingus, em 1995, recebeu uma crítica muito favorável do famoso crítico americano Robert Parker, que o classificou como “o melhor vinho de pouca idade que havia provado em sua vida”, dando-lhe nota 98/100, fato notável para um vinho espanhol na época. Evidentemente isso deu rápida notoriedade ao vinho e ao seu criador, tornando o Pingus um dos vinhos mais desejados pelos enófilos de todo o mundo.

Esse fato é ainda mais relevante quando se analisa o que veio depois, uma série de vinhos excepcionais, safra após safra, atestando a consistência do projeto e o acerto de Peter na escolha dos vinhedos e das técnicas minimalistas de vinificação, sem maquiagem, sem retoques, privilegiando a expressão máxima do terroir de La Horra/Roa, e da excelência das uvas provenientes de “parras viejas”, um dos grandes patrimônios da Espanha.

Na degustação, o Pingus 2009 mostrou toda sua força, sem jamais perder o que possui de melhor, a elegância e a sofisticação. 

Nesta safra, o vinho passou por 24 meses em barricas de carvalho francês, sendo 20% novas. De cor rubi/púrpura, escuro e impenetrável, exibiu aromas intensos de frutas escuras maduras, com notas florais (violeta) e minerais (grafite), com carvalho muito bem integrado e pouco perceptível, graças ao uso judicioso da madeira nova (só 20%). 


Na boca é, para dizer o mínimo, impressionante, com destacado frescor e equilíbrio, mesmo com 15,5% nominais de álcool. Notável pureza de fruta é outro de seus atributos, exibindo taninos de finíssima textura, grande concentração de sabores e persistência muito longa. Um vinho espetacular, de longa guarda, mas acessível e delicioso para ser degustado hoje, com muito prazer...Pena que em 2009 foram produzidas apenas 300 caixas dessa preciosidade. Os interessados devem se apressar.

Flor de Pingus, boa opção de preço mais acessível

Claro que uma produção tão pequena não seria suficiente para suprir as necessidades do crescente mercado de vinhos de alta gama. 

Pensando especificamente no mercado norte-americano, Peter criou o Flor de Pingus, que, ao contrário de seu irmão mais famoso, é elaborado com uvas provenientes de 16 vinhedos diferentes, mesclando as frutas de parreiras velhas e parreiras mais jovens, com resultado bastante interessante.

 Cada parcela é vinificada separadamente, em tanques de aço inoxidável de 4000 litros, com fermentação maloláctica em barricas, onde o vinho amadurece por 16 a 18 meses. Aqui, o rendimento dos vinhedos é também bastante reduzido, na média, 19 hectolitros por hectare. A produção anual é de 60.000 garrafas.


Com Peter, degustamos o Flor de Pingus 2009, que segundo ele, é um vinho mais masculino, fruto do stress hídrico de agosto. A passagem por carvalho francês foi de 18 meses, sendo 40% novo e 60% de segundo uso. 

Curioso foi constatar como é diferente do Pingus, em quase tudo, menos na cor, um rubi/púrpura escuro e impenetrável. No perfil aromático mostrou-se mais aberto, com frutas maduras entremeadas a notas florais, baunilha e tostado, com o inconfundível toque de bala de cevada, uma reminiscência da infância dos “jovens” de mais de 50 anos. 

Na boca é potente, com acidez e álcool elevados, com taninos finos ainda bastante perceptíveis, fruta exuberante, corpo pleno e longa persistência. Um pouco mais de tempo na garrafa certamente lhe fará muito bem.

Projeto Psi, ou como salvar videiras antigas do risco de extinção

Iniciado em 2006, o Projeto Psi nasceu do desejo de Sisseck de salvar as antigas videiras de Ribeira del Duero, que estavam sendo arrancadas e ameaçadas de extinção. Para se ter uma ideia do risco, em 1990 havia 9.000 hectares de vinhas em Ribera del Duero, com 6.000 videiras antigas. Hoje são 22.000 hectares e apenas 4000 parreiras antigas. A ameaça de extinção é real. 

PSI, um projeto nascido para evitar o desaparecimento das preciosas parreiras velhas de Ribera del Duero

Para evitar essa tragédia nasceu em 2007, sua primeira safra, o Psi, das Bodegas y Viñedos Alnardo, em colaboração com o enólogo Pablo Rubio, que juntamente com Peter percorreu toda a região identificando e selecionando as melhores parcelas de vinhas velhas, objetivando a criação de um vinho o mais natural possível.

Foram selecionadas vinhas de dezenas de pequenos produtores que se associaram ao projeto, dando origem a um vinho moderno, elaborado com técnicas biodinâmicas. Provamos o Psi 2010, uma agradável surpresa. 

Tinta del Pais em pureza, com “um par de meses” em barricas e o restante do tempo em grandes tonéis e tanques de cimento, o Psi privilegia a fruta. E, que fruta! Rubi/púrpura escuro na cor, exibe aromas de frutas escuras maduras, com notas florais muito delicadas. Boca deliciosa, elegante, equilibrada, com frescor acentuado, álcool equilibrado, taninos finos, boa persistência e textura macia. 

PSI, um vinho moderno e elegante...

Peter nos contou que esse frescor e essa delicadeza são provenientes de uvas plantadas na parte mais alta de Ribeira del Duero, que possui menor temperatura que a média da região.

Em 2010 Peter deu início a um novo projeto na França, em Saint-Emiliion, numa área específica (“lieu-dit) denominado Rocheyron, nascendo assim o Château Rocheyron. Mas isso é outra história, que contaremos oportunamente.

Agradecimento especial a Camila Perossi e ao staff da Grand Cru, pela gentileza e pelo impecável serviço dos vinhos.



Ver outros Artigos e Reportagens
Arthur Azevedo Presidente da Associação Brasileira de Sommeliers (ABS-SP) , editor da revista Wine Style (2005/2011), jornalista especializado em vinhos, palestrante, consultor da Artwine, membro de confrarias internacionais.
Arthur Azevedo

Conteúdo RSS

Visualizar Conteúdo RSS Artwine

Newsletter

Receba nossas novidades por e-mail Cadastrar
2019 Artwine - Todos os direitos reservados