Os artesãos de Champagne

26/06/2012

Pequenas produções em Champagne são sinônimo de vinhos de altíssima qualidade, numa região onde a qualidade habitualmente se situa em patamares dos mais elevados. Nesta matéria, publicada originalmente na revista Robb Report, abordamos alguns dos representantes dessa nova tendência da região

Champagne é sinônimo de vinho espumante de elite, a mais perfeita expressão que um vinho desse estilo pode apresentar. 

A famosa Catedral de Reims, coração de Champagne, onde todos os Reis da França foram coroados


Conhecida internacionalmente pela altíssima qualidade de seus vinhos, Champagne é uma região única, onde a soma de um solo constituído por elevadas proporções de calcário, com um clima único, frio e úmido, resulta em condições altamente favoráveis para o cultivo de uvas extremamente adequadas para a produção de vinhos espumantes.

O método utilizado em Champagne é o champenoise, com duas fermentações alcoólicas, sendo que a segunda delas, a que gera o gás carbônico que dá origem às famosas e cobiçadas bolhinhas, ocorre dentro da própria garrafa em que o vinho será comercializado. Também são muito famosas na região as grandes maisons, muito conhecidas e responsáveis por abastecer o mundo com o precioso líquido. Até aqui, nenhuma novidade.

No entanto, de alguns anos para cá, há uma nova e interessante tendência na região, representada por pequenos produtores, os chamados Artesãos de Champagne, que possuem identidade própria e elaboram seus vinhos de forma muito exclusiva e, em alguns casos, absolutamente inusitada. Para ilustrar esse fato, escolhemos quatro produtores artesanais de alto nível. Mas antes, vamos analisar as características comuns a estes artífices dos espumantes

O segredo dos artesãos

Ao contrário das grandes maisons, os artesãos de Champagne escolheram caminhos bastante inovadores para a produção, muito limitada, diga-se de passagem, de seus preciosos vinhos. Seus bem guardados segredos só recentemente vêm sendo, pouco a pouco desvendados. 

De modo geral, poderíamos dizer que os princípios comuns a estes produtores se resumem a uma série de práticas viticulturais e de vinificação, que resultam em champanhes de grande personalidade e muito caráter.

De início, os artesãos usam vinhos de vinhedos próprios, o que lhes permite exercer absoluto controle sobre todas as operações do vinhedo, incluindo o controle do rendimento, mantido sempre em níveis muito baixos, o que melhora significativamente a qualidade do vinho-base, resultando numa evidente melhoria do produto final, após a segunda fermentação.
 
Além disso, na vinificação dos vinhos-base se usa cada vez mais a barrica de carvalho, tanto para a fermentação dos vinhos como para seu amadurecimento, atitudes raramente vistas em Champagne.

Barricas Krug

Outra característica marcante é o uso cada vez menor de açúcar no licor de dosagem, resultando em champanhes com acidez mais marcante e mais secos, rotulados como Extra-Brut ou Nature. Isso exige uma perfeita elaboração do champanhe, pois qualquer deslize pode resultar em vinhos desequilibrados e desagradáveis. 

Por fim, uma surpresa: estes champanhes possuem efervescência abaixo da média, ou seja, tem menor pressão de gás carbônico, o que acaba ressaltando a verdadeira expressão do vinho, o que, mesmo que pareça uma heresia, para estes artesãos, é absolutamente essencial.

Clos d'Ambonnay, o novo ícone da família Krug

A simples menção do nome Krug é suficiente para causar frisson em qualquer apreciador de champanhe. A mítica casa de Reims é venerada por uma verdadeira legião de fãs, entre os quais, óbviamente se inclui o autor deste texto. Conhecida por seus exclusivos champanhes, a casa Krug, uma das integrantes do chamado Trio de Ferro de Champagne, é comandada por Rémi e Henri Krug, e mais recentemente por Olivier, filho de Henri. 

O Clos d'Ambonnay é a mais nova criação da casa, surgida muitos anos depois do outro ícone, o Clos du Mesnil, um champanhe Blanc de Blancs, chardonnay em pureza, elaborado com uvas de um vinhedo de 2 hectares, situado na Côte des Blancs, em Mesnil-sur-Oger.

Vinhedo Clos Ambonnay

 O novo champanhe, o Clos d'Ambonnay, é outro vinho de vinhedo único, só que agora um Blanc de Noirs, pinot noir em pureza, obtido de um minúsculo vinhedo murado de 0,685 hectares, situado na Montagne de Reims, mais precisamente no vilarejo de Ambonnay, origem das preciosas pinot noirs que Krug usa em seus fabulosos champanhes. Guardado em segredo por 12 anos -sua primeira safra é 1995-, se transformou rapidamente no mais cobiçado de todos os champanhes, objeto de desejo de dez entre dez amantes de Champagne. Um marco na história da Casa Krug.

Descansando em berço esplêndido, o novo Krug aguarda o momento de ser degustado por poucos privilegiados

François Moutard  e o seu exclusivo Arbane Vieilles Vignes

Localizada na pequena Buxeil, na Côte des Bar, no extremo sul da região, esta empresa familiar marca presença da região há mais de 200 anos, com muitas gerações de viticultores compromissadas com a produção de champanhes de alta qualidade, alguns deles verdadeiras raridades históricas. Isso porque a Maison Moutard é o único produtor de Champagne que possui a ancestral cepa Arbane, hoje praticamente extinta, da qual só restam 2 hectares plantados. 

François Moutard, o homem que comanda a Maison Moutard e alguns aspectos dos vinhedos e vinícola Moutard



Fermentada em barrica, a uva dá origem, após a segunda fermentação na garrafa a um champanhe exclusivo e único, o Arbane Vieilles Vignes. Também é da Moutard o único champanhe produzido com seis das sete uvas permitidas na região. 

Surpreso? Isso mesmo, são sete e não três as uvas permitidas em Champagne. O ótimo Moutard Six Cepage possui partes iguais de chardonnay, pinot noir, pinot meunier, pinot blanc, arbane e petit meslier. Vale a pena ser conhecido. Para registro, a sétima uva permitida em Champagne é a conhecida pinot gris, que no entanto é raramente ou nunca utilizada na região.

Salon, um champanhe nascido no jardim

Dizer que o vinhedo original deste antológico champanhe é um jardim não é exagero. Isso porque, seu criador, Eugéne-Aimé Salon, no início do século 20, batizou o pequeno vinhedo de 1 hectare, escolhido por ele entre suas melhores parcelas, com o nome de “Le Jardin du Salon”.

Marco em pedra da Maison Salon

Até hoje, as uvas deste vinhedo, da variedade chardonnay, juntamente com outras da mesma variedade colhidas em 19 parcelas, que somadas atingem 9 hectares, são utilizadas para a produção deste nobre Blanc de Blancs de rara elegância e nobreza. Somente produzido em anos extraordinários, o Salon é, sem dúvida, um vinho de exceção, para se colocar no currículo.

Vinhedos espetaculares são a origem das uvas que compõe o ícone Salon


Jacques Selosse, será champanhe?

Comandada nos dias atuais pelo irriquieto Anselme Selosse, a casa Jacques Selosse produz os mais desconcertantes champanhes que se tem notícia. Sua linha de vinhos surpreende a cada garrafa. A casa produz mais de uma dezena de champanhes inovadores e criativos, elaborados com técnicas jamais pensadas na região. 

Caves subterrâneas, onde descansam em silêncio os champanhes Selosse


O melhor exemplo disso é o Jacques Selosse Substance, tão diferente que, quando foi apresentado pela primeira vez a um seleto público no Encontro Internacional do Vinho de Pedra Azul, motivou a pergunta do intertítulo acima. 

Substance, um dos emblemáticos champanhes de Jacques Selosse


Isso porque Anselme, além de fermentar os vinhos base em barricas de carvalho, de tamanhos variados, parte novas e parte usadas, utiliza Vinhos de Reserva sacados de uma Solera, no melhor estilo Jerez, iniciada em 1986, com vinhos de Avize. As uvas para os vinhos-base são provenientes unicamente de Grands Crus famosos da Côte des Blancs, como Avize, Cramant, Oger e Le Mesnil, totalizando 6,65 hectares de chardonnay, e apenas 0,85 hectares de pinot noir, provenientes de Aÿ, Ambonnay e Mareuil-sur-Aÿ, estes três últimos situados na Montagne de Reims. Mais exclusivo, impossível.

Práticas viticulturais artesanais são utilizadas nos vinhedos de Jacques Selosse


Referência Bibliográfica: Jancis Robinson, em "The Oxford Companion of Wine" - 3rd Edition

Artigo publicado originalmente na revista Robb Report

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Arthur Azevedo Diretor da Associação Brasileira de Sommeliers (ABS-SP) , editor da revista Wine Style (2005/2011), jornalista especializado em vinhos, palestrante, consultor da Artwine, membro de confrarias internacionais.
Arthur Azevedo

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